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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


19.10.16

Cartas de amor queirosianas.

por Nes.

Imaginem que estão dentro do autocarro, a caminho do vosso emprego. O telemóvel toca. É a vossa cara-metade, que num arroubo vos enviou uma mensagem extremamente romântica. Vocês sorriem, coram até às raízes dos cabelos (se forem tímidos) e olham em volta, a tentar perceber se alguém captou a vossa turbação. Nada - as outras pessoas olham também os telemóveis, ouvem música enquanto olham melancolicamente o horizonte, ou dormitam de cabeças pendentes.

 

Felicíssimos, é agora que vocês dão resposta a essa enxurrada de amor. Nem têm palavras. Sem problema - abrem a aplicação das mensagens, abrem o separador dos emoticons, e espetam com todos os smiles e ícones de corações que o vosso telemóvel tem. Esperam que essa chuva de mini símbolos expresse eficazmente o que sentem, e suspiram.

 

Todavia, façamos de conta que iam responder, mas o autocarro ao dobrar a esquina caiu por artes mágicas no ano de 1878. E agora? Em vez de telemóvel têm papel almaço e uma longa pena de pato. Como respondem à vossa cara-metade?

 

"Curto-te imenso". "Gramo-te totil". "Ya, gosto de ti". "A nossa cena é bué".

 

daqui.

 

Tenho uma teoria. O mundo actual, com as facilidades de comunicação e deslocação, bem como a quantidade insana de aplicações de conversação, bonequitos e memes estão a matar o romance. Os primeiros porque eliminaram boa parte das dificuldades que fazem medrar os sentimentos românticos. Os segundos porque reduziram a nossa capacidade de verbalizar sentimentos.

 

Se não há obstáculos, se vivemos porta com porta, se falamos continuamente, se nada nos impede de estar com a pessoa que gostamos - nem sequer o afastamento da rotina - os amores estiolam e morrem sufocados. E se falamos continuamente, diluindo em gotinhas aquilo que antes era exposto numa carta que portava um coração inteiro, o impacto é diminuto. Ninguém recorda a quantidade de beijinhos que a cara-metade mandou, ou aquela frase de Facebook industrializada, massificada e espetada no mural do outro. Recordam os piropos, as confissões explosivas e a urgência em estar com quem abre o coração.

 

daqui.

 

Eça soube explorar bem esses aspectos, embora em boa verdade as suas personagens não tivessem outro remédio a não ser a correspondência epistolar. Século XIX! Se Luísa e Basílio falassem pelo Whatsapp, talvez Juliana nunca a chantageasse. Sabemos que foram as cartas que tramaram Luísa - atiradas ao caixote do lixo, roubadas do cofre, lidas sofregamente por uma gralhada de velhas invejosas.

 

"Fora preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cera, paciência de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Vitória - que rira, rira!... Sobretudo o bilhete em que Basílio lhe dizia: "Hoje não posso ir, mas espero-te amanhã às duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste à outra, trazê-la no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!... " A tia Vitória, sufocada, a quis mostrar à sua velha amiga, a Pedra, a Pedra gorda, que estava na saleta.

A Pedra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal-cheios tinham
sacudidelas furiosas de hilaridade."

 

daqui.

 

Invejosas, é o que vos digo. Cá para mim sempre achei esta manobra digna de cocotte e sofisticada q.b. Adiante.

 

"Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que ali estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar a ver-te, depois daquela estúpida viagem para tão longe, não tu superior ao sentimento que me impelia para ti, meu adorado Basílio. Era mais forte que eu, meu Basílio. Ontem, quando aquela maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Basílio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-ta, porque te amo, que eu mesma, me estranho... Mas para que foi aquela mentira, e para que vieste tu? Mau! Tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Basílio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, pareço-me que te amo mais, se é possível..."

 

Isto é Eça a gozar com a própria personagem. Luísa foi concebida como o produto de um consumo excessivo de romances em detrimento de doses cavalares de realidade, e a carta que escreve a Basílio é o arquétipo da donna doidinha que ama o amor. O meu ponto é - duvido que isto exista na cabeça da mais doida rapariga de agora. Perdeu-se verbalização, requinte e profundidade. Quero lá saber que as divagações de Luísa precisem de violino a servir de som de fundo. Isto é bonito, pronto.

 

E bonito é também a pirosada que o novo namorado de Leopoldina lhe escreve, um poema horrível.

 

"Farol da Guia, 5 de junho

Quando cismo à hora do poente

Sobre os rochedos onde brame o mar..."


Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ela, Leopoldina, "
visão radiosa que deslizas leve", nas águas dormentes, nas vermelhidões do ocaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, de um sentimentalismo reles, com um ar tísico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E, terminando, dizia-lhe que não era "nos esplendores das salas" ou nos "bailes febricitantes" que gostava de a ver; era ali, naqueles rochedos,

Onde todos os dias ao sol posto

Eu vejo adormecer o mar gigante."

 

daqui.

 

Está bem, tio Eça, está bem! É piroso - mas pelo menos não é o "Bo tem Mel"!

publicado às 23:55

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