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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

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26.08.18

Os Maias - Capítulo IV

por Nes.

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Como sabem, a história de incesto entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda, com laivos de tragédia grega (lembram-se que no teatro grego havia um coro que ia rosnando recomendações ao herói? Neste livro o ambiente, as pistas e dicas deixadas pelo autor de forma subtil, assumem esse papel) não passa de um pretexto para que Eça condense num só volume muitas das suas opiniões. O Capítulo IV serve o propósito de criticar a organização da Universidade - similares às que Eça deixou espalhadas por vários títulos como As Farpas, O Conde de Abranhos ou A Capital, ou cartas dispersas como O Génio que Era um Santo.

 

Agora que o primorosamente educado Carlinhos chegou à idade adulta, obtendo um estrondoso sucesso no seu exame de admissão, vamos ver como é que este jovem com tanto potencial brilha na Universidade. Há espaço para mais uma alfinetada aos poeirentos educadores portugueses, quando Carlos pretende formar-se em Medicina (a ciência prática e útil por excelência), uma opção reprovada por todos os amigos de Afonso. O avô quis lá bem saber das línguas, e tratou de arranjar ao neto as acomodações de um príncipe.

 

A Universidade concebida por Eça nas obras acima mencionadas era uma instituição medonha. Passo a citar, porque não há palavras mais eloquentes do que as do próprio.

"A Universidade, que em todas as nações é para os estudantes uma Alma Mater, a mãe criadora, por quem sempre se conserva através da vida um amor filial, era para nós uma madrasta amarga, carrancuda, rabugenta, de quem todo o espírito digno se desejava libertar, rapidamente, desde que lhe tivesse arrancado pela astúcia, pelo empenho, pela sujeição à “sebenta”, esse grau que o Estado, seu cúmplice, tornava a chave das carreiras."

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N' "Os Maias", Eça entreteve-se a dar a imagem de um Carlos que "tinha nas veias o veneno do diletantismo". Ou seja, Carlos chega a Coimbra e o seu brilho pessoal, a sua riqueza e instalações atraem todo o tipo de jovens. Vê-se assim rodeado de estudantes criados no velho sistema português; os Eusebiozinhos camaradas de estudo deixam-se influenciar pela literatura estrangeira, ideias estrangeiras, ideais estrangeiros, enquanto usufruem das instalações de Carlos e do seu estilo de vida inacessível à larga maioria. A dispersão de Carlos inicia-se então. Envolve-se com uma mulher casada, ensina os colegas a esgrimir, começa a interessar-se pela literatura, pela pintura, pela arqueologia, passeia cavalos - tudo menos estudar.

 

Mas claro que Eça não perde a oportunidade de alfinetar a Universidade. Carlos ia sendo reprovado de ano "no segundo ano levaria um R se não fosse tão conhecido e rico", mas depois esforçou-se ligeiramente e "imediatamente lhe deram um acessit". Na primeira frase Eça critica a influência que a riqueza e poder têm nas instituições (hello, Portugal moderno em que a Madonna tem um visto concedido diretamente pela ministra em pessoa?), e na segunda escarnece do facto de bastar um pequeno esforço para ser equiparado aos melhores alunos da faculdade, tão alienada devia andar aquela malta.DSC_7106.jpg

 

Carlos forma-se, e termina neste capítulo a analepse. Somos recolocados no Ramalhete, junto ao Afonso que aguarda a volta do neto e se espanta com a quantidade de caixotes que Carlos despacha do estrangeiro. "O meu rapaz vem com grandes ideias de trabalho, dizia Afonso aos amigos". Mas Carlos, como se recordam, já não é o mesmo.

"a ciência como mera ornamentação interior do espírito, mais inútil para os outros que as próprias
tapeçarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitário: desejava ser útil. Mas as suas ambições flutuavam, intensas e vagas; ora pensava numa larga clínica; ora na composição maciça de um livro iniciador; algumas vezes em experiências fisiológicas, pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de aplicação. (...) No fundo era um diletante."

 

Por portas travessas Eça revela igualmente uma outra verdade - Carlos tem preconceitos de classe. Ele faz parte da minoria privilegiada que tem dinheiro, gosto e luxo em Portugal. É um médico, escolheu ser médico devido ao gosto incutido desde pequeno pelas coisas úteis. E saiu da faculdade cheio de ideias literárias, apreciando os aspetos requintados e romantizados da sua ciência. As amigas de Santa Olávia tinham pena "que um rapaz que ia crescendo tão formoso, tão bom cavaleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias" ainda antes de Carlos se matricular - e agora ele não suporta sequer que o anúncio do seu consultório seja colocado no jornal "entre o de uma engomadeira à Boa Hora e um reclamo de casa de hóspedes".

 

É necessário ainda não esquecer o estilo de Carlos a decorar aquilo que ele imagina ser um consultório médico sério. É um meio apropriado para demonstrar como o espírito de Carlos se romantizou, se distanciou das coisas sérias e úteis. Vamos fazer a lista das coisas que Eça menciona existirem na sala de espera.

- poltronas em torno de várias revistas, estereoscópios e "álbuns de atrizes seminuas";

- um criado de libré para abrir e fechar a porta;

- um piano!

 

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É também neste capítulo que nos é apresentado o incorrigível, exagerado e hiperbólico João da Ega, um pequeno grilo falante, um alter ego de Eça. É na sua boca que Eça coloca os ditos mais espirituosos do romance; é nas suas atitudes que Eça coloca as atitudes mais incoerentes com a sua personalidade - e também as mais cómicas. Se na faculdade aparece como um eterno rebelde - "por sistema exagerou o seu ódio à Divindade, e a toda a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das ficções do matrimónio, a repartição das terras, o culto de Satanás." - na vida adulta veremos a contradição flagrante entre os seus ditos e as suas atitudes.

 

Um dia Ega aparece no consultório de Carlos, feliz por reaver o amigo, mas "era outro Ega, um Ega dândi, vistoso, paramentado, artificial e com pó de arroz"; um Ega que se entrouxava em peliças apropriadas para o frio invernoso da Sibéria "para o efeito moral, para impressionar o indígena..." Têm um breve diálogo sobre o que andam a fazer e as pessoas com quem andam a lidar, e Ega lá manda uma das suas alfinetadas célebres.

"Enfim, exclamou o Ega, se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos da alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilizados como os negros de S. Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão..."

 

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Podemos agora contar com esta divertida adição às imensas personagens do livro - e que é não só a voz de Eça no próprio romance, mas também uma forma curiosa de fazer pouco de si mesmo. Recordem-se que o grupo de amigos de Eça se auto-intitulava "Vencidos da Vida" - e quantos deles o eram realmente?

 

publicado às 11:22

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