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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


02.09.18

Snobismo queirosiano.

por Nes.

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O dicionário explica-nos que "snob" é aquele que tem ou manifesta uma atitude de superioridade exagerada nas ideias, gostos e comportamentos, colocando-se num pedestal distante dos restantes. Tem habitualmente uma péssima conotação - a de uma pessoa armada em boa, que se tem em grande consideração comparado com os demais. O snobismo pode ser um péssimo obstáculo à boa convivência social, dificultar os relacionamentos, tornar as pessoas insuportáveis, arrogantes, inacessíveis - mas bem doseado, pode ser um poderoso orientador da vida de cada um.

 

O tio Eça foi, como sabemos, um senhor que viveu em Portugal até se lhe abrir uma fulgurante carreira de cônsul, que o levou a paragens diversas - Havana, Bristol, Newcastle, Paris. De lá escrevia os seus romances a desancar na sociedade portuguesa: nos padres corruptos e sensuais, na classe aristocrática inútil e pesada ao país, nos burgueses alienados da sociedade e turvados pelo lucro, nos intelectualóides improdutivos, parasitários. Achava-se no direito de estar à margem dos acontecimentos e malhar, com a sua pena, em todos os que tentavam fazer o seu país evoluir. Chegava a Portugal em grande pose, grande verve, impressionava o indígena com a aura do seu génio como Ega tentava fazer com a sua peliça. A fama dos seus livros, com cenas "frescas" como as que constam n' "O Primo Basílio", causava um certo terror silencioso em torno da sua figura. É natural que muitos o detestassem.go-ahead-be-social-media-snob.jpg

 

Então porque é que o lemos agora? Porque o snobismo foi em Eça uma forte bússula moral. Servia para se manter longe dos maus exemplos, para fustigar os pobres de espírito, os trastes, os papalvos, os chicos-espertos. Queria por força que o seu país - que ele representava lá fora, que forçava sorrisinhos aos estrangeiros que entendiam Portugal como um país pobre e atrasado - se desenvolvesse, nem que fosse à custa de muito tough love. Queria cumprir os propósitos do realismo, expondo à luz os defeitos do seu país, fazendo-lhe "a monografia, o estudo seco dum tipo, dum vício, duma paixão, tal qual como se se tratasse dum caso patológico, sem pitoresco e sem estilo!..."

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E isto é ou não uma lição para nós - contemporâneos do Instagram, das grandes vidas fingidas, da fatuidade, das peneiras e vaidades e manias? Ser snob, colocar-se num patamar superior às patetices que vamos vendo, rir dos parvos? Uma pena que o tio Eça não ande por cá para nos ensinar umas coisas...

publicado às 11:37

12.08.18

Amigo Ramalho.

por Nes.

Apesar da admiração manifestada por Eça por alguns dos vultos da sua época - como Antero de Quental, em "O Génio que Era um Santo", foi com Ramalho Ortigão que manteve uma colaboração frutífera ao longo dos anos. Uma amizade com alguns traços estranhos - se por um lado foi ele um dos poucos que teve a honra de estar no casamento de Eça, por outro foi com ele que o escritor se travou de razões devido ao falhanço na revisão de "O Crime do Padre Amaro". Uma amizade atípica, desde já pela diferença de idades (nove anos) e pelas circunstâncias em que se conheceram - Eça foi aluno de Ramalho, que era professor de francês no colégio da Lapa.

 

Escreveram juntos "O Mistério da Estrada de Sintra", que começou em folhetim no Diário de Notícias em 1870. Imaginem abrir um jornal e vir lá escrito "eu, fulaninho de tal, aconteceu-me isto e isto no sítio tal". Os sucessos descritos eram tão estranhos - um médico e o seu amigo, raptados por quatro mascarados, para confirmar se um cadáver era realmente cadáver - que lançaram o pânico entre a sociedade lisboeta. Vários falsos alarmes relativos à proveniência ou passagem dos mascarados foram transmitidos à polícia - até que outra pessoa respondeu à carta, noutro folhetim. Aos poucos as pessoas aperceberam-se que tudo era apenas uma novela - e puderam apreciá-la, recostados nas respetivas poltronas.

 

O estilo de Eça e Ramalho, que se confrontavam cada um no papel de várias personagens, era facilmente distinguível. Ramalho tem uma prosa mais engrolada, menos fluida; Eça é cerebral, escarninho, argumenta com precisão. E este estilo manter-se-ia n' "As Farpas", revista satírica. Eis Eça a falar do novo mercado do peixe no Porto, usando a habitual hipérbole:

"Pois bem! A Câmara Municipal do Porto, com uma nobre solicitude pelo peixe, para quem parece ser uma extremosa mãe, e receando, com um carinho assustado, que o peixe se constipasse, ou sofresse a indiscrição dos vizinhos, construiu-lhe uma praça fechada, com altas e fortes paredes, varandas, gabinetes interiores, corredores, alcovas, casa bem reparada, quase um palacete. E tudo de tal modo tranquilo, aconchegado, confortável, que a Câmara hesita se há-de pôr ali peixes, se livros - e se fará daquilo um mercado ou uma biblioteca! "

publicado às 19:11

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