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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


06.07.16

Patrocínios desta vida.

por Nes.

Um bom livro distingue-se muitas vezes pelo cuidado dispendido na pesquisa prévia. J.K. Rowling é um caso flagrante de uma autora que pensou profundamente em pormenores que ainda hoje são desvendados pelos maravilhados leitores de Harry Potter. Um dos assuntos que preocupou a escritora foi a escolha dos nomes próprios das suas personagens. Por exemplo, os elementos da família Weasley têm nomes que remetem para as velhas lendas arturianas - Ginevra, Percival, Arthur. O lobisomem Fenrir Greyback, por exemplo, foi baptizado à semelhança do lobo da mitologia nórdica. E tendo a autora morado no Porto durante algum tempo, é natural que a escolha do nome próprio do mais conservador fundador de Hogwarts - Slytherin - tenha sido totalmente intencional - Salazar.

daqui.

 

Não sei muito bem se Eça fez o mesmo, mas um dos exemplos que me ocorre é a personagem Sebastião d' "O Primo Basílio", que sempre associei a São Sebastião, mártir cristão. O nome do padre Amaro, por exemplo, tem raízes latinas na palavra "amargo". O próprio Eça escreve que a mãe de Carlos da Maia escolheu o nome dele em referência a Carlos Eduardo Stuart, nome que lhe predestinaria "amores e façanhas".

 

No entanto, creio que Eça não foi nada subtil na escolha do nome próprio de uma das personagens da obra "A Relíquia". Se bem se recordam, Teodorico Raposo é o protagonista, um moço que vive dependente da tia rica que o criou desde pequeno. Essa tia é uma beata fanática que exige do sobrinho a mesma conduta de rija castidade que a orienta. Aos poucos fabrica com as suas mãos um monstruoso exemplo de hipocrisia - Teodorico passeia na cidade com um cavalo para ir a todas as missas, e com uma bolsa cheia de dinheiro para esmolar todos os santos; traz pedaços de incenso no bolso para se impregnar do cheiro dos turíbulos; fala em diminutivos como um padre da província. Todavia tudo isso é falso - Teodorico é o mais escabroso, folgazão, lúbrico indivíduo da cidade, e tem obrigatoriamente de extravasar as tendências abafadas pela vigilância da tia com o máximo cuidado, para não perder o direito à sua herança.

 

daqui.

Não deixa de ser curioso que a pessoa que paga um estilo de vida rico para ter em retorno um sobrinho beato se chame Patrocínio - e não é nada subtil, no meu modesto entendimento. O dicionário Priberam equipara a palavra "patrocínio", a "amparo, auxílio, protecção" (entendido, a tia acolheu o sobrinho em criança, após ficar órfão