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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


10.09.17

O que têm em comum Eça e a Guerra dos Tronos?

por Nes.

Há uns anos, lembro-me perfeitamente que Tozé Martinho era autor de uma novela na TVI, em que um casal era impedido de viver em pleno o seu romance porque se tinha descoberto que o rapaz era filho do pai dela. Num dos últimos episódios a heroína estava no altar com outro amor, certamente sem suspeitas genealógicas que a fizessem ter pesadelos com o incesto. Eis que a sua mãe, horrorizada com tudo o que estava a acontecer, grita com o marido durante a parte do falem-agora-ou-calem-se-para-sempre - "A Joana não é tua filha". Questionado quanto a este twist na narrativa, Tozé Martinho disse numa entrevista (que não encontro, já foi há muitos anos) "em Portugal só Eça se atreve a escrever sobre incesto".

 

Em Portugal isso até pode ser verdade, mas na série de culto "Guerra dos Tronos", os aventureiros que viram o primeiro episódio da primeira temporada puderam perceber que o autor não estava para brincadeiras, fazendo dois irmãos - gémeos! - aparecer em grande destaque no final do episódio, a fazer o que tinha de ser feito, com um pequeno rapazinho que acidentalmente os descobre. Nós, que vimos a primeira temporada antes de a série assumir o destaque que tem, devíamos ter logo esperado o pior de alguém que escreve sobre dois gémeos que se conhecem desde o ventre e assumem uma relação amorosa, filhos e tudo, debaixo das barbas de toda a gente. Casos de incesto não ficariam por aí, e em breve veríamos desfilar no ecrã a casa Craster, em que o pai Craster criava as filhas para concubinas e se livrava dos filhos; ou ainda o mais recente romance entre Jon e Dany, tia e sobrinho - de todos, o único caso em que Martin, para já, deu a inocência do desconhecimento.

daqui.

 

As comparações com Eça são incontornáveis, porque de facto são poucos os autores que tradicionalmente se conhecem por abordarem este assunto, e mais ainda quando falamos de autores que o fazem não apenas uma vez, mas várias, e que são incestuosos voluntária e involuntariamente.

 

O caso de Carlos da Maia e Maria Eduarda, tal como Cersei e Jaime Lannister, é o mais comummente citado. A grande tragédia de "Os Maias", e que serve de pano de fundo a toda a crítica social que motiva e sustenta o livro,é precisamente o início deste romance e a descoberta da verdade, inexorável à moda dos gregos. Dois irmãos, separados na tenra infância por uma mãe que parte com a filha e deixa o menino com o pai, conhecem-se na idade adulta e iniciam um romance ardente. Não há nada de leve nesta história, nem sequer a forma fortuita como os factos se revelam.

 

" - Muito agradecido a V. Exc.ª! Eu junto-lhe então um bilhete e V. Exc.ª entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou à irmã.

Ega teve um movimento de espanto: - Á irmã!... A que irmã?

O Sr. Guimarães considerou Ega também com assombro. E abandonando-lhe lentamente a mão: - A que irmã!? A irmã dele, à única que tem, à Maria!"

 

Tenho um amigo que insiste que a vírgula mais importante de toda a história da literatura portuguesa é aquela que antecede o trecho "ou à irmã", que isola muito especificamente a parte da alocução do Sr. Guimarães em que toda a nossa atenção tem de estar concentrada. Isola, coloca em relevo, destaca, dá suspense, uma vírgula felicíssima, diz ele. Até acredito, mas é preciso considerar toda a ironia desta revelação - um homem que se preparava para não regressar a Lisboa, que já se despedia de Ega, que apenas acertava um último pormenorzito, ridículo na sua insignificância. Um homem que era tio do homem que mais detestava o romance de Carlos e que tudo tentou para os separar, um homem que tinha todas as respostas, todas, e que os agentes e o dinheiro de Afonso da Maia nunca lograram descobrir. 

daqui.

 

Bem mais desastroso é o caso de Genoveva e Vítor, de "A Tragédia da Rua das Flores", que aparenta em tudo ser um ensaio para o grandioso "Os Maias", com algumas particularidades. Embora menos desenvolvido em tudo - personagens, trama, crítica social - não deixa de ter uma voz própria, principalmente na forma como se descobre o incesto. Genoveva é equiparável a Maria Monforte, uma louca que deixa marido (que se suicida) e filho, que é criado pelo tio. O tio é o Sr. Guimarães deste livro. Vítor, jovem belo e desmiolado - uma mistura de Carlos da Maia e Artur Corvelo - conhece Genoveva quando ela volta a Portugal e não desiste enquanto não a seduz. Quando o tio a conhece e a recorda como a esposa louca do irmão, Genoveva fica horrorizada com o incesto e suicida-se de imediato, para grande dor de Vítor, que nunca chega a saber a verdade.

