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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

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Escrutinando Eça.


24.07.18

Os Maias explicados aos indignados.

por Nes.

Na semana passada toda a gente se lembrou de Eça e d' "Os Maias" por causa do alegado fim da obrigatoriedade do livro nas aulas de Português do 11º ano. Dizem que as redes sociais explodiram em queixinhas de indignados, que alegadamente tiveram uma educação primorosa e repleta de boa literatura, que fez deles pessoas extremamente bem formadas e com um indestrutível espírito crítico.

 

Todos nós sabemos que tudo isso é fogo de vista. As pessoas actualmente não lêem nada que não se compre no supermercado - e isso inclui revistas cor-de-rosa, livros de receitas, tretas do gajo da noite de luar e do Sarnas Freitas e outros que tal. Até as Bertrand e Fnac desta vida desistiram; além dos itens enunciados, adicione-se os livros para os turistas como romances em inglês e roteiros turísticos de Portugal, e está a tenda montada.

 

Apesar da leitura deste livro não ser obrigatória há anos, a leitura dos livros de Eça continua a sê-lo. O facto de "Os Maias" continuar a ser a obra de eleição dos professores leva a que muitos se aborreçam para a vida com este escritor. Por umas descrições serem longas, Eça deixa de valer a pena! E isso é típico do tempo em que vivemos, em que não perdemos tempo a olhar para o mundo.

 

"E sempre ao fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e duas casas brancas ao rés da água, cheias de expressão - ora faiscantes e despedindo raios das vidraças acesas em brasa; ora tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi semelhantes a um rubor humano; e duma tristeza arrepiada nos dias de chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste."

 

Quantos de nós perdemos tempo a imaginar sentimentos e expressões na paisagem, nas coisas que vemos no dia a dia? A filosofar de papo para o ar, sem preocupações que nos incomodem durante cinco minutos... A falta de tempo será uma das causas, mas também a forma como nos tornamos mais superficiais - dedicados à televisão, aos problemas do dia a dia, ao Facebook. Por isso o facto de perdermos tempo a ler duas páginas que explicam como era o Ramalhete é uma seca.

 

Mas ainda não perdi a esperança. Nunca li um livro-resumo das edições Europa América, mas duvido que contenham uma análise entusiasmada dos livros. As aulas de Português em que Os Maias é alvo de análise são dadas de forma demasiado seca e analítica. Os professores focam-se no alegado simbolismo das descrições - o cedro e o cipreste e tal - e esquecem o importante - a emoção, o estilo, a ironia e o desancar de todos aqueles que tinham, no país, a responsabilidade de o transformar em algo melhor. Vamos a isso nas próximas semanas.

publicado às 15:15

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