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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


26.10.16

Veículos antigos.

por Nes.

Confesso que gosto muito do nosso tempo, e da possibilidade de viajar livremente. Queremos ir a Londres? Bem, vamos ali apanhar o avião e estaremos lá em duas horas. Tens meia hora para ir do Porto a Matosinhos? Chama um táxi! Uma bicicleta para passear, pode ser? Nos tempos de Eça tudo isto seria impossível. As viagens eram longas e por vezes levavam as pessoas para sempre. Quando os avós de Jacinto foram para Paris, encontraram "tão rijos mares" que a avó prometeu uma coroa de espinhos em ouro ao Cristo da igreja da sua terra natal, se chegassem vivos, e o medo impediu-a de regressar quando enviuvou.

 

Bons novos tempos. Quando Eça era vivo as pessoas essencialmente deslocavam-se a pé, ou então em veículos puxados por cavalos. Quando o automóvel surgiu, os médicos assustaram as pessoas ao informá-las que o corpo humano não estava preparado para viajar à velocidade suicida de 20km/h. Imagine-se estas pessoas a ver o metro de agora...

 

Então e nós? Quando abrimos os livros de Eça encontramos tantos nomes diferentes e desusados para meios de transporte obsoletos que acabamos por não visualizar a cena na nossa cabeça. A profusão de veículos fez-me decidir ir à procura, e listar o que descobrisse.

 

daqui.

 

Um cabriolé. Quando o Dr. Gouveia vai assistir Amélia no seu parto, tem de largar rapidamente de Leiria e ir até à Ricoça. O melhor é usar um veículo leve e rápido.

 

daqui.

 

Um faetonte. Genericamente referido nos livros de Eça.

 

daqui.

 

O dog cart. O meio de transporte preferido de Carlos da Maia.

 

daqui.

 

A diligência. Meio fechado utilizado como transporte público. É numa carruagem deste tipo que Amaro chega a Leiria e que Ega abandona Celorico.

 

daqui.

 

Um coupé, carruagem fechada e com espaço para várias pessoas. Se não me engano, é num veículo destes que Carlos e a Condessa de Gouvarinho se encontram quando ficam sem casa para abrigar os seus amores.

 

daqui e daqui.

 

Um ónibus e um landau, respectivamente. Motivam uma frase engraçada citada por Meirinho, em "A Capital" - Citou a frase do velho marquês de Arrifana, «aquele original»: «Eu, quando passa um rico landau, volto a cabeça, porque tenho a certeza que é gente pulha, mas se vejo um ónibus, tiro o chapéu. porque estou seguro de que vão lá pessoas de nascimento...». Resumindo - o ónibus era para os pobres, o landau transporte de ricos.

 

daqui.

 

Fechemos com o "Americano", o transporte público que co-protagoniza o fim da obra-prima "Os Maias".

 

"Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o poder...

A lanterna vermelha do «Americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «Americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

 

 

 

publicado às 10:30

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