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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


23.11.16

Seis pontos de honra d' Os Maias.

por Nes.

Há dias estive num evento onde o Dr. Jovem Conservador de Direita esteve presente. A uma pergunta que lhe foi dirigida a respeito dos seus hábitos de leitura - iria o Dr. Jovem, quando se tornasse líder de Portugal, reduzir o Plano Nacional de Leitura a duas linhas, à semelhança do que ele costuma fazer com o seu conhecimento literário? - o Dr. Jovem respondeu que sim, e que era ridículo que alguém perdesse tempo com "esse catálogo da Remax que são Os Maias".

 

Pela primeira vez na minha vida tive vontade de dizer "mas você sabe quem eu sou?". O Dr. Jovem não sabe, mas eu, como diz o saudoso Ninja de Gaia, "eu sou a voz desse mau trato!" E por isso este insulto aos Maias - mais um dos muitos que têm sido proferidos por quem não tem arcaboiço para o tio Eça - não vai sem resposta.

 

Está na hora de defender a honra d' Os Maias - e listar porque é que o livro é mais que um simples catálogo da Remax!

 

daqui.

 

1. A descrição inicial.

 

Ao longo da minha vida de estudiosa amadoresca dos livros de Eça, esta é a queixinha que mais ouço. As descrições são chatas! Enfadonhas! Trinta páginas só para falar de uma casa! Que seca! Amigos! A descrição inicial do Ramalhete é a prova de fogo a que têm de ser sujeitos os leitores de Eça para ver quem tem capacidade de prosseguir com a história. Os Maias narram um drama de família que atravessa setenta anos. Se não conseguem ler sobre os aposentos de Carlos, reduzam-se à vossa incapacidade. Vocês que não lêm as primeiras páginas dos Maias são FRAQUINHOS! É a selecção natural a operar, sempre que alguém desiste do livro por causa do bricabraque do Ramalhete.

 

 2. Lata.

 

Só mesmo Eça teria, no Portugal retrógrado em que ainda hoje vivemos, coragem para escrever um romance em que os protagonistas são irmãos - filhos do mesmo pai e da mesma mãe. É que não são meio-irmãos nem nada, a ver se ameniza a coisa: fosse o caso de serem filhos apenas de Maria e podíamos desculpá-los. Puxaram mais aos respectivos pais, não são nada parecidos, por isso olha! foi azar. Aqui não - são filhos do mesmo pai, da mesma mãe, Maria até acha que Carlos é parecido com a mãe - e Eça junta-os. No caso de Carlos ainda pior - ele sabe! Hein? Nem os guionistas das novelas da TVI se atrevem a repetir a façanha.

 

daqui.

 

3. Luxo.

 

Sim o tio Eça tinha mundo e para ele Portugal era uma província obscura da brilhante Europa - por isso bocejaria bem humorado ante as tentativas patéticas de Lisboa se equiparar às outras capitais, como as malfadadas corridas de cavalos. Mesmo assim é impossível ficar indiferente às descrições do luxo daquela época. O tio Eça destronaria o polícia da moda da CMTV se fosse vivo. Ora atentem nestas pérolas:

 

"Estava de seda cor de trigo, com duas rosas amarelas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o colo e nos braços; e estes tons de ceara madura batida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabelos, iluminando-lhe a carnação ebúrnea, banhando as suas formas de estátua, davam-lhe o esplendor duma Ceres."

 

"...ofereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas."

 

"...daí a pouco estavam à mesa - naquela bela sala de jantar do Craft, que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovais representando bocados solitários de arvoredo, as severas faianças da Pérsia, e a sua original chaminé flanqueada por duas figuras negras de Núbios com olhos rutilantes de cristal."

 

"Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, estendeu um olhar à esplêndida parelha baia reluzindo como um cetim sob o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas librés, a todo aquele luxo correcto e rolando em cadencia - onde fazia mancha o seu paletó: mas o que o impressionou foi o aspecto resplandecente de Carlos, o olhar aceso, as belas cores, o belo riso, o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples veston de xadresinho castanho, naquela almofada burguesa de break, lhe dava um arranque de herói jovial, lançando o seu carro de guerra..."

 

Eu não sei como é convosco, mas fico com vontade de deitar fora metade do meu guarda-roupa e revolucionar a decoração da sala.

 

daqui.

 

4. Idílios.

 

Os Maias deviam ser usados em panfletos turísticos a promover Portugal.

 

"E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo ás verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de verão..."

 

"As salas tinham agora soberbos panos de Arraz, paisagens de Rousseau e Daubigny, alguns móveis de luxo e de arte. Das janelas a quinta oferecia aspectos nobres de parque inglês: através dos macios tabuleiros de relva, davam curvas airosas as ruas areadas: havia mármores entre as verduras; e gordos carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros."

 

daqui.

 

 5. Humor.

 

Nem toda a gente tem sentido de humor, pelo que perdoo esta a quem acha que o livro é enfadonho - com piedade, bem entendido. Eu ri com a cena mítica de Eusebiozinho a ser surpreendido por Carlos na companhia de meninas da má vida em Sintra e a tentar fazê-lo passar por um convívio inocente. A Condessa de Gouvarinho e Carlos a abrigar o seu romance num carro de praça é de rir - é o mesmo que tentar fazer amor num táxi. Tudo o que o Ega diz é cómico. E a cena da corrida de cavalos, senhores! Tantos homens armados em fortes para andar aos socos num hipódromo, achei demais.

 

6. Máquina do tempo.

 

Então vocês gostam tanto de ficção científica e não acham piada a cair de borco no século XIX? Pois, só vos interessa se for o regresso ao futuro. Gostavam tanto das aulas de História e Os Maias são enfadonhos? Vivem curiosos com aspectos da vida de antigamente e acham que o lugar deste livro é na prateleira?

 

Ganhem juízo.

 

 

 

publicado às 17:08

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