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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


07.06.17

Santos da casa.

por Nes.

Junho, um dos meses mais festivos do ano, traz festas populares e bailaricos por todos os cantos deste Portugal à beira-mar - e à música pimba mistura-se a sardinha assada, pão com chouriço, alhos-porros, manjericos e o diabo a quatro. Nada como passarinhar pelo São João do Porto, pelos Santos em Lisboa, ou pela festa em honra do Santo Honorato de Trácia da Vila Nova do Além para aprender um pouco mais sobre este Portugal.

daqui.

 

A quantidade de bailaricos que se formam frente a uma concertina e quadras brejeiras recordou-me um texto de Eça n' "As Farpas", a propósito do adultério. No texto em questão Eça dá livre curso à pena, começando por falar de um então badalado homicídio perpetrado por um marido enganado - e vai discorrendo sobre os hábitos morais das senhoras de então, influenciadas pela literatura, pela música, pelas conversas e pela falta de ocupação a pensar incessantemente em aventuras amorosas.

 

Nos textos d' "As Farpas" a sensação que temos é que Eça pega num assunto e vai escrevendo, escrevendo tudo o que lhe vai passando pela cabeça, embora da forma articulada e sustentada que denuncia a sua formação como jurista. Há uma parte do texto em que Eça fala da valsa, um dos divertimentos daquele tempo.

 

"Nesta educação da mulher uma só coisa é profundamente boa - a valsa. E é justamente o que mais lhe regateia uma moralidade banal. A valsa é higiénica, moral, depurativa, educadora e positiva.

Um higienista célebre recomendava, a todas as mulheres de 14 anos, para cima duas horas de valsa por dia. Os movimentos rápidos, galopados, fortemente sacudidos, a transpiração igual, outras circunstâncias, tornam a valsa um exercício radicalmente salutar, quase igual à ginástica: desenvolve a firmeza do andar, a solidez das articulações, faz girar abundante e igualmente o sangue, robustece o peito, exercita e excita a facilidade da respiração. E um doce medicamento contra a anemia, a palidez, os suores. E sobretudo uma fadiga. Toda a mulher que se não cansa, idealiza. Dá os bons sonos saudáveis e frescos, o apetite inglês. Dá às raparigas uma boa alegria de ave que voa. E têm-se visto doenças inexplicáveis de mulheres curarem-se com uma valsa. As boas valsas são as de Strauss, ágeis, alegres, radiosas, impelidas, firmemente resvaladas — que têm alguma coisa de ataque e muito de triunfo.

A valsa é moral e educadora: porque acostuma as mulheres a ter dos homens uma ideia positiva e burguesa. E por isso que os românticos, os netos de Byron e de Dom João não valsavam: pálidos, encostados à ombreira, com a gravata de cetim negro em nó, o olhar triste e dominante, os dedos errantes em longos bigodes sentimentais, estavam imóveis em todo o encanto do seu mistério, exalando romance. O homem na frescura da sua toilette, a pele macia e seca, a claque debaixo do braço, sereno, fresco, perfeito, intacto, conversa e ri num baile, pode excitar o sentimento: quem nunca o excitará é o valsista - com a pele oleosa, a testa cheia de gotas, a respiração ofegante, um arquejar pesado, o nariz luzidio, a aba da casaca esvoaçando, as pernas pulantes como as de um gafanhoto que vai para os seus negócios, o ar embezerrado, vermelho, soprando, feliz e grotesco. A mulher olha e sorri. Porque ela é que não perde a graça, se a tem, e o arfar dá-lhe a delicadeza, todos os abandonos mimosos da ave que cansa.

Além disso os vestidos compridos, rojados, leves, foram feitos para a valsa e acentuam-na como um palpitar de asa. De sorte que se pode rir, legitimamente, de cima de seu encanto, do pobre homem que a seu lado resfolga, escarlate e esfalfado. E depois, o homem que valsa, como pode ter espírito? O que naturalmente lhe sairia pela boca fora se a abrisse, não seriam as graças-seriam os bofes: é por isso que ele, duro, cerrado, espesso, alagado, guarda dentro em si para seu uso, cuidadosamente - a pilhéria e a víscera.

Na valsa a mulher faz a poesia do movimento - o homem faz-lhe a farsa. O homem, de resto, nunca deve dançar: o seu movimento são as armas, a luta, a marcha, o salto, a ginástica: já Napoleão o dizia. O Oriente, tão profundo e tão subtil, compreendeu isto admiravelmente: aí as mulheres dançam sós entre si; o homem, encostado no divã, contempla e fuma o chibouk."

 

Creio que os homens de agora ouviram Eça lá dos confins do século XIX, porque é rara a festa popular - das muitas que veremos nas próximas semanas - em que as mulheres dançam a pares, enquanto os homens se mantêm ao longe, envergonhados em demasia. Os homens que por cá dançam ficam no estado descrito por Eça - e se dançam sozinhos, lá terão baforadas etílicas a impelir-lhes os passos. Os homens portugueses estão recatados - e se o cancioneiro popular é aquele que ouvimos aos domingos à tarde na TV, mais vale realmente estar quieto!

publicado às 17:41

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