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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


25.05.16

Xarope de Gibert.

por Nes.

Quando João Eduardo foi identificado como o infame autor do "Comunicado", a noiva Amélia rompeu o compromisso, o patrão Nunes Ferral despediu-o, e o jovem, sob a influência do amigo Gustavo, embebedou-se na taberna do tio Osório. Ora o vinho é mau conselheiro, e é excelente a criar brigões. Um indivíduo ébrio é uma garrafa de vinho do Porto subitamente agitada - todas as impurezas da alma, que são os ciúmes, as mágoas, as paixões, os segredos que residem no seu âmago, surgem à superfície e estragam a convivência. Portanto não é de espantar que João Eduardo tivesse todos os maus instintos a ferver quando viu Amaro no largo da Sé - e bêbedo de álcool e ciúmes, desferiu-lhe um murro no ombro.

daqui

Tal desordem foi um acontecimento extraordinário naquela vila tão calma, e o prevaricador foi imediatamente levado pelas autoridades. Eis que entra em cena Carlos da Botica, que assiste Amaro e que alega descortinar naquele murro o início de uma revolução social para destronar a Santa Igreja do papel que ora ocupava. E inquieto segue para o local onde João Eduardo está detido para falar directamente com o administrador - quer ele quisesse, quer não.

 

Carlos da Botica passa então um mau bocado na repartição, onde ninguém o ouve nem se preocupa com o seu testemunho. O administrador, esse, é olimpicamente magnânimo ao recambiar João Eduardo para sua casa apenas com uma leve advertência. Pobre Carlos! Um visionário destroçado pela indiferença destes funcionários públicos só pode perder a fé nesse Estado Católico ameaçado pela iminente revolução. Ia abandonar, indignado, quando o administrador o chamou e lhe passou um bilhete para as mãos.

 

Carlos saiu, reconfortado pelo pensamento que afinal nem tudo estaria perdido - mas quando lê o papel a sua desilusão é amarga.

"- É uma garrafa de xarope de Gibert para o senhor administrador! Aí tem a receita, Sr. Augusto"

Bem... O que seria esse xarope que tanto enfurece o boticário? Fiquei com a dúvida anos a fio - que se agudizou quando li "A Capital".

"Sabe o que lhe recomendo que faça com o seu drama? Como tratamento interno, xarope de Gibert! Como tratamento externo, cautério de nitrato de prata".

Aqui temos uma meiga e doce crítica ao trabalho de Artur Corvelo, "Amores de Poeta", pelo inefável amigo Damião. Eis como a receita sugerida chama o xarope de Gibert de novo à ribalta. Mas o que é isto? Um xarope que serve de punchline para dois momentos de dois livros diferentes? Com um evidente propósito pejorativo? E eu não sei o que isto é? Lá fui investigar.

daqui.

Por onde começar a pesquisa, nestes tempos velozes e tecnocráticos? Julguei que tudo saberia facilmente, pois sou devota da Nossa Senhora da Internet. Mas para mal dos meus pecados, nem na Internet, poço de sabedoria, nem no Google, que também deu novos mundos ao mundo, nem na Wikipedia, esse Tesseract de informação - em lado algum obtive uma resposta decente e satisfatória! Foi assim que me vi forçada a roubar meia hora ao precioso tempo de estudo, para folhear, com um galho, as páginas poeirentas do "Grande Larousse" e da Enciclopédia Luso Portuguesa.

 

Foi assim que descobri que Gibert, o Doutor Camille Melchior Gibert, foi um médico dermatologista francês que se especializou no estudo da sífilis, tendo desenvolvido o xarope homónimo para tratar as lesões na pele causadas por esta doença. O xarope era feito de iodo, potássio e mercúrio, e o Dr. Gibert chegou mesmo a escrever um "Manual de Doenças Venéreas" que decerto todos nos orgulharíamos de ter nas nossas estantes.

daqui.

E é aqui que paramos para apreciar a genialidade da escrita. Um bom escritor não precisa descrever exaustivamente - basta mostrar. Não é preciso acastelar adjectivos, nem surpreender o leitor com excessiva erudição, com palavras que brilhem como jóias na mancha de texto. Um escritor a sério dá-nos um mundo de informações com pouca coisa.

 

Xarope! De! Gibert! Com três palavras apenas descobrimos que o administrador, que sabíamos ser preguiçoso e voyeur porque passava o horário de expediente a espiar a esposa do sr. Teles através de um binóculo, é também alguém cujas relações, hábitos e conduta moral talvez deixem muito a desejar. Percebemos facilmente que Damião vê no drama uma narrativa abjecta e podre. E eu percebi finalmente a piada! Com vossa licença, vou só ali rir um bocadinho.

publicado às 22:14

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