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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

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Escrutinando Eça.


29.07.18

Os Maias - Capítulo I

por Nes.

Caríssimos,

 

Conforme prometido, vamos tratar da análise sistemática d' "Os Maias". Começaremos pelo primeiro capítulo, que trata essencialmente de introduzir a família Maia e o seu patriarca Afonso, bem como o seu filho Pedro. Em simultâneo o Ramalhete é apresentado aos leitores, para que eles saibam como é o local em que vivem as personagens e onde decorrerá parte da acção.

 

rsv23-palacete-1-.jpg

(daqui)

 

O Ramalhete teria, por fora, um aspeto similar ao do edifício acima - "sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica". De facto não é difícil imaginar esta casa a servir como colégio de freiras. Afonso da Maia não quis mexer do lado de fora - só por dentro a casa foi toda remodelada.

 

Um ano depois as obras terminam, e começa a aterradora descrição do Ramalhete, qual Adamastor a derrotar antes de entrar nos mares da Índia. A descrição serve para reforçar vários aspetos da personalidade de Carlos e do avô.

 

1. O gosto por artigos caros, vindos do estrangeiro, em parte devido à tendência para decorador que Carlos alimenta, reforçando a desigualdade social. Há referências a vasos de Quimper, tapeçarias Gobelins, telas de Constable e Rubens. Por seu turno, "o fervor pelo luxo dos climas frios" de Carlos fá-lo encher a casa de veludos, tapetes, tapeçarias, sedas. Há descrições de salas forradas de seda, antecâmaras onde o rumor de passos morria, confortos inimagináveis nas nossas casas - "Defronte era o bilhar, forrado dum couro moderno"; "as otomanas tinham a fofa vastidão de leitos; e o aconchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era alegrado pelas cores cantantes de velhas faianças holandesas".

 

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2. Apesar de Afonso ser descrito como um ateu, a sua casa está repleta de arte que remete para um contexto religioso - "longos bancos feudais que Carlos trouxera de Espanha, trabalhados em talha,
solenes como coros de catedral"; "antigos quadros devotos", "escritório de Afonso, revestido de damascos
vermelhos como uma velha câmara de prelado", "quadro atribuído a Rubens, antiga relíquia da casa, um Cristo na Cruz, destacando a sua nudez de atleta sobre um céu de poente revolto e rubro". Superstição? Antigualhas da casa de que Afonso não se quis livrar?

 

 3. Na descrição do Ramalhete, há várias dicas quanto à personalidade de Afonso. O facto de se rodear de fotos de família no seu quarto; a forma como tenta encontrar alguma poesia na pequena réstia de paisagem que sobra depois de tantas construções vizinhas que o impedem agora de ver o mar; as saudades que confessa ter de Santa Olávia, mantendo-se todavia firme em Lisboa para acompanhar o neto; a risada que deu relativa à superstição de Vilaça; a forma como aprecia o sossego da vizinhança, a "paz estudiosa" transmitida pelo seu gabinete onde lê Tácito e Rabelais. Estes pequenos pormenores servem de introdução à personalidade de Afonso, que é depois descrita à medida que Eça aborda a vida dele.

 

Antes disso, e logo nesta primeira parte do capítulo, a crítica social faz-se sentir - "as obras começaram logo, sob a direcção dum Esteves, arquitecto, político, e compadre de Vilaça. Este artista entusiasmara o procurador com um projecto de escada aparatosa, flanqueada por duas figuras simbolizando as conquistas da Guiné e da Índia. E estava ideando também uma cascata de louça na sala de jantar - quando, inesperadamente, Carlos apareceu em Lisboa com um arquitecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com ele à pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos, entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para ele ali criar, exercendo o seu gosto, um interior confortável, de luxo inteligente e sóbrio.
Vilaça ressentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional; Esteves foi berrar ao seu Centro político que isto era um país perdido. E Afonso lamentou também que se tivesse despedido o Esteves, exigiu mesmo que o encarregassem da construção das cocheiras. O artista ia aceitar - quando foi nomeado governador civil." Em dois parágrafos Eça dá três tiros - um na forma como se privilegiam os conhecimentos dos estrangeiros; outro na mania que os portugueses tinham de "florear" em vez de tornar as coisas práticas - uma cascata de loiça, celebração das conquistas da Guiné e Índia? E por fim - um decorador repentinamente nomeado governador civil, depois de se dizer que tinha ido ao seu centro político queixar-se dos Maias.

 

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 daqui.

