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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


01.02.17

Vamos ao Teatro, se houver.

por Nes.

Se já leram "O Primo Basílio" sabem certamente que logo no início do livro, quando o casal recebe os amigos em casa, chega até nós a personagem do Ernestinho, primo de Jorge.

 

"Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte - porque era empregado na Alfândega, com um bom vencimento, (...) A Arte mesmo, dizia, obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da «Honra e Paixão» mandara fazer, à sua custa, botas de verniz para o galã, botas de verniz para o pai-nobre!".

 

Triste, não? Uma Arte como o Teatro, com a missão edificadora de educar a mente de um povo, reduzida a tamanha indigência que nem dinheiro para botas há, quanto mais para autores que possam dedicar-se à escrita sem necessidade de um emprego "a sério" para pagar as contas.

 

daqui.

 

Se não sabiam fiquem sabendo - o próprio Eça foi actor amador no seu tempo. O amor à cena te-lo-á certamente ajudado a desenvolver as suas capacidades de escrita, mas acima de tudo foi relevante para elogiar profundamente o Teatro e a sua importância cultural, ao ponto de ser uma presença comum nos seus livros.

 

"Somente acontece que as comédias estrangeiras, concebidas para a fina interpretação de actores educados, encontram aqui uma interpretação grosseira e falta de ofício - e não podem interessar: e os dramalhões, que vivem apenas dos esplendores da decoração, encontrando aqui telas roídas da humidade, fatos de paninho remendado, um papelão apodrecido, uma miséria que os apaga e os apelintra - não podem atrair. Portanto estes teatros arrastam uma vida difícil.", reza Eça numa das suas "Farpas". O problema do teatro naquele tempo, como agora e sempre, era o financiamento. Como vimos acima, Ernestinho paga as botas ao galã do próprio bolso; como vimos há uns tempos, A Cornucópia teve a visita de urgência do Presidente Marcelo, como quem corre a fazer boca-a-boca a um teatro que definha.

 

Mas será só mesmo problema de financiamento? Das últimas vezes que fui ao teatro, havia até bastante gente na plateia. Os bilhetes não são propriamente baratos, os cenários e acessórios são minimalistas, o mesmo actor faz vários papéis. Então afinal o que se passa?

 

daqui.

 

Segundo Eça, o problema era a falta de investimento sim, mas não apenas financiamento. Faltava, nesse tempo, gente e talento. Gente na plateia e no palco, gente a escrever e a encenar, e acima de tudo, talento que inundasse todos os intervenientes.

 

"O Português não tem génio dramático, nunca o teve, mesmo entre as passadas gerações literárias, hoje clássicas. A nossa literatura de teatro toda se reduz ao Frei Luís de Sousa. De resto, possuímos dois tipos de dramas, que constantemente se reproduzem: o drama sentimental e bem escrito, de belas imagens, ode dialogada, em que unia personagem lança frases soberbamente floridas, o outro retruca em períodos sonoros e melódicos - e a acção torna-se assim um tiroteio de prosas ajanotadas: o drama de efeito, com o que se chama finais de acto, lances bruscos, um embuçado que aparece, uma mãe que se revela:

— Ah! Céus! E ele! Matei meu filho! Oh!»

Acresce a isto a farsa com os velhos motivos de pilhéria lusitana, o empurrão, o tombo, a matrona bulhenta, o general de barrete de dormir, etc. E é tudo! Sentimentos, caracteres solidamente desenhados, costumes bem postos em relevo, tipos finamente analisados, estudos sociais concretizados numa acção, a natureza, a realidade, a observação da vida - isso encontra-se ainda menos num drama do que numa corrida de touros."

 

daqui.

 

"qual é a atitude do Estado, respectivamente aos teatros? É esta:

O Governo não dá nada aos teatros nacionais;

E dá 25 contos a S. Carlos!"

 

Bem, será então em São Carlos, teatro italiano, teatro lírico, cujo coro tivemos a felicidade de ouvir no funeral de Mário Soares, que o público vai ver, vai ouvir, vai educar-se e vai reflectir. Vai, certo?

 

"(...) não podia aprovar o ter Carlos tomado uma frisa de assinatura.
- Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor? Para lá não pôr os pés, para passar aqui as noites... Hoje diz que há entusiasmo, e ele aí esteve. Tem ido lá, eu sei? duas ou três vezes... E para isto dá cá uns poucos de centos de mil réis. Podia fazer o mesmo com meia dúzia de libras! Não, não é governo. No fim a frisa é para o Ega, para o Taveira, para o Cruges..."

 

"Carlos ficou pensando naquela proposta do Ega, na maneira como ele sublinhara o empenho da condessa. Lembrava-se agora que ela era muito íntima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, naquela fácil vizinhança de frisa, surpreendera certos olhares dela..."

