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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


31.08.16

Pelos olhos de Eça.

por Nes.

Isto de ler e escrever e filosofar sobre a obra de Eça é muito bonito - mas não deixa de ser extraordinário como cada um de nós tem o seu Eça na cabeça, principalmente nós, as pessoas que moram em lugares que não são Leiria nem Lisboa nem Tormes, e que por isso não sabem por onde andavam as personagens. Por exemplo, a minha imagem do Ramalhete sempre se assemelhou a um palacete da minha terra - um casarão de dois andares, comprido, com portadas verdes nas janelas (bairro das Janelas Verdes né?) e com um portão senhorial por onde podia passar o cabriolé de Carlos. A minha imagem de Tormes era um pedaço idílico de serra verdejante e doce de trilhar, imagem que se estilhaçou quando fiz o Caminho de Jacinto (um assunto a abordar um dia).

 

Por isso, quando um amigo me emprestou o livro "Imagens do Portugal Queirosiano" de Campos Matos, foi fascinante descobrir afinal qual o aspecto real dos lugares referidos nas obras. O livro começa com uma bela imagem de barcos de pescadores na praia da Póvoa de Varzim, terra natal de Eça (que foi baptizado em Vila do Conde, duas terras que alimentam uma belíssima animosidade, que se espera fecunda, como defendia o ilustre Conde de Gouvarinho). Todavia depressa passamos à urbanidade, aos lugares onde podíamos ter cruzado os nossos passos com os de Luísa a caminho do rendez-vous, ou com Artur a sonhar acordado com a fama e a glória. Vamos hoje então ver alguns lugares, inspirados pelo espírito deste livro.

 

daqui.

 

A Casa Havaneza, por exemplo, é várias vezes referida, enquanto local de encontro dos elegantes da cidade. Lembro-me que é junto a este importante estabelecimento que decorre a cena final de "O Crime do Padre Amaro", que é onde Jorge de "O Primo Basílio" apanha o coupé para ir com Luísa e D. Felicidade ao teatro no dia em que Juliana morre, que é onde Artur se espanta com as toillettes dos lisboetas.

 

daqui.

 

O Casino Lisbonense, onde se realizaram as Conferências que "havia de dar brado no país!" segundo a entusiástica formulação de João da Ega. Tal brado deu que foram proibidas, o que motivou uma das mais acerbas páginas de "As Farpas" pela pena do jovem Eça, que lá também discursou.

 

daqui.

 

O Café Martinho, onde Artur conheceu Jácome Nazareno, onde se viam os grupos tomando neve quando Basílio, Luísa e D. Felicidade voltavam do Passeio.

 

daqui.

 

Aaaahh, o Passeio Público, onde passarinhavam ao domingo as famílias benzocas de Lisboa. Uma sensaboria, pelos olhos de Basílio. Se passearem pela Avenida da Liberdade, vendo as montras das luxuosas lojas que hoje ocupam os olhares de quem passa, recordem-se que era aí que sociedade passava as suas horas de ócio - olhando para as árvores, não para os smartphones...

 

daqui.

 

O belíssimo Hotel Central, onde Basílio se hospeda, onde Melchior e Artur se consolam da partida da Concha devorando jambon d' York aux épinards, mas principalmente em frente ao qual Carlos vê Maria Eduarda pela primeira vez.

 

 

daqui.

 

A Rua de São Marçal, onde viviam os Condes de Gouvarinho.

 

 

daqui e daqui.

 

A imponente Sé de Leiria, onde o Padre Amaro celebrava missa, em contraste com a Serra da Gralheira, onde inicialmente foi colocado. Eis a influência do rico Conde de Ribamar: passar de uma terra de pastores, onde Amaro pela primeira vez desrespeita os votos de celibato, para uma das mais influentes dioceses de Portugal - que cá em casa era um dichote usado quando os pequenos não assumiam as culpas pelo asneirame que faziam. "Não foste tu? Então quem foi? Foi o Bispo de Leiria, às tantas!"

 

daqui.

 

Pátio da Quinta em Santa Cruz do Douro, Baião, herança da mulher de Eça, que serve de cenário em "A Cidade e as Serras". Quase conseguimos imaginar Jacinto e Zé Fernandes a entrar pela porta à esquerda, a dar de caras com o caseiro, que choroso lhes diz que Suas Excelências não eram esperadas...

 

O livro está recheado de fotografias antigas, constituindo um belo volume de História ilustrada. Achei uma ideia excelente e só tenho pena que não tenha mais. Gostava de saber o aspecto do sítio onde morava a Carlota infanticida, ou conhecer o passeio para os Olivais que Carlos fazia para ver Maria Eduarda, ou ter imagens da Corcovada, ou a varanda da Adélia, ou até - quem sabe - vestígios das províncias chinesas por onde cirandou Teodósio.

 

Por fim, tencionava terminar este post com a referência à Rua Carlos da Maia, que existe tanto em Lisboa como no Porto, algo que descobri há pouco tempo e logicamente associei a uma das mais carismáticas personagens de Eça; todavia tanto quanto sei a homenagem é prestada não a uma personagem fictícia, mas sim a José Carlos da Maia, político, Governador de Macau e Ministro da Marinha durante a Primeira República.

 

 

publicado às 19:27

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