 

"— Genoveva — disse, baixo. Notou então que estava toda esguedelhada, com o corpete aberto, lívida, velha. Entrou bruscamente. Ela ergueu o rosto, viu-o, ergueu-se num pulo e ficou com os braços estendidos, inteiriços, para ele, os dedos muito abertos. — Que é, Genoveva? — gritou, aflito, correndo para ela. Ela recuou, com os olhos dilatados, o corpo inteiriçado, um esgar na boca, medonho, e os seus braços faziam ansiosamente sinal «que não!, não!» Respirava tragicamente, com um aãh ansioso de agonia. E os olhos, terríveis, pasmados, como mortos, saíam-lhe das órbitas, fixavam-se nele, com uma persistência pavorosa. Vítor ficou petrificado. Balbuciou: — Genoveva, meu amor, que é? — E deu um passo. Mas ela, possuída de um terror alucinado, recuou e, de repente, encolhida, procurou, com os olhos ferozmente esgazeados, uma porta, um canto, uma saída. — Ah, meu Deus, que endoideceste! — exclamou ele com uma voz chorosa, estarrecido. — Mas, Genoveva, sou eu! E ia para ela. Mas ela, abrindo a boca com uma ânsia terrível, soltou, num baque súbito, um grito: — Maldito! Maldito! E volteando-se, num relance, correu à janela e, lançando o corpo sobre o peitoril, atirou-se, com um grito estridente. Vítor sentiu ainda o seu corpo fazer, na rua, um som baço e mole de um fardo de roupa."

daqui.

 

O único caso em que Eça se atreve a fazer as personagens assumir o incesto - sabendo perfeitamente que eram parentes, ainda assim seguiram em frente - foi o de Basílio e Luísa, primos. Creio que tal aconteceu porque entre primos o incesto aparenta tradicionalmente assumir um relevo inferior ("quanto mais prima mais se lhe arrima") e ainda hoje é socialmente aceite. Tal vê-se neste livro, porque o namoro inicial entre os primos, quando Luísa era solteira, nunca foi problema de maior. Não que o casamento de Luísa tenha sido um impedimento maior, mas tudo bem.

 

"Que, verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se!"

 

daqui.

 

Conclusões, alguém as tem?

publicado às 11:04

09.07.17

Eça, partiste-me o coração...

por Nes.

... e de que maneira. 

 

"E não me rasgaste tu também o coração? Tiveste tu piedade? Não. Retalhaste-mo! Meu Deus, eu que a julgava pura,"... escrevia o Enestinho no lendário "O Primo Basílio", enquanto burilava o seu dramático drama, passe o pleonasmo. Pois sinto o mesmo em relação a ti, caro Eça - que me retalhaste o meu frágil e literário coração.

 

Eu já sabia, já vinha desconfiando, desta traição. Havia indícios, claro - uma biografia claramente reveladora das tuas tendências, resquícios de expressões tuas pelos livros que me passavam nas mãos, o bichanar daqueles que eu achava que nos queriam mal - a ti e a mim, tua confessa admiradora. O mundo é que não gostava da nossa relação. O mundo estava cheio daquelas míticas pessoas invejosas de quem toda a gente ouve falar no Facebook, e a quem toda a gente envia "beijos de luz", enquanto "samba na cara das inimigas". Nenhuma nos queria bem, a nós e ao que tão de especial temos.

 

Mas, ai! As mentiras não duram para sempre. Muito menos as mentiras piedosas que contava a mim própria, para não deixar isto morrer. Não tive outro remédio senão enfiar o nariz naquilo para o qual tantos me alertavam. Enchi-me de coragem, respirei fundo, enquanto ouvia no fundo da minha alma a Mónica Sintra cantarolando, desta vez, acerca de traições literárias...

 

"Na minha biblioteca com ele, 

Tu e ele no meio dos títulos, 

A inspirares-te nele, 

Muito mais que uns capítulos"

 

... e comecei a ler "Uma Educação Sentimental", de Flaubert.

 

Minha Nossa Senhora! As comparações teriam um fim? Este Frédéric não está mesmo talhado a partir de um Artur Corvelo? Esta devoção pela Senhora Arnoux, que até é invocada como sendo "Ela", maiúscula e tudo, não é mesmo uma cópia descarada dessa loucura infinita que era a (suposta) Baronesa de Paradas? Esse amor pela ascensão social, pelas coisas luxuosas, pelas soirées desgraçadas, não está ao nível de um rico episódio de "Os Maias"? Caramba, até aquele grito no meio da balbúrdia, "Meus Senhores! Eu tenho experiência" é algo que já li na obra maior do tio Eça! E aquele Deslauriers - ou devo chamar-lhe Damião? 

 

Ai... Vou recompor-me. Os escritores só nos dão desgostos. Vou ver se arranjo ali umas bolachinhas de chocolate e um livrito da Corin Tellado para me ajudar a superar esta facada, tio Eça!

 

publicado às 14:18

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