 

"Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de sudoeste, parecia penetrar ali, derramando o seu pesadume, a morna sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vazias, havia uma mulher solitária, vestida de cetim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gás dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo também.
- Isto está lúgubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que ocupava o escuro da frisa."

 

daqui.

 

É um panorama tristonho, este que nos é fornecido pelo livro "Os Maias", que narra as aventuras da elite lisboeta, que deviam ter a obrigação, por educação e meios, de financiar e apreciar o teatro, em lugar de lá ir somente como desenfado, para namorar ou para fazer negócios.

 

"O público vai ao teatro passar a noite. O teatro entre nós não é uma curiosidade de espírito, é um ócio de sociedade. O lisboeta, em lugar de salões, que não há - toma uma cadeira de plateia, que se vende. Põe a melhor gravata, as senhoras penteiam-se, e é uma sala, uma soirée, um raout, ou mais nacionalmente uma assembleia. Com esta grande vantagem sobre um salão: - não se conversa." (As Farpas)

 

"Veio sentar-se ao fundo ao pé de Luísa, e ficou a olhar, vagamente cansada; havia um sussurro lento; bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando de fora, fazia uma névoa apenas percetível que enchia a sala, ia prender-se ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes." (O Primo Basílio)

 

daqui.

 

Mas até mesmo quando Eça aparentemente elogia São Carlos, única força viva do teatro em Portugal, consegue dar a volta ao texto e expor as falhas do mesmo, nomeadamente quando o dá a conhecer através dos olhos do extático e hiper sentimentalista Artur.

 

"Os personagens, com os seus gestos melodramáticos, pareciam-lhe mover-se vagamente na instrumentação substancial e maciça, como numa atmosfera sonora de sonho. Olhava a decoração, as passadas selvagens de Nelusko, as duas colunas do proscénio, tocadas de alto a baixo de um vivo de luz, os camarotes que lhe pareciam muito distantes, a palidez dos rostos sob a luz do gás, e sentia-se envolvido numa harmonia magnífica e incompreensível, em que por vezes seguia, durante um momento, melodias delicadas que o tumulto da instrumentação bem depressa absorvia. A magnificência orquestral, junto à riqueza social que sentia em redor, davam-lhe uma vaga opressão. Quando o pano desceu, respirou com alívio." (A Capital)

 

"O teatro de S. Carlos não constitui um elemento de civilização, mas de decadência. Se alguma coisa debilita o carácter e enfraquece o espírito - é a influência da música italiana, sentimental, amorosa, langorosa, mórbida. Uma ópera é um lupanar. Cada dueto, cada alegro, uma excitação erótica. Imagine-se uma menina ouvindo durante um ano aquela ladainha de sensualidades que se chama - Lúcia, Norma, Traviata, Maria de Rohan, Favorita, Baile de Máscaras, etc.? O adultério idealizado, o amor como a coisa superior e única da existência, o dever considerado burguês, a honestidade mal portée; e toda aquela moral suspirada, gemida, arrastada na dilacerante agonia da rabeca, assobiada irritantemente na flauta, modulada aereamente na harpa, soluçada de um soluço inteiro pelo demónio invisível que habita o violoncelo, tornada acre e triunfante nos instrumentos de metal, roncada no rabecão; e sobre esta massa de voluptuosidade instrumentada, as adúlteras, os galãs, os amorosos, todo um mundo melodioso e devasso, que geme, arqueia os braços, se torce nos êxtases da paixão, entra pelas portas das alcovas, semeia tudo de beijos, e morre de amor, romanescamente, numa ária dolente! Ah! nós não somos bárbaros. Estimamos a música. Meyerbeer, Gluck, Mozart, Beethoven, são verdadeiros pensadores. Mas S. Carlos canta-os? De modo nenhum, a não ser de dois em dois anos Meyerbeer a fugir e a fingir. De resto Donizetti, Bellini, todos os sensualistas! Ora aqueles, respeitamo-los como ideias que cantam - estes detestamo-los como erotismos que arrulham.

O teatro de S. Carlos não dá participação a todo o País da sua arte. Bem ao contrário, é um teatro exclusivo, de um público limitado, escolhido, sempre igual. O País paga para que este público goze. Para que nós tenhamos árias, comem os lavradores sardinhas!"

 

 

publicado às 17:46

22.06.16

Nunca mates o Mandarim.

por Nes.

No domingo passado fui ao Teatro Nacional de São João, assistir à peça "Nunca Mates o Mandarim". Pela descrição que li da peça estava à espera de uma adaptação de "O Mandarim", como ponto de partida inicial para explorar a ganância e a violência que sucedeu no século XX. Todavia, a peça não só se manteve bastante fiel ao texto da novela de Eça, como ainda para mais conseguiu incorporar alguns elementos anacrónicos que em nada a prejudicaram.

