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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


19.08.18

Os Maias - Capítulo III

por Nes.

O capítulo III é aquele em que são expostas as principais queixas de Eça relativas à educação dos pequenos lusos, filhos da Pátria do fado, do lausperene e do bacharel. Para essa exposição Eça coloca em contraponto dois pequenos, sensivelmente da mesma idade - Carlos, assim desenvolvendo a intriga ao contar como ele vivia com o avô em criança, e Eusebiozinho, o filho de uma das amigas da casa. Se Afonso pode agora criar o neto como não pôde criar o filho - indiferente ao que rosna a parentela, a vizinhança ou o próprio abade Custódio - este é o momento de ver o resultado. A educação dos jovens é um assunto sobremaneira abordado por Eça n' "As Farpas" - como este ou este.

 

Quando Vilaça regressa a Santa Olávia, encontra um ambiente festivo e campestre que o encanta - "um lume de lenha na chaminé de azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canários pareciam doidos de alegria".  Afonso está rijíssimo, o neto Carlos é uma criança adorável. E as revelações começam logo com a vista da sala de jantar, onde já estava a louça posta para a grande refeição do dia. Para quem já não percebe nada do regime alimentar dos antigos - é só espreitar aqui.

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"- Então V. Ex.ª agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
- Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regime. De madrugada está já na quinta; almoça ás sete; e janta à uma hora. E eu, enfim, para vigiar as maneiras do rapaz..."

 

O pobre procurador, julgando dizer uma graça, é imediatamente desenganado pelo mordomo, que lhe explica como Carlos tem sido educado.

"- Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é ele quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...

Mas o Teixeira muito grave, muito sério, desiludiu o Sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizia s. S.ª? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro duma tina de água fria, ás vezes a gear lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar ás árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a águar! Muita, muita dureza."

 

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Aqui é altura de focar o abade Custódio, que seria naturalmente o responsável pela educação de Carlos, se Afonso estivesse para aí virado. No entanto, apesar do bom velho discordar do regime que o avô impunha, decerto não teria sido tão pesado para Carlos como o padre Vasques fora para Pedro, por ter uma postura geralmente menos firme. Há certas frases que indiciam que apesar de defender as ideias do costume, as suas atitudes entram em confronto com o que se espera de um sacerdote. Era um padre que "gostava do progresso... Achava até necessário o progresso.", que escolhia "no molho rico os bons pedaços de ave", jogava cartas com o patriarca a dinheiro. Apesar desses ligeiros indícios, diz exatamente aquilo que se espera dele - que a criança devia aprender latim, aprender a cartilha, etc - mas não chega a dar argumentos para tal. "O abade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e Belzebu arrebatando as melhores reses do rebanho; depois olhou a chávena e sorveu com delícias o resto do seu café". Parece afinal que não se importa assim tanto, ou então que já foi derrotado.

 

Entretanto Carlos vai dizendo ou mostrando o que gosta de fazer. Aprende a andar a cavalo, a fazer ginástica, fala inglês fluentemente, é controlado pelo avô na forma como se expressa e nas coisas que é autorizado a fazer - não grita "hurrah!", não bebe Bucelas.  Também não sabe latim nem sequer o que são as graças ao final da refeição. Após todo um dia a ver e conhecer Carlos, chega a noite - e Eusebiozinho aparece, e com ele toda a ironia de Eça estala.

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O pequeno Eusebiozinho vem acompanhado da tia e da mãe, bem como do futuro padrasto e da irmã. É a criatura mais jovem da sala - e a menos vivaz. Desde bebé aninhado num canto, embrulhado num cobertor, a folhear livros e a coser caderninhos, incentivado pelas senhoras que viam nisso sinais de inteligência. Eça reforça a ideia de um rapazinho que é quase um boneco de gelatina, pasmado e inútil. "tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numa cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz". Esta imbecilidade ditou naturalmente o seu destino - "era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois desembargador". Eça volta assim a uma ideia que defende regularmente em vários trabalhos - o bacharel mais não é que o produto de uma educação sem espírito crítico, sem estudo profundo, sem carácter, sem espinha, em que se decora a sebenta e se obedece ao professor para obter enfim um curso. Esta ideia pode ser encontrada em trabalhos como "O Conde de Abranhos", "O Génio que Era um Santo" ou textos d' "As Farpas".

