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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


30.11.16

Querido, isto não é o que parece.

por Nes.

Porque diabo Eça tem uma fixação com o adultério feminino?

 

 

daqui.

Socialmente, quando pensamos em adultério, mais depressa pensamos na figura do marido traidor, que chega a casa com marcas de baton na roupa e um cheiro a perfume, depois de uma "reunião de negócios", não? Pensamos na Outra, na Amante, na figura mefistofélica que não olhou a meios para seduzir um honrado homem de família. Nos livros de Eça abundam histórias de moços solteiros que arranjam casos com prostitutas espanholas - seria difícil acreditar que o casamento os purificava e endireitava definitivamente, dentro de uma pura lógica old habits die hard. Tinham muito maior liberdade de movimentos e eram vistos com uma indulgência misericordiosa, em comparação com o que seria uma mulher traidora. Eça certamente viu muito disso, não era nenhum tolo. Mas não fala de traição a não ser no feminino. Porquê?

 

daqui.

 

Simples - porque não tinham nada para fazer. A traição feminina em Eça é culpa da sociedade, e não da própria mulher, que é empurrada para isso por força das circunstâncias em que é educada e em que vive, e por força daquilo que se espera que ela faça. É mais uma forma de escamotear os defeitos da sociedade portuguesa, expondo as pústulas ao ar para que todos vejam o que as causou.

 

Vejamos as adúlteras de Eça. Temos Luísa de O Primo Basílio, a adúltera-mor. Filha única, devoradora de livros da escola romântica, cheios de heroínas que desmaiam liricamente nos braços do herói, assediada pelo primo, separada dele pela falta de dinheiro e pela emigração, guarda dele uma imagem perfumada pela saudade e pelas dificuldades que mataram o romance. Em comparação Jorge é prático e simples, pouco romântico, nada lírico - é um homem bom que gosta dela e a quer proteger. Para Luísa, que via tudo com o filtro dos seus livros, era mais emocionante viver um romance com Basílio do que com o próprio marido. A falta de outras responsabilidades - sem filhos, com duas criadas para atender um casal jovem, sem canseiras, sem sequer se dar ao trabalho de sair de casa para fazer o que quer que seja, o adultério torna-se um escape.

 

Leopoldina influencia Luísa e é ela própria alguém conhecida pelos seus desaires amorosos. Também ela não tem grandes objectivos ou perspectivas, e para cúmulo odeia o marido. Forma um contraste gritante com outra mulher que Luísa vê na rua, a D. Camila - "Na Rua Ocidental, viu vir a D. Camila — uma senhora casada com um velho, ilustre pelos seus amantes. Parecia grávida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjozinho de jaqueta cor de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bebê se babava. E a Camila, feliz, vinha tranqüilamente pela rua expondo as suas fecundidades adúlteras! Era muito festejada; ninguém dizia mal dela; era rica, dava soirées... — "O que é o mundo!" — pensava Luísa."

 

daqui.

 

Há também a Raquel Cohen, seduzida pelo Ega em Os Maias. O que é Raquel, senão uma versão mais rica de Luísa? Entre um marido aborrecido, uma vida entre o boudoir e o teatro, falta o elemento paixão que os livros e a educação recebida exaltavam. O Ega está aqui, cedemos! E a seguir é o Dâmaso! E mesmo no Conde de Abranhos, onde nunca é dito directamente porque é que o primeiro casamento do Conde foi assim tão ruim, era capaz de apostar que Eça daria este como o motivo de queixa do horroroso Alípio, se tivesse terminado a sua escrita.

 

 

daqui.

 

É necessário realçar a ideia - Eça não culpa as mulheres, mas sim o sistema que as impede de ter um papel activo na sociedade, deixando-a sem nada mais além do Amor, gritantemente vendido na sua educação desde pequenina. Nada como ler as justificações de Eça tal como ele as expôs num fabuloso texto de As Farpas.

 

 

daqui.

 

"Ou o adultério é um facto fatal da natureza eterna, ou é um facto fatal da moral moderna. No primeiro caso, se ele é a antiga e primitiva lei da promiscuidade animal, que apesar do apuramento nervoso da humanidade, da civilização, do direito, da moral, permanece e impele pela sua fatalidade fisiológica - seria necessário, para o extinguir, mudar a própria constituição natural ou esperar mais vinte séculos.

No segundo, se ele provém da corrupção do matrimónio e da sua decadência e descrédito como instituição social, se nasce da extinção da fé conjugal nos esposos, se deriva da perversão lançada na dignidade matrimonial pelo idealismo amoroso, se tem a sua origem na moral, então é necessário fazer uma revolução nos costumes tão profunda como foi o cristianismo, que nos dê uma outra religião, outra moral, outra família e outro direito.

(...)

