Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


05.08.18

Os Maias - Capítulo II

por Nes.

No segundo capítulo do romance, está na hora de explorar a tragédia de Pedro. Esta parte da história serve essencialmente para explicar como tudo levou ao trágico desenlace que propicia as condições para a tragédia futura - a separação entre os irmãos, o suicídio de Pedro e a forma como Afonso se vê subitamente sozinho com o neto. Serve igualmente para retratar a forma como vivia a alta sociedade.

 

Os caprichos de Maria e a sua visão açucarada da vida, reforçada pela frase que Eça coloca na boca de uma criada no primeiro capítulo - "a menina vive num ninho de sedas e passa o dia a ler romances" - é a grande influência do estilo de vida que levam. Começam por viajar para Itália, "numa felicidade de novela", viver uma vida fácil e romanesca, que trocam depois por Paris, porque "melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos Elíseos, e gozarem ali um lindo inverno de amor! (...) demoraram-se lá até a primavera, no ninho que ela sonhara, todo de veludo azul, abrindo sobre os Campos Elíseos". Quem nos nossos tempos terá luxo assim? Tenta obter o perdão do pai dele; "a reconciliação tornava-se indispensável: aquele pai retirado em Benfica, com o rígido orgulho de outras idades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus espelhos e os seus estofos, o brigue Nova Linda carregado de negros..." Como falha, decide acicatar ainda mais essa cisão entre pai e filho "Considerava-se então insultada em si mesma e naquele
querubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe o D. Fuas, o Barbatanas..."

 

Afonso-da-Maia-interpretado-por-Joao-Perry.jpg

daqui.

 

"Começara então uma existência festiva e luxuosa, que, segundo dizia o Alencar, o íntimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborzinho de orgia distinguée como os poemas de Byron.» Eram realmente as soirées mais alegres de Lisboa: ceava-se à uma hora com Champagne; talhava-se até tarde
um monte forte; inventavam-se quadros vivos, em que Maria se mostrara soberanamente bela sob as roupagens clássicas de Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais intimas, ela costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater à carambola francesa D. João da Cunha, o grande taco da época.
E no meio desta festança, atravessada pelo sopro romântico da Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte"

 

A fraqueza de Pedro não deixa de se manifestar nessa existência de festarola. Um homem que não é dono da própria casa tem ainda assim momentos em que se deixa tomar pelo desejo de um meio de vida mais limpo, mais digno. E em simultâneo Pedro começa a pressentir o mal causado pela presença de todos esses homens que apreciavam a sua esposa - "Pedro todavia começava a ter horas sombrias. Sem sentir
ciúmes, vinha-lhe ás vezes, de repente, um tédio daquela existência de luxo e de festa, um desejo violento de sacudir da sala esses homens, os seus íntimos, que se atropelavam assim tão ardentemente em volta dos ombros decotados de Maria". Todavia passava-lhe depressa - "com um lindo olhar, estendia-lhe os lábios. Pedro colhia neles um longo beijo, e ficava consolado de tudo".

 

daqui.

 

Há outra dica, quando se fala do nome que Maria escolhe para o filho - "Andava lendo uma novela de que era herói o ultimo Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo um destino de amores e façanhas." Eça deixa antever que o destino de Carlos já está marcado - e nada adiantará uma educação à inglesa, uma profissão prática ou as facilidades do dinheiro. Carlos há-de cair no sentimentalismo, há-de culpar todos pelo falhanço da sua vida - todos menos ele próprio.

 

Por fim chegou a cena clássica do homem que aparece e arrebata a menina; o mesmo acontece no livro "A Capital", quando Artur se torna amigo do emigrado Manolo. É exatamente o mesmo modus operandi - o novo elemento masculino seduz todos menos a senhora, mas só aparentemente. Quando o legítimo dá conta, a senhora, alegadamente tão indiferente, tão superior, já se raspou com o amásio para viver outra "felicidade de novela". Desta feita com uma agravante - leva a filha, deixa o filho; separa para sempre dois irmãos e causa o descalabro da casa dos Maias.

 

A cena da reconciliação é a verdadeira encarnação da parábola do filho pródigo, colocando novamente uma similitude entre o procedimento de Afonso e os ensinamentos cristãos - a par da generosidade que amplamente pratica. "Mas era pai: ouvia, ali ao seu lado, aquele soluçar de funda dor; via tremer aquele pobre corpo desgraçado que ele outrora embalara nos braços; - parou junto de Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa, uma vez, outra vez, como se ele fosse ainda criança, restituindo-lhe ali e para sempre a sua ternura inteira." Afonso transforma-se assim na personagem que encarna o ideal cristão defendido por Eça - um homem de bem, ocupado de fazer o bem, descrente do exercício da religião nos moldes impostos então pela Igreja.

 

Há mais dicas nesta parte do livro, que justificam que Eça seja considerado um mestre na descrição. Agora que o suicídio de Pedro se avizinha, acumulam-se as referências sombrias.

"- Sempre desejei ver a América, e é boa ocasião agora... É uma ocasião famosa, hein? Posso até naturalizar-me, chegar a presidente, ou rebentar... Ah! Ah!
- Sim, mais tarde, depois pensarás nisso, filho, acudiu o velho assustado"

"Foi então andando para a sala de jantar, onde os criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de pés, com a lentidão contristada duma casa onde há morte."

"Já inquieto subiu ao quarto do filho; estava tudo escuro, tão húmido e frio, como se a chuva caísse dentro."

"Pedro no entanto, como sonâmbulo, voltara para a varanda, com a cabeça à chuva, atraído por aquela treva da quinta que se cavava em baixo com um rumor de mar bravo"

"Uma brasa morria no fogão."

"nesse silêncio as goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria mais furioso, envolvia a casa num bater de janelas, redomoinhava, partia com silvos desolados."

"tudo jazia em silêncio."

"No seu quarto, ao lado da livraria, Afonso não pôde sossegar, numa opressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o travesseiro, escutar"

 

Esta mestria na descrição concentra-se toda num parágrafo que pode ser dado facilmente como exemplo - por ser Santa Olávia o reduto de Afonso, o próprio edifício assume aspetos relacionados com o luto que a personagem atravessa. "Um baetão preto recobria o brasão de armas, e esse pano de esquife parecia ter distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os castanheiros que ornavam o pátio; dentro os criados abafavam a voz, carregados de luto; não havia uma flor nas jarras; o próprio encanto de Sta. Olávia, o fresco cantar das águas vivas por tanques e repuxos, vinha agora com a cadência saudosa de um choro"

 

 

publicado às 18:20

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.