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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


28.12.16

Portugal, o orgulho do tio Eça.

por Nes.

O ano está a acabar e são muitos os que suspiram de alívio, porque 2016 foi um horror, pelos vistos. Bem sabemos que este ano muitas figuras do entretenimento desapareceram subitamente, que a guerra e o terrorismo derramaram sangue suficiente para satisfazer o mais truculento apetite por notícias doentias, e que o mundo aparentemente ensandeceu nestes últimos meses.

 

Todavia, encontrei há dias um artigo curioso no Público, cuja frase final fez tilintar a sineta "tio Eça ia gostar de dizer algo a este respeito". A peça enaltecia as conquistas improváveis de Portugal ao longo de um ano que tantos têm dito ser o mais negro da história recente - quem nos dera que seja mesmo, e que o futuro não nos lance em trevas ainda mais densas.

 

Assim, as gloriosas e inusitadas vitórias portuguesas no desporto - cuja coroa foi a conquista do Euro 2016; o clima geral de contentamento, bons indicadores económicos como já não se via há muito; uma surpreendente paz política depois de uma Geringonça criada com trémulos alicerces, mas robustecida pelo cumprimento das normas constitucionais; um Presidente da República que sacudiu o pó do cargo e levou os portugueses a amar a democracia que lhes dá marcelfies e beijinhos; um Guterres no topo da ONU, aclamado por unanimidade como o melhor homem para conduzir os destinos da diplomacia mundial.

 

daqui.

 

Mas o melhor, a cerejinha do artigo, o néctar, o escol do artigo, vem mesmo no fim.

 

"Que tudo isso se esteja a passar com o mundo em contraciclo é o que faz com que este ano de 2016 pareça ser o principal acontecimento de si mesmo. José Gil: “A imagem do mundo contrasta com a imagem de Portugal. Portugal é uma ilha de sensatez neste mundo caótico.”

 

Quem diria? Tio Eça, nas suas longas crónicas d' "As Farpas", tanto retalhou o orgulho de Portugal! Tanto o acusou de ser néscio, emparvecido, embrutecido, vaidoso, fadista, preguiçoso, piolhento, agarrado ao emprego na Função Pública como um bebé ao seu seio... E de repente é Portugal quem dá o exemplo ao mundo?

 

daqui.

 

Amigos, já estou como dizia a canção dos Aurélios, cantada a plenos pulmões nos Campos Elísios, onde Carlos da Maia e Jacinto deslizavam suavemente gozando as delícias da Civilização. "Pouco importa pouco importa, se jogamos bem ou mal", o que interessa é que pelos vistos cá pelo burgo vamos mantendo a cabeça no sítio. Ou seja, é uma benesse que para já não estejamos a regredir, como aparentemente todo o mundo menos os tuguinhas. Vamos festejar amigos? Permitam apenas deixar então as mais deliciosas descrições do velho Portugal, eternamente enterrado - e que não se diga mais que Eça é actual, porque Eça não sabia que íamos erguer a Taça, e que o Marcelo ia a pé para a sua própria tomada de posse, e que o António Costa ia levar a melhor neste país de brandos, brandíssimos costumes. Requiescat in pace, Portugal velho!

 

"Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brazões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliance conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havaneza, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
- Isto é horrível quando se vem de fora! exclamou Carlos. Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!..."

Os Maias

 

"Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas... E todo este mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, num vagar madraço.
Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
— Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!"

O Crime do Padre Amaro

 

"Na sala de leitura, o seu amigo o Viscondo Reinaldo, que havia anos vivia em Londres, e muito em Paris também, lia o Times languidamente, enterrado numa poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com a promessa de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reinaldo; achava a temperatura de Lisboa reles; trazia lunetas defumadas; e andava saturado de perfumes, por causa "do cheiro ignóbil de Portugal". Apenas viu Basílio deixou escorregar o Times nu tapete, e com os braços moles, a voz desfalecida:
— E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrível, menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escócia! Vamos embora! Acaba com essa prima. Viola-a. Se ela te resiste, mata-a!
Basílio, que se estendera numa poltrona, disse, estirando muito os braços:
— Oh! Está caidinha!
— Pois avia-te, menino, avia-te!
Apanhou moribundamente o Times, bocejou, pediu soda — soda inglesa!
Não havia, veio dizer o criado. Reinaldo fitou Basílio com espanto, com terror, e murmurou soturnamente:
— Que abjeção de país!"

O Primo Basílio

publicado às 22:28

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