Para a generalidade das mulheres - ter um amante significa - ter uma quantidade de ocupações, de factos, de circunstâncias a que, pelo seu organismo e pela sua educação, acham um encanto inefável. Ter um amante - não é para elas abrir de noite a porta do seu jardim. Ter um amante é ter a feliz, a doce ocasião destes pequeninos afazeres - escrever cartas às escondidas, tremer e ter susto; fechar-se a sós para pensar, estendida no sofá; ter o orgulho de possuir um segredo; ter aquela ideia dele e do seu amor, acompanhando como uma melodia em surdina todos os seus movimentos, a toilette, o banho, o bordado, o penteado: é estar numa sala cheia de gente, e vê-lo a ele, sério e indiferente, e só eles dois estarem no encanto do mistério; é procurar uma certa flor que se combinou pôr no cabelo; é estar triste por ideais amorosos, nos dias de chuva, ao canto de um fogão; é a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupé; é fazer toilette com intenção, o maior dos encantos femininos! etc.

Estas pequeninas coisas, que enchem a sua existência, que a complicam em cor-de- rosa, que a idealizam - são a sua grande atracção. E o que amam. O homem, amam-no pela quantidade de mistério, de interesse, de ocupação romanesca que ele dá à sua existência. De resto, amam o amor. Havia muito deste sentimento nas místicas e nas antigas noivas de Jesus. Amavam a Deus porque ele era o pretexto do culto.

(...)

Hoje a mulher é educada exclusivamente para o amor - ou para o casamento, como realização do amor. E claro que, como Dumas, falamos das classes ricas e improdutivas.

É fácil de ver. Que se lhe ensina desde o momento em que a pequenina mulher de 7 anos, nos bicos dos pés, diante do espelho, com a sua sainha tufada e o seu puff pueril, se enfarinha de pó de arroz, rindo com os seus brancos dentinhos de rato?

Educa-se-lhe primeiro o corpo para a sedução. Não pela ginástica - isso agora apenas começa vagamente, como uma imitação inglesa -mas pela toilette: ensina-se-lhe a vestir, estar, andar, sentar-se, encostar-se com todas as graças para sensibilizar, dominar as atenções, ser espectáculo, vencer o noivo. Ensina-se-lhe a arte sentimental e inútil de bordar flores e pássaros; o bordado é a mais perniciosa excitação da fantasia: sentada, imóvel, curvada, picando delicadamente a talagarça, o voo inquieto das imaginações e dos desejos palpita-lhe em roda, como um enxame de abelhas: e é isto o que perde as rosas, como diz um velho poeta ascético: é porque a rosa não pode fugir, andar, sacudir o enxame, que é ela sempre ferida no cálice.

Depois ensina-se-lhe a música, o piano, o canto, Bellini, Donizetti, todos os amorosos. A música clássica, os velhos minuetes, os motetes, as fugas, as árias simples — eram uma serenidade para o espírito, um correr de água fresca. Os românticos são como uma chama impaciente. Prepara-se-lhe assim um meio de encantar, de sensibilizar, de, adormecer, e dá-se-lhe alguma coisa da habilidade das sereias. - Depois, o seu espírito, como é educado? Pelo romance, que lhe descreve o amor, pelo teatro que lho dialoga, pela ópera que lho suspira, pela opereta que lho assobia.

No mundo, nas soirées, ao gás dos bailes, na intimidade das mulheres, que interesses vai encontrar? os da política? os da ciência? os da arte? os da economia doméstica? os da guerra? Decerto que não: - os do amor.

Que lhe diz o luxo, por meio das sedas sonoras, das caxemiras, das pedrarias, da vitrina das lojas, das rendas loucas, dos saltos à Luís XV, da fofa penumbra dos cupés?

Amor.

Que ideia lhe dá a família, a maternidade? O encanto de um amor legítimo.

Que lhe ensina a mesma religião? o amor. Duvidam? - aqui estão os trechos de um livro de orações aprovado pelo sr. arcebispo de Ruão - traduzido por toda a parte:

"Actos de desejo. - Oh! vem, meu bem-amado, carne adorável, minhas delícias, meu amor, meu tudo, meu alento! Minha alma impaciente enlouquece por ti!

"Acto de amor. - Tenho pois enfim a felicidade de te possuir! Abrasa-me, queima-me, consome-me com o teu amor. Jesus é meu, o bem-amado é meu."

Que lhes parece? Aprovado por Monsenhor de Ruão, o cardeal Bonnechose, príncipe da Igreja. E um catecismo francês, quase um catecismo universal. Trata-se do amor de Jesus -dirão: pois também seria excessivo que se tratasse de Artur! A Igreja não o faz expressamente -dirão ainda: quem o duvida? Nem um momento desconfiamos da austera intenção da Igreja. Mas é inocentemente e sem intenção, que as mães deixam as crianças ao pé do lume, e quantas vezes a casa arde!

Querem saber agora como falam e pensam as mulheres educadas neste elemento abrasado? Vejam a última peça de Octávio Feuillet, o casto, o pudico, o católico, o que escreve para as virgens aristocráticas e louras do faubourg Saint-Germain. Feuillet põe na boca de uma menina de 15 anos, educada num convento, açucena coberta de rendas, Pomba, Arminho, Neve, estas palavras: Adoro os rapazes para valsistas, mas para maridos não! - E na plateia velhos sargentos de cavalaria coram até às dragonas!"

publicado às 11:45

19.10.16

Cartas de amor queirosianas.

por Nes.

