Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


16.09.18

O que é um rastaquouère?

por Nes.

Há expressões e lugares comuns perpétuos, mas outros ficam sepultados sob a poeira dos anos, que inexoravelmente passam e modificam as concepções. Essa perspetiva tem sido constante ao longo da leitura das "Cartas de Paris". Num dos seus textos emana uma expressão que não é de todo desconhecida a quem travou conhecimento com o infame ex-companheiro de Maria Eduarda da Maia, Monsieur Castro Gomes.

 

"- Que tal é como homem? perguntou Ega.
- Um brasileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um rastaquouère, o verdadeiro tiposinho do Café de la Paix... É possível que sinta, quando isto vier a suceder, um certo ardor na vaidade ferida... Mas é um coração que se há-de consolar facilmente nas Folies Bergères."

 

Dizia Carlos, bisonhamente, antes da débâcle que o homenzinho ia fazer desabar sobre ele, que o faria arrepelar-se e pensar em Maria como uma "mulher, que qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sofá, fácil e nua!" Mas isso seriam outros quinhentos. Nesta altura Castro Gomes era aparentemente um marido pouco amoroso - e um rastaquouère.

 

07-Café-de-la-Paix-1.jpg

daqui.

 

O termo foi cunhado em Paris para designar aqueles alpinistas sociais, muito poseurs, muito snobs de imitação, cheios de mania, com boas maneiras ainda a cheirar a plástico (lembrei-me de Meghan Markle e da sua novíssima carteira) que vieram sabe-se lá de onde, sabe-se lá com que dinheiro e com que pergaminhos, reclamar um lugar na sociedade parisiense. Nunca pertenceram àquele meio, limitaram-se a aparecer ali para colher as finas flores que a civilização proporciona - os lendários divertimentos de Paris - sem qualquer outro contributo, ciente do facto de os seus fundos serem a chave que abre todas as portas num mundo tão fútil, superficial - Parisiense! - como esse.

 

Embora o termo se tenha perdido, ainda pode perfeitamente ser aplicado - conhecem ou não um ou outro do estilo? Se puxarem um pouco pela cabeça é provável que os tenham já encontrado. E enquanto pensem, fiquem com Serge Gainsbourg. Boa semana!

 

publicado às 22:33

09.09.18

Cartas de Paris e leveza de pensamento.

por Nes.

Eça viveu em Paris na recta final da sua vida, exercendo ali as funções de cônsul. Era já conhecido e famoso pelos seus livros, que começavam a ser traduzidos Europa fora. Escrevia ainda para a Gazeta de Notícias, periódico brasileiro sediado no Rio de Janeiro, através do qual informava os cariocas das notícias da França. Os temas dos textos variam muito - os anarquistas, a política e sociedade francesas, o assassinato do Presidente Carnot, e a imprensa.

 

Nesta fase da sua vida, o humor de Eça era muitíssimo subtil, e a sua escrita serena. Tinha já passado a fase irónica, ácida e acutilante que o levara a criar Acácios e Egas, mas mantinha o espírito vivo e a caneta afiada para a crítica. Num dos textos desta compilação - importantes para também compreender a história daquele tempo e perceber como os grandes conflitos do século XX já se faziam adivinhar nessa época - Eça refere a forma como a imprensa perdeu o hábito de educar, para lançar o hábito de julgar superficialmente.

 

"Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e irradicável hábito dos juízos ligeiros. (...)É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condenar em política o facto mais complexo, e onde entrem factores múltiplos que mais necessitem análise, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo ondeante do charuto. (...) Com que esplêndida facilidade declaramos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar «É um génio!» ou «É um santo!» oferecemos naturalmente mais resistência. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um fígado livre nos inclinam à benevolência risonha, também concedemos prontamente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa de louros ou a auréola de luz."

 

Palavras para quê?

publicado às 11:00

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.