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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


12.08.18

Amigo Ramalho.

por Nes.

Apesar da admiração manifestada por Eça por alguns dos vultos da sua época - como Antero de Quental, em "O Génio que Era um Santo", foi com Ramalho Ortigão que manteve uma colaboração frutífera ao longo dos anos. Uma amizade com alguns traços estranhos - se por um lado foi ele um dos poucos que teve a honra de estar no casamento de Eça, por outro foi com ele que o escritor se travou de razões devido ao falhanço na revisão de "O Crime do Padre Amaro". Uma amizade atípica, desde já pela diferença de idades (nove anos) e pelas circunstâncias em que se conheceram - Eça foi aluno de Ramalho, que era professor de francês no colégio da Lapa.

 

Escreveram juntos "O Mistério da Estrada de Sintra", que começou em folhetim no Diário de Notícias em 1870. Imaginem abrir um jornal e vir lá escrito "eu, fulaninho de tal, aconteceu-me isto e isto no sítio tal". Os sucessos descritos eram tão estranhos - um médico e o seu amigo, raptados por quatro mascarados, para confirmar se um cadáver era realmente cadáver - que lançaram o pânico entre a sociedade lisboeta. Vários falsos alarmes relativos à proveniência ou passagem dos mascarados foram transmitidos à polícia - até que outra pessoa respondeu à carta, noutro folhetim. Aos poucos as pessoas aperceberam-se que tudo era apenas uma novela - e puderam apreciá-la, recostados nas respetivas poltronas.

 

O estilo de Eça e Ramalho, que se confrontavam cada um no papel de várias personagens, era facilmente distinguível. Ramalho tem uma prosa mais engrolada, menos fluida; Eça é cerebral, escarninho, argumenta com precisão. E este estilo manter-se-ia n' "As Farpas", revista satírica. Eis Eça a falar do novo mercado do peixe no Porto, usando a habitual hipérbole:

"Pois bem! A Câmara Municipal do Porto, com uma nobre solicitude pelo peixe, para quem parece ser uma extremosa mãe, e receando, com um carinho assustado, que o peixe se constipasse, ou sofresse a indiscrição dos vizinhos, construiu-lhe uma praça fechada, com altas e fortes paredes, varandas, gabinetes interiores, corredores, alcovas, casa bem reparada, quase um palacete. E tudo de tal modo tranquilo, aconchegado, confortável, que a Câmara hesita se há-de pôr ali peixes, se livros - e se fará daquilo um mercado ou uma biblioteca! "

publicado às 19:11

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