Imaginem que estão dentro do autocarro, a caminho do vosso emprego. O telemóvel toca. É a vossa cara-metade, que num arroubo vos enviou uma mensagem extremamente romântica. Vocês sorriem, coram até às raízes dos cabelos (se forem tímidos) e olham em volta, a tentar perceber se alguém captou a vossa turbação. Nada - as outras pessoas olham também os telemóveis, ouvem música enquanto olham melancolicamente o horizonte, ou dormitam de cabeças pendentes.

 

Felicíssimos, é agora que vocês dão resposta a essa enxurrada de amor. Nem têm palavras. Sem problema - abrem a aplicação das mensagens, abrem o separador dos emoticons, e espetam com todos os smiles e ícones de corações que o vosso telemóvel tem. Esperam que essa chuva de mini símbolos expresse eficazmente o que sentem, e suspiram.

 

Todavia, façamos de conta que iam responder, mas o autocarro ao dobrar a esquina caiu por artes mágicas no ano de 1878. E agora? Em vez de telemóvel têm papel almaço e uma longa pena de pato. Como respondem à vossa cara-metade?

 

"Curto-te imenso". "Gramo-te totil". "Ya, gosto de ti". "A nossa cena é bué".

 

daqui.

 

Tenho uma teoria. O mundo actual, com as facilidades de comunicação e deslocação, bem como a quantidade insana de aplicações de conversação, bonequitos e memes estão a matar o romance. Os primeiros porque eliminaram boa parte das dificuldades que fazem medrar os sentimentos românticos. Os segundos porque reduziram a nossa capacidade de verbalizar sentimentos.

 

Se não há obstáculos, se vivemos porta com porta, se falamos continuamente, se nada nos impede de estar com a pessoa que gostamos - nem sequer o afastamento da rotina - os amores estiolam e morrem sufocados. E se falamos continuamente, diluindo em gotinhas aquilo que antes era exposto numa carta que portava um coração inteiro, o impacto é diminuto. Ninguém recorda a quantidade de beijinhos que a cara-metade mandou, ou aquela frase de Facebook industrializada, massificada e espetada no mural do outro. Recordam os piropos, as confissões explosivas e a urgência em estar com quem abre o coração.

 

daqui.

 

Eça soube explorar bem esses aspectos, embora em boa verdade as suas personagens não tivessem outro remédio a não ser a correspondência epistolar. Século XIX! Se Luísa e Basílio falassem pelo Whatsapp, talvez Juliana nunca a chantageasse. Sabemos que foram as cartas que tramaram Luísa - atiradas ao caixote do lixo, roubadas do cofre, lidas sofregamente por uma gralhada de velhas invejosas.

 

"Fora preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cera, paciência de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Vitória - que rira, rira!... Sobretudo o bilhete em que Basílio lhe dizia: "Hoje não posso ir, mas espero-te amanhã às duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste à outra, trazê-la no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!... " A tia Vitória, sufocada, a quis mostrar à sua velha amiga, a Pedra, a Pedra gorda, que estava na saleta.

A Pedra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal-cheios tinham
sacudidelas furiosas de hilaridade."

 

daqui.

 

Invejosas, é o que vos digo. Cá para mim sempre achei esta manobra digna de cocotte e sofisticada q.b. Adiante.

 

"Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que ali estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar a ver-te, depois daquela estúpida viagem para tão longe, não tu superior ao sentimento que me impelia para ti, meu adorado Basílio. Era mais forte que eu, meu Basílio. Ontem, quando aquela maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Basílio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-ta, porque te amo, que eu mesma, me estranho... Mas para que foi aquela mentira, e para que vieste tu? Mau! Tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Basílio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, pareço-me que te amo mais, se é possível..."

 

Isto é Eça a gozar com a própria personagem. Luísa foi concebida como o produto de um consumo excessivo de romances em detrimento de doses cavalares de realidade, e a carta que escreve a Basílio é o arquétipo da donna doidinha que ama o amor. O meu ponto é - duvido que isto exista na cabeça da mais doida rapariga de agora. Perdeu-se verbalização, requinte e profundidade. Quero lá saber que as divagações de Luísa precisem de violino a servir de som de fundo. Isto é bonito, pronto.

 

E bonito é também a pirosada que o novo namorado de Leopoldina lhe escreve, um poema horrível.

 

"Farol da Guia, 5 de junho

Quando cismo à hora do poente

Sobre os rochedos onde brame o mar..."


Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ela, Leopoldina, "
visão radiosa que deslizas leve", nas águas dormentes, nas vermelhidões do ocaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, de um sentimentalismo reles, com um ar tísico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E, terminando, dizia-lhe que não era "nos esplendores das salas" ou nos "bailes febricitantes" que gostava de a ver; era ali, naqueles rochedos,

Onde todos os dias ao sol posto

Eu vejo adormecer o mar gigante."

 

daqui.

 

Está bem, tio Eça, está bem! É piroso - mas pelo menos não é o "Bo tem Mel"!

publicado às 23:55

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