Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


26.11.17

Então eles à noite só tomam chá? Hábitos alimentares no século XIX.

por Nes.

Houve duas coisas que estranhei imenso quando comecei a ler os livros de Eça. A primeira - os livros dele davam-me uma fome tremenda. Eram constantes as referências a bons pratos, comida de conforto, de tal forma descritos que dava vontade de entrar no livro para tirar uma porção.

daqui.

"Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo e, na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz húmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado." (O Crime do Padre Amaro)

 

"E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!
— Bravo! Está soberbo!
Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco toscado, abrindo em lascas." (O Primo Basílio)

 

"Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou — e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: — Está bom!
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
— Também lá volto! — exclamava Jacinto com uma convicção imensa. — É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira." (A Cidade e as Serras)

daqui.

Se não sabíamos que Eça era um guloso inveterado, podíamos adivinhá-lo pelos seus livros; muitos dos episódios da vida em sociedade, nos quais são descortinados os seus pensamentos e opiniões, acontecem à mesa. E as suas personagens, mesmo já de barriga cheia, não hesitam em continuar a conversa discorrendo abundantemente sobre comida.

 

"Mas em presença dos doces que a Sra. Filomena dispôs sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: para os folhados, o Cocó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o Largo de São Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os olhos:
— Porque — dizia — o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por dentro a alma!" (O Primo Basílio)

 

"- E, para ser festa completa, exclamou ele, limpando os bigodes do cognac, enquanto vocês vão ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o break, eu vou-me entender la abaixo à cozinha com a velha Lawrence, e preparar-vos um bacalhau à Alencar, recipe meu... E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não!" (Os Maias)

daqui.

No entanto, a segunda coisa que me espantou foram os horários. Esta gente estava toda trocada, não? Almoçavam logo de manhã? Jantavam a meio da tarde? E à hora do jantar só tomavam chá com torradas?

 

"O administrador surpreendido olhou também o relógio, depois a mesa já posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
- Então V. Ex.ª agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
- Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regime. De madrugada está já na quinta; almoça ás sete; e janta à uma hora. E eu, enfim, para vigiar as maneiras do rapaz..." (Os Maias)

 

"Mas durante todo o dia, Luísa em roupão não saiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na poltrona lendo aos bocados, ora batendo distraidamente no piano pedaços de valsas. Jantou às quatro horas." (O Primo Basílio)

 

"Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. O "Engenheiro", como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco à estudante. Luísa fazia croché, Jorge cachimbava." (O Primo Basílio)

 

"As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente as torradas; sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos pingos da manteiga e das nódoas do chá, estendiam prudentemente os lenços sobre o regaço." (O Crime do Padre Amaro)

daqui.

Estranho, não? Mas mais tarde lembrei-me que a minha avó me perguntava, ao pequeno-almoço, "se já tinha almoçado" e comecei a ligar dois mais dois. Ou seja - para os antigos o almoço é o pequeno almoço, por isso é que é tão cedo. O jantar deles é o nosso almoço, e como na altura se "almoçava" tarde, também se jantava tarde. E como se "jantava" tarde, à noite não havia jantar - mas sim a ceia!

 

Indo por essa lógica, compreende-se melhor que haja personagens, por exemplo, a falar de jantar à uma da tarde, como se refere no excerto d' "Os Maias" acima. Não é apenas o léxico que é diferente - é também o horário em que as pessoas fazem as refeições que é diferente do nosso. Por exemplo, o casal Luísa e Jorge jantava relativamente tarde, quando ele regressava do trabalho. Por seu turno, o padre Amaro "almoçava" depois da missa, porque a ia celebrar em jejum.

daqui.

E como seria de esperar, todo este post deu fome.

 

 

 

publicado às 19:11

22.10.17

Morte.

por Nes.

Não há período mais sofrido, nebuloso, estranho e impenetrável que o período de luto, tal como o país viveu nesta última semana. A tristeza oculta toda a vaidade e toda a flamejante personalidade, como uma manta preta que se atira para as costas de todos. O choque inicial perante a finitude causa um abstraimento de tudo além da dor que se sente. Só horas mais tarde é que o corpo se manifesta - uma fome imensa, um sono pesadíssimo. Fuga à realidade? Ou uma prosaica forma de o cérebro nos chamar à realidade?