 

No entanto, a brochura entregue à entrada do teatro esclarece que este trabalho de Eça recupera o famoso "paradoxo de Rousseau", tratado também por outros escritores no mesmo século. O problema versava a capacidade do ser humano de praticar o mal, sabendo que tirará apenas vantagens disso. Os actores e produtores da peça esclarecem que esse paradoxo é excelente para explicar o que sucedeu na História europeia no século XX, nomeadamente a vontade de exigir para si mesmo as benesses, ainda que à custa do sofrimento alheio. Segundo o folheto, tal explica muito do que tem sucedido, fornecendo como exemplos desde o pensamento nazi, até ao facto de ainda hoje a sociedade exigir ao mercado que comercialize roupas a preços estupidamente baixos, mesmo que à custa da escravatura dos trabalhadores no Oriente.

 

daqui.

A novela faz-nos ponderar a fragilidade das nossas barreiras morais, e o poderoso impacto que têm os remorsos na nossa vida. Quando li "Harry Potter" fiquei abismada com o remédio, único lenitivo capaz de curar uma alma dilacerada pelo assassínio - o remorso. O remorso? Na minha ideia, os remorsos eram um castigo moral contra o qual não era possível reagir, eliminar ou evoluir; eram um fim em si mesmo, uma punição e nada mais. Perceber que tanto J.K.Rowling como Eça viram o remorso como uma força regeneradora fez-me pensar.

 

daqui.

 

E assim é com o nosso Teodoro - tem todos os bens, todos os luxos, saúde, mocidade, uma multidão aos pés, todas as flores da Civilização se abrem para que as suas mãos as colham. Na peça isso é transmitido através de um Teodoro que no início comia noodles de uma taça de papel e no final bebia Moet & Chandon com os amigos, que tinham o nariz branco de cocaína e silvavam e riam como cães loucos. Infelizmente o pobre Teodoro é assombrado pela visão do Mandarim assassinado só com um toque de campainha, e reza e pede e pede e reza, e paga aos amigos para que rezem por ele, que ajudem a afastar a lembrança do homem assassinado... Nada o alivia.

 

Enfim embarca para a China, onde sofre toda a espécie de infortúnio, os remorsos continuam a atormentá-lo, e é atacado pela turba, que descobre que vem lá um estrangeiro com as malas cheias de ouro. Essa é uma cena especialmente bem conseguida - Teodoro corre pelo palco, desmaia e é assistido por dois padres lazaristas. Aqui vemos como as excelentes intenções do herói, encontrar a família do Mandarim e recompensá-los com dinheiro, falham prodigiosamente, e tem efeitos ainda mais nefastos do que se ele nada tivesse feito.

 

daqui.

 

Teodoro regressa a Lisboa, e tenta comportar-se como se nada se tivesse passado. Não consegue, por muito que tente voltar à vida antiga, por muito que tente esquecer-se do Mandarim, ele é incapaz de tornar a ser inteiro. É um semi-Teodoro que se despede de nós, assombrado, derrotado e triste. O folheto da peça deixa implícito que podemos tirar duas lições morais da história de Teodoro: por um lado, evitar praticar o mal em benefício próprio, e por outro lado, procurar interpretar melhor o postulado que o levou a matar o Mandarim. O Diabo aparece e descreve todas as delícias que cento e seis mil contos podem trazer - e Teodoro, com os olhos a brilhar, olhando para o abismo, atira-se, sem pensar nas consequências é certo, mas também sem sequer se esforçar por argumentar com o Diabo. É uma perspectiva no qual pessoalmente nunca tinha pensado - Teodoro pode afinal ser um mau leitor, e um ainda pior objector!

 

Eu já não ia ao teatro há anos, e havia esquecido como pode ser uma experiência electrizante. Foi embaraçoso ter ficado tão emocionada no remate final do velho Teodoro, cansado das peripécias que vivera por conta dos cento e seis mil contos do Mandarim, concluindo que só nos sabe bem o pão ganho todos os dias com o fruto do nosso esforço.

 

"E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!"

 

E segundo os autores da brochura, isto só mostra como o Diabo fez o seu trabalho bem feito - Teodoro foi de tal modo trabalhado pelo Diabo, que este até ao fim julga que a culpa de tudo é da elasticidade moral humana, sem pensar que o problema pudesse residir na necessidade de uma vontade pétrea. Como dizia Teodorico d' "A Relíquia" - "E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu - cria, através da universal ilusão, ciências e religiões."

publicado às 10:20

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