Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


24.08.16

Vamos à discoteca no século XIX?

por Nes.

Não sei o que vocês pensam, mas quando se fala em século XIX pensamos tendencialmente na Belle Époque, em senhoras de vestidos complexos, cavalheiros de cartola e bengala, duelos ao amanhecer, guerras, regras de etiqueta ultrapassadas, e fotografias a preto e branco. Ter encontrado uma cena passada numa discoteca, na noite de Carnaval em Lisboa, escrita pela pena de Eça, deixou-me abismada e entusiasmada.

 

N' "A Capital", Artur está desesperado por reencontrar a amante que o abandonou, e corre os teatros em busca dela, bebendo cada vez mais. Sem sucesso, é levado por Melchior ao Casino, para ver as cancanistas. Lendo a descrição do salão, quase o podíamos associar a uma noitada numa discoteca da moda, fora o facto de antigamente a música ser providenciada por uma orquestra ao vivo.

"O salão estava cheio, abafado, de um calor morno que parecia feito de exalações de suor. A luz crua dos lustres de gás feria as cores claras e duras das paredes, da decoração, e ressaltava, fazendo flutuar uma radiação quase espessa. No estrado, o regente agitava furiosamente a batuta, impelindo as vagas estridentes de uma instrumentação grosseira — e uma multidão de paletots, de chapéus altos, de dorsos curvados numa curiosidade sôfrega, concentrava-se em volta do can-can."

 

daqui.

 

Aaah, o eterno fascínio pelo que é estrangeiro, que deixa os portugueses embasbacados! Eça traz-nos um retrato vívido de uma série de portuguesitos bêbedos e dominados pela lubricidade, numa terra católica onde ver um pedaço de tornozelo era um momento emocionante.

 

"Em redor gozava-se. Havia nos rostos uma dilatação lúbrica, hílare, e bravos estalavam às pernadas mais arremessadas. As cabeças apertavam-se na admiração babosa do chic estrangeiro e até velhotes, de lábio pendente, arregalavam olhares que lambiam as formas das pernas, dos peitos, a cor dos cabelos. Trocistas avinhados excitavam as bailarinas com gritos: eh! eh! viva! larga!"

 

daqui.

 

Toda a descrição de Eça, pelos olhos do herói Artur, realça que "toda a prostituição barata mostrava as formas de uma gordura balofa ou de uma magreza esfomeada", que o ambiente era pesado, abafado e malcheiroso, e que a moralidade anda pelas ruas da amargura - "falava-se com uma excitação ansiosa, estonteada, bestial; bêbedos provocavam questões, e dos pares unidos sentiam-se subir as paixões mórbidas e brutais do bordel."

 

Seria estranho se Artur, influenciável e fraco, não se deixasse contagiar pelo ambiente daquele covil. Então o que é que se faz, quando se está numa festa rija e se decide descontrair? Bebe-se álcool.

 

"Artur sentiu então um desejo de movimento, de alegria, de troça. Desceu ao café a aquecer-se com um grogue. As mesas do botequim estavam cheias, numa algazarra: dominós desmascarados absorviam cabazes, grogues; as vozes agudas dos criados retiniam; bengalas furiosas, batendo no mármore das mesas, reclamando álcool; e os pares, amancebados por uma noite, beijocavamse sem pudor. Artur não pôde obter o seu grogue — mas o cheiro de fêmea, os tons dos ombros nus, o vapor quente dos grogues com rodelas de limão — excitaram-no, deram-lhe uma vibração de lubricidade."

 

Aquela do "amancebados por uma noite" lembrou-me imediatamente a Queima no século XXI. Quem diria? Isso e o facto de na manhã seguinte ter acordado ao lado de uma mulher desconhecida. Descobri entretanto um grogue é uma bebida feita de rum com água e açúcar, à qual podiam ser adicionados elementos para conferir aroma, como o limão ou a erva-doce.

 

Na hora de dançar dificilmente poderíamos pensar em algo mais selvagem do que isto - "como a orquestra rompera numa polca, lançaram-se na sala, enlaçados. Era a primeira vez que Artur dançava. A bacante, indiferente ao compasso, pulava ao acaso, com grandes pernadas, arrastando-o, levantando-o quase do chão, colando-o contra si, soprando alto, com o olhar doido. Artur agarrava-se a ela, todo excitado de desejo: a sala parecia-lhe oscilar vagamente, e as cabeças dos pares — guedelhas, capuzes de dominó, capacetes, chapéus de camponesas — agitando-se em volta dele num ritmo pulado, estonteavam-no."

 

daqui.

 

E que tal um belo ménage à trois? "Examinou-o então pela primeira vez, quis saber se era sólido: apalpou-lhe os braços, a barriga das pernas; depois expôs as suas belezas, contou que fora modelo, e agarrando Artur pelo pescoço, rolou-se com ele pelo divã. A vivandeira, com os beiços franzidos, parecia escandalizada. Além disso, Melchior esquecia-a, roçando-se pela bacante, com os olhos acesos, furtando-lhe beijos no pescoço."

 

Acho que este episódio só vem acrescentar valor àquela afirmação, segundo o qual Eça procurava descrever a realidade escandalizando e expondo o que havia de podre nela, algo que chocava decisivamente com os gostos púdicos da época. De resto dá-nos também uma visão inesperada daquele tempo. Sim, é certo que a música era de orquestra, as danças eram polcas e can-cans, os fatos de Carnaval estão desactualizados, bebia-se rum e havia polícia na sala em vez de segurança privada - mas  quem não teve uma destas festas decadentes na Faculdade?

"Aquiles, dominós, pastorinhas, fadistas, prostitutas e bêbedos, cambaleantes — iam num tropel de troça esbandalhada, com um desengonçamento demente, num turbilhão circular — enquanto o ponteiro negro já marcava, gravemente, a primeira hora triste de quarta-feira de Cinzas."

 

publicado às 11:43

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.