 

Na segunda parte deste capítulo começamos a conhecer Afonso. Eça começa por descrevê-lo fisicamente, passando depois para a descrição da sua tranquilidade, forma de estar na vida, e generosidade interminável. Faz depois uma suavíssima transição para o tempo antigo em que Afonso era novo - e começa assim uma analepse que só termina capítulos à frente, e que serve de pretexto para desenvolver a intriga principal. É necessário não esquecer que o objetivo de Eça era criticar a sociedade - a história de Afonso e Pedro, os amores com Maria, a tragédia doméstica, são desculpas para escrever um livro. Os Maias é um romance - para crítica de atualidade Eça já tinha "As Farpas", a sua colaboração com os jornais do Brasil, as cartas soltas elencadas em compêndios vários.

 

Assim, não vale a pena debruçarmo-nos muito sobre a história em si. Há um conflito de gerações entre Afonso e o pai que é decisiva no seu destino, recambiando-o para Inglaterra a conhecer uma forma diferente de estar na vida, longe do conservadorismo português do pai e do radicalismo francês que conhecia como seu oposto. Apesar dessa nova vida inglesa, não consegue fugir aos estragos causados pela forma portuguesa de vivier e pensar. Casa-se com uma senhora portuguesa depois de ser forçado a voltar devido à morte do pai; por lá fica, nasce Pedro; por lá as suas opiniões criam inimigos. Regressa a Inglaterra, onde a mulher é infeliz e faz refletir no filho toda a sua alma romanesca e católica.

 

O filho continua assim, após a morte da mãe, a expressar essa dualidade irreconciliável entre duas formas de estar na vida - a forma inglesada adoptada por Afonso, adepto da vida natural, das coisas fortes e claras da vida; e a forma aportuguesada adoptada por Pedro, feita de devoção e superstição, abatido pelos nervos, afetado por sentimentalismos. Esse maniqueísmo é levado ao extremo quando Pedro se apaixona por Maria, que é o elemento que causa o confronto final entre as duas formas de estar na vida e que obriga um a expulsar o outro - no caso, Pedro corta relações com o pai devido à oposição que este manifesta.

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daqui.

 

Notas a reter:

1. Os vocábulos em desuso, como os da frase "essa rude conjuração apostólica de frades e boleeiros, atroando tavernas e capelas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do lausperene para o curro, e ansiando tumultuosamente pelo príncipe que lhe encarnava tão bem os vícios e as paixões..."

2. O início das queixas sobre a educação portuguesa, uma das marcas do romance - sobretudo quando Pedro começou muito pequeno a aprender a cartilha, tendo medo das árvores e do vento...

3. A revolta de Afonso com a Igreja, de forma gradual - em jovem por idealismo, em adulto por ver como a padres e frades se infiltravam no seu lar, transformando os seus entes queridos: a esposa que definhava, devorada pela sofreguidão dos "santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na copa. As contas do administrador apareciam sobrecarregadas com as mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patrício surripiara-lhe duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. José I..." e o filho que pela morte da mãe "caiu numa angústia soturna, obtusa, sem lágrimas, de que não queria emergir, estirado de bruços sobre a cama numa obstinação de penitente. Muitos meses ainda não o deixou uma tristeza vaga: e Afonso da Maia já se desesperava de ver aquele rapaz, seu filho e seu herdeiro, sair todos os dias a passos de monge, lúgubre no seu luto pesado, para ir visitar a sepultura da mamã..."

 

4. Os altos e baixos da organização mental de Pedro - que passou da melancolia às pateadas, causando cenas vergonhosas na sociedade de então: "estroinice banal, em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava afogar em lupanares e botequins as saudades da mamã. Mas essa exuberância ansiosa que se desencadeara tão subitamente, tão tumultuosamente, na sua natureza desequilibrada, gastou-se depressa também.Ao fim dum ano de distúrbios no Marrare, de façanhas nas esperas de touros, de cavalos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a reaparecer as antigas crises de melancolia nervosa". Um homem pouco capaz de aguentar as agruras da vida, revoltado, sem direção ou motivos para viver.

 

5. As dicas a respeito de Pedro deixam indiciar o seu fim - "descobrira a grande parecença de Pedro com um avô de sua mulher, um Runa, de quem existia um retrato em Benfica: este homem extraordinário, com que na casa se metia medo ás crianças, enlouquecera - e julgando-se Judas enforcara-se numa figueira...", ou ainda, quando Afonso o vê pela primeira vez com Maria "olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate, que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvê-lo todo - como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas."

 

publicado às 16:54

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