Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


30.07.17

Um terço pela Portugalidade.

por Nes.

Há dias encontrei um bonito sketch da turma do programa "Donos Disto Tudo" que adorei. Nele, Joaquim Monchique caricaturiza a taróloga Maria Helena, que tem um programa já mítico nas manhãs da SIC.

 

 

Neste segmento, a taróloga procura impingir uma série de amuletos celestiais, para ajudar a dialogar com os anjos e a trazer bênçãos para as vidas dos seus portadores. Esta venda de quinquilharia celestial é um ponto forte do programa, a par com outras curiosidades, como as chamadas de valor acrescentado, as inscrições que são todas eliminadas sempre que a taróloga atende um cliente, os pedidos reiterados para que a comunidade emigrante ligue ("não saio daqui sem atender alguém no Luxemburgo ou em França!") e a rapidez com que despacha quem está ao telefone assim que a conversa deixa de interessar.

 

A bela da Maria Helena, a par com as migas que fazem - ou faziam - um programa similar na TVI, cavalga a onda das pessoas que acreditam no poder do Tarot, que aproveitam para seguir os seus conselhos, que estão desesperadas por uma solução para os seus problemas - e vão ganhando valentes trocos com isso. Nada contra, mas - amigos! - nada de novo!

daqui.

 

"No entanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava relíquias. Bem depressa, porém recordado dos compêndios de Economia Política, refleti, que os meus proventos engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me dirigisse ousadamente ao consumidor pio.

Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graça, cartas com listas e preços de relíquias. Mandei propostas de ossos de mártires a igrejas de província. Paguei copinhos de aguardente a sacristães, para que eles segredassem a velhas com achaques — "Para coisas de santidade não há como o senhor Doutor Raposo que vem fresquinho de Jerusalém!..." E bafejou-me a sorte. A minha especialidade foi a água do Jordão, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um coração em chamas; vendi desta água para batizados, para comidas, para banhos; e durante um momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e límpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente num quarto da Pomba de Ouro. Imaginativo, introduzi novidades rendosas e poéticas; lancei no comércio com eficácia "o pedacinho da bilha com que a nossa Senhora ia à fonte"; fui eu que acreditei na piedade nacional "uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Família". Agora quando o Lino de chinelos batia à porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do presépio alternavam com as palhas de tabuinhas de São José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:
— Foi-se... Esgotadinho!... Só para a semana... Vem-me aí um caixotinho da Terra Santa...
As veias frontais do capacíssimo homem inchavam, numa indignação de intermediário espoliado.
Todas as minhas relíquias eram acolhidas com o mais forte fervor — porque provinham "do Raposo, fresquinho de Jerusalém". Os outros reliquistas não tinham esta esplêndida garantia de uma jornada à Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrera esse vastíssimo depósito de santidade. Só eu de resto sabia lançar na folha sebácea de papel que autenticava a relíquia — a firma floreada do senhor Patriarca de Jerusalém.
Mas bem cedo reconheci que esta profusão de reliquilharia saturara a devoção do meu pais! Atochado, empanturrado de relíquias, este católico Portugal já não tinha capacidade — nem para receber um desses raminhos secos de flores de Nazaré, que eu cedia a cinco tostões!
Inquieto, baixei melancolicamente os preços. Prodigalizei, no Diário de Notícias, anúncios tentadores — "Preciosidades da Terra Santa, em conto, na tabacaria Rego, se diz..." Muitas manhãs, com um casacão eclesiástico e um cachené de seda disfarçando a minha barba, assaltei à porta das igrejas velhas beatas; oferecia pedaços da túnica da Virgem Maria, cordéis das sandálias de São Pedro; e rosnava com ânsia, roçando-me pelos manteletes e pelas toucas: "Baratinhos, minha senhora, baratinhos... Excelentes para catarros!..."

 

O amigo Teodorico Raposo, recém-chegado de Jerusalém e recém-expulso de casa pela sua beatíssima tia, fez valer as suas credenciais para abarrotar a cidade de tralha eclesiástica.Deserdado, esfomeado, sem um tostão no bolso, a ter de ganhar a dura vida após anos e anos a usufruir do regalo de ser sobrinho da Dona Patrocínio, não teve outro remédio a não ser continuar, ironicamente, a alimentar-se do mesmo mercado contra o qual tanto se insurgiu e do qual tanto escarneceu - o do Portugal velho e crente.

 

Não muito diferente do que se faz em Fátima, pois não? E não muito diferente do que se faz nestes programas, pois não? O Portugal velho e crente continua a alimentar muitas bocas, à semelhança do que acontecia num passado já muito longínquo. Eça sabia-lo bem, e por isso é que "O Crime do Padre Amaro" é uma diatribe cirúrgica contra a Igreja caturra, exploradora e manipuladora de outrora. Todavia, "A Relíquia" encerra uma ironia mais fina - como até os descrentes utilizam o fervor alheio para ganhar a vida.

 

 

 

 

publicado às 11:05

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.