 

Nos livros de Eça a finitude é um tema vulgar. Todavia, apesar do choque inicial, muitos são os que não passam por nenhum destes estádios - recebem a notícia da morte, ficam ligeiramente abananados, e depois seguem a sua vida. É o que acontece quando Luísa morre, em "O Primo Basílio". Este, seu amante e co-responsável pela expiação que Luísa sofre nas mãos da empregada, empalidece ligeiramente com a notícia da morte, para depois junto do amigo Reinaldo dar uma pancadinha de bengala no chão, frustrado por ter ficado sem o seu entretenimento.

 

"O  Visconde  Reinaldo,  delicado,  lamentava  a  pobre  senhora,  coitada,  que  se tinha  deixado  morrer  por  um  tempo  tão  lindo!  —  Mas  em  resumo,  sempre achara  aquela  ligação  absurda... Porque  enfim  fossem  francos:  que  tinha  ela?  Não  queria  dizer  mal  da  pobre senhora  que  estava  naquele  horror  dos  Prazeres,  mas  a  verdade  é  que  não  era uma  amante  chique;  andava  em  tipoias  de  praça;  usava  meias  de  tear;  casara com  um  reles  indivíduo  de  secretaria;  vivia  numa  casinhola,  não  possuía relações  decentes;  jogava  naturalmente  o  quino,  e  andava  por  casa  de  sapatos de ourelo;  não tinha espírito,  não tinha  toilete...  que  diabo!  Era  um  trambolho!

—  Para  um  ou  dois  meses  que  eu  estivesse  em  Lisboa...  —  resmungou Basílio com  a  cabeça  baixa.

—  Sim, para  isso talvez.  Como higiene!  —  disse Reinaldo  com  desdém."

 

A família e amigos de Luísa não reage de melhor forma. Além de Jorge, que chora sentidamente a sua perda, e de Sebastião, que secretamente estava apaixonado por ela, quem na realidade sente a perda? Ninguém.

 

daqui.

 

O que é que faltou ali, para que todos os amigos de Luísa tivessem seguido a sua vida sem grande drama? Sensibilidade, compaixão, solidariedade? A meu ver tudo isso, somado a outra coisa que Eça tera querido demonstrar - o umbiguismo de todos.

 

 "Àquela  hora  Jorge  acordava,  e  sentado  numa  cadeira,  imóvel,  com  soluços cansados  que  ainda  o  sacudiam,  pensava  nela.  Sebastião,  no  seu  quarto, chorava  baixo.  Julião,  no  posto  médico,  estendido  num  sofá,  lia  a  Revista  dos Dois  Mundos.  Leopoldina  dançava  numa  soirée  da  Cunha.  Os  outros dormiam.  E o  vento  frio  que  varria  as  nuvens  e agitava  o  gás dos  candeeiros  ia fazer ramalhar tristemente uma  árvore  sobre  a sepultura  de Luísa."

"Basílio  dirigiu-se  ao  cupê  devagar,  com  a  cabeça  baixa.  Olhou  mais  uma  vez para  a casa;  fechou  com  força  a  portinhola.  O  Pintéus  bateu  para  a  Baixa. O Paula  então  aproximou-se do estanque:

—  Não  lhe  fez  muita  mossa!  Fidalgos!  Canalha!  —  murmurou. 

A estanqueira  disse  lamentosamente: —  Pois  eu  não  sou  parenta,  e  todas  as  noites  lhe  rezo  dois  Padre-Nossos por alma...

—  E eu! — suspirou  a  carvoeira.

—  Há de lhe isso  servir de muito!  —  rosnou  o  Paula,  afastando-se."

 

Tambem quando Amélia morre e o Padre Amaro se reencontra com o cónego Dias esta frieza é despertada e choca qualquer um.

 "E pondo-se  diante,  galhofando:

—  Ó Amaro, e você a  escrever-me  que  queria  retirar-se para  a  serra,  ir  para um convento,  passar a  vida  em  penitência.

O padre Amaro encolheu  os  ombros: —  Que quer  você,  padre-mestre?...  Naqueles  primeiros  momentos...  Olhe que me custou!  Mas tudo passa...

—  Tudo passa,  disse  o  cónego."

 "—  Cáspite!  disse  o  cónego  baixo,  tocando  o  cotovelo  do  colega.  Hem,  seu padre Amaro?...  Aquilo é que você  queria  confessar.

—  Já lá vai o  tempo,  padre-mestre,  disse  e pároco  rindo,  já  as  não  confesso senão  casadas!"

 

No fundo, Eça ironiza com a falta de sensibilidade e total desprendimento perante a morte. Todos morreremos um dia e não adianta se somos boas pessoas ou não - quem cá fica dançará no nosso túmulo.

publicado às 15:19

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.