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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


31.05.17

Renascendo.

por Nes.

Mil perdões pela ausência, causada por uma mistura de falta de Internet em casa + um computador com dezasseis anos a pedir as doçuras da reforma + uma longa viagem por este país fora e que motivou mais de dois mil quilómetros de estrada, literalmente do norte ao sul do país. Entretanto, e porque ainda não dei para esse peditório, nem me apetece falar de coisas tristes, vou enaltecer a vitória dos manos Sobral.

daqui.

 

"o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos...
- Isto é fantástico, Ega!
Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro - modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado - exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura.(...) Medonho! É dum reles, dum postiço! Sobretudo postiço! Já não há
nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!"

João da Ega, "Os Maias"

 

É por este motivo que acho maravilhosa esta vitória num concurso tão enguiçado e tão simbólico para Portugal - siiiiiim, caros desmancha-prazeres, estamos carecas de saber que é só um concurso musical, de qualidade sofrível, eivado de cortesias geopolíticas. Mas é por tudo isso que é estrondoso, principalmente tendo em mente a caricatura que Eça fazia constantemente do seu amado Portugal.

 

Durante anos os portugueses procuraram agradar a esses supercivilizados países de fora, aos quais ainda hoje muitos Dâmasos Salcede fazem vénias. E durante anos a Eurovisão foi um espelho do País - que concorria somente com o objectivo de competir e ganhar. A Eurovisão gosta de divas, gritaria, plumas? Certo, anotado. Lá fora sabem que Portugal era uma enorme potência marítima há quinhentos anos? É melhor enviar canções com numerosas referências aos Descobrimentos, ao Mar e às caravelas. Ou seja, um problema grave que já Júlio Dinis tinha denunciado em tempos - em Portugal procuramos agradar ao máximo ao gosto estrangeiro, e se por acaso fazemos algo apreciado lá fora, essa obra será enaltecida até ao infinito - Camões, Pessoa, Amália ou o vinho do Porto.

 

Por isso amigos, fico muito feliz por a realidade contrariar o pessimismo do tio Eça, agora que a participação portuguesa não podia ter sido mais estou-a-marimbar-me-para-o-que-vocês-alegadamente-gostam-vou-fazer-o-que-acho-que-é-bom-e-ser-fiel-aos-meus-gostos. E é necessário bater palmas aos Sobral por conservarem essas soberbas características - a serenidade e a genuinidade. Sabem exactamente quem são, para onde querem ir e o que querem fazer - e não é uma coisinha como vencer um evento de trinta milhões de euros, visto à escala planetária, com o maior número de pontos alguma vez obtido em toda a história do festival, que lhes vai tirar o sono. Muito respeito!

 

daqui.

 

publicado às 14:35

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