 

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 Há um pequeno aspeto muito importante - quando Carlos aparece, a roupa dele é descrita desta forma "todo esbelto, com as mãos enterradas nos bolsos das suas largas bragas de flanela branca, o casquete da mesma flanela posta de lado sobre os belos anéis do cabelo negro". Ou seja, roupa honesta e desafogada para uma criança que faz do exercício físico e da aprendizagem das coisas do mundo o seu dia. Eis quando ele trepa ao baloiço e "todo ele sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se à aragem". Por seu turno, como veste o pequeno Eusébio?

"vestido como sempre de escocês, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre dum Stuart, dum valoroso cavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o boné onde se arqueava com heroismo uma rutilante pena de galo". Ou seja, nem a roupa do pequeno escapa às manias das senhoras, ansiosas por replicar no pequeno as qualidades romanescas dos livros em voga. Diferirá muito isto do estilo Instagram vaidoso que as mães impõem aos filhos agora? E deixar as crianças ser crianças?

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 Isto é notório um pouco mais à frente, quando as amigas da casa se escandalizam por o avô obrigar o menino a ir dormir às nove horas, nem mais nem menos. Enquanto as senhoras continuam a barafustar por causa do ateísmo de Afonso e da sua rigidez, não são capazes de ver como a filha Teresinha adormece aborrecida com a forma como os adultos passam a noite, nem são capazes de ver como o pequeno Eusébio não é capaz de se defender de Carlos quando ele o sacode, nem alinhar nas suas brincadeiras. Atira-se para o chão a chorar. Incentivam o mimo quando colocam o pequeno a recitar uma longa poesia, que não compreende, para que durma com a mamã nessa noite. Tudo coisas que causam horror à forma de estar de Afonso, que ali deseja replicar uma pequena Inglaterra na sua casa - na forma como educa o neto, nas pessoas de quem se rodeia (porquê um perceptor inglês? a resposta é óbvia), nos entretenimentos, até a paisagem de águas e relvados mimosos e vacas e carneiros de luxo amiúde referidos. Isso é rematado pelo pequeno monólogo que tem com Vilaça depois da saída dos convivas - "Tinha três ou quatro meses mais que Carlos, mas estava enfezado, estiolado, por uma educação à portuguesa: daquela idade ainda dormia no choco com as criadas, nunca o lavavam para o não constiparem, andava couraçado de rolos de flanelas! Passava os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do Catecismo de Perseverança. Ele por curiosidade um dia abrira este livreco e vira lá, «que o sol é que anda em volta da terra (como antes de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhãs dá as ordens ao sol, para onde há-de ir e onde há-de parar
etc., etc.» E assim lhe estavam arranjando uma almazinha de bacharel..."

 

Há ainda outros pequenos aspetos a reter, como a conversação que se verifica durante a noite. As senhoras apenas falam de assuntos como a dor do juiz, ou a forma como a esposa parecia ganhar saúde em comparação... a devoção que as leva a acender velas em honra dos mortos... os métodos de educação de Afonso... a heresia do perceptor... ou seja, toda uma edificante conversação - sobre a vida dos outros.

 

Por fim, o capítulo termina com novo desenvolvimento na trama principal - as notícias da mãe de Carlos, assumidamente cortesã desde a morte do amante e do pai. A nova abordagem serve dois propósitos - tenta dar luz ao que se sabe de Maria nesses tempos tenebrosos, e tenta mostrar como Afonso nunca desistiu de encontrar a neta, promovendo pesquisas por meia Europa, tentando trazê-la para junto de si e arrancá-la à vida difícil que certamente levaria com a mãe. Retenha-se que Afonso "deu um repelão à carta, menos enojado das torpezas da história, que daqueles lirismos relambidos." O estilo ultra romântico do poeta Alencar contraria o espírito recto do avô de Carlos, mais um indício da sua natureza.

 

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 Ocorre então a morte de Vilaça - o cargo de administrador é herdado pelo seu filho, Vilaça também, mas muito diferente do pai - e com o primeiro exame de Carlos. É a forma que Eça tem de desmistificar os resultados da educação à inglesa, que os amigos receavam - e quase desejavam - ver perigar. As corridas, o conhecimento do mundo, a valentia infantil, não impediram Carlos de vingar no mundo escolar. E é com esse sucesso que fecha o capítulo - com Afonso radiante de felicidade.

 

 

 

publicado às 23:23

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