Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


14.12.16

A doença do diletantismo.

por Nes.

Quando Eça terminou o curso de Direito não foi imediatamente trabalhar. O cavaco da Universidade de Coimbra era demasiado saboroso para terminar logo após as aulas. Apesar da sua actividade jornalística em Leiria e Évora o seu coração estava em Lisboa, juntamente com os seus companheiros. O interessante nesse grupo era a falta de actividade laboral - a biografia de Eça neste período da sua vida revela um jovem desempregado, que escreve romances em folhetins como "O Mistério da Estrada de Sintra" e artigos jocosos para o Contra-Informação daquele tempo, "As Farpas", mas sem uma actividade profissional que o obrigasse a trabalhar das oito às oito e o impedisse de trabalhar os seus dotes intelectuais.

 

Esse tempo de vadiagem acabou por se revelar profícuo, como tempo de estudo dos caracteres que compunham a sociedade lisboeta num bolo de mil folhas, pelo que esse tempo de entretenimento intelectual não foi de todo prejudicial. Duvido que tal se pudesse reproduzir nos tempos actuais. Será que se Eça fosse um jovem "nem-nem" de agora seria um escritor genial, ou dispensaria o tempo de leitura e trabalho mental para jogar Candy Crush no telemóvel? A sorte de Eça foi também o seu grupo de amigos, bem como o interesse obsessivo pelos livros e que alimentavam uns nos outros.

 

daqui.

 

A sorte de Eça era a sorte dos Carlos da Maia, dos Carlos Fradique Mendes, dos Jacintos e Zés Fernandes, dos Egas, Dâmasos, dos Artures, dos Basílios - tempo e dinheiro para fazer o que quisessem, uma condição privilegiada inimaginável actualmente. Não conheço ninguém que não trabalhe ou estude e que tenha meios para fazer o que quer. Com essas premissas e que dedique o tempo livre ao estudo, à reflexão, à filosofia, certamente só um unicórnio.

 

O que nos vale é que Eça teve tempo para ser um unicórnio - e nós, que vivemos num tempo com tantas distrações fúteis, somos heróicos só por nos dedicarmos a ler um livro decente, parece-me.

publicado às 16:43

02.11.16

Do desperdício.

por Nes.

Há diversas personagens que partilham em Eça um destino fatídico. Têm diversos aspectos em comum, que à partida seriam facilitadores das suas vidas - talento, ideias e dinheiro para as concretizarem. Tudo está preparado para os tornar ricos, famosos e felizes, mas nada se concretiza, e tudo se esvai em fumo. Os Fábios Paim's do passado.

 

João da Ega, o íntimo de Carlos da Maia, é filho de uma senhora rica de Celorico de Basto. Estuda Direito em Coimbra e tem uma fabulosa inclinação para as letras. É brilhante e vivo, adepto do paradoxo e do exagero, excelentes capacidades oratórias, além de ser engraçado. O seu famoso "As Memórias de Um Átomo" levá-lo-ia à fama, evidenciado porque o projecto, falado em público, foi bem recebido. Os seus desgostos foram condicionados no sentido literário - "O Lodaçal". Ele e Carlos tinham o brilhante projecto "Revista de Portugal" que seria certamente um raio de luz nas obscuras e românticas letras portuguesas.

 

E o que faz? Nada. Passeia, namora Raquel Cohen, gasta a sua verve em apodos públicos ao marido da amante, esbanja o dinheiro da mãe, come perdizes frias, acompanha Carlos nas suas aventuras, e quando chega a altura de ser útil, ajudando o amigo a ultrapassar o medonho desgosto que enfrenta - foge cobardemente ao confronto.

 

daqui.

 

Artur Corvelo, o nosso querido Artur, portador de um nome normalmente associado a vitórias e glória, mas que se revela um falhado, um tão miserável falhado que temos pena dele. Não é rico, mas os seus pais esforçam-se por o fazer estudar em Coimbra e tornar-se bacharel. Tem também uma queda singular para as letras e sonha tornar-se um poeta. O padrinho falece e lega-lhe dinheiro suficiente para se sustentar e se dedicar à sua obra.

 

Todavia, Artur é um fraco e o seu carácter destrói a sua ambição. Com o dinheiro no bolso, mal aconselhado por amigos interesseiros, o jovem gasta todo o seu pecúlio a viver fartamente em Lisboa, inútil e improdutivo. Sustenta uma prostituta, faz amizades reles, come, bebe, vai ao teatro, persegue a sua musa na rua, escreve os anémicos "Esmaltes e Jóias", não produz nem melhora o que já tem. Um desperdício gigantesco de tempo, recursos e talento, que existia mas exigia trabalho para poder dar em algo.

 

daqui.

 

Sebastião, o nosso Sebastião, Sebastiarrão. Dono de uma incrível vocação para a música, filho único tal como os dois rapazes acima mencionados, tímido e bonacheirão. A mãe, rica e encarregue unicamente do seu bonito menino, fá-lo tomar aulas de música. O professor fica louco com o talento do jovem - "há-de ser um Rossini! É puxar por ele!" E o que acontece?

 

"Mas era justamente o que ela não queria, era puxar por ele, coitadinho! Por isso não foi um Rossini."

 

daqui.

 

Creio que Eça quis, com estes três exemplos de talentos falhados, realçar a importância da educação para o sucesso no futuro. Mesmo Carlos da Maia, que tinha tudo para vencer - inclusivamente uma educação que o próprio Eça aprovaria - acaba por se tornar um inútil, a meu ver por influência das companhias que teve na Universidade. Se bem me recordo, Carlos tinha vontade de trabalhar e estava entusiasmado com a sua ciência antes de se perder nos meandros da convivência universitária, o que piorou com a longa viagem de recreio que empreendeu depois disso, e com a falta de clientela no seu elegante consultório.

 

Todavia, se tivesse de responsabilizar alguém, culparia a inércia destes três senhores, que nunca chegou a ser corrigida - e talvez tenha mesmo sido criada - pelos pais. Ega era um diletante tal como Carlos; Artur era demasiado sonhador, procrastinador, disperso e com os pés pouco assentes na Terra; Sebastião era uma alma correcta, mas pouco habituado ao sacrifício. E todos eles servem bem como exemplo para as situações em que não nos apetece fazer nada.

publicado às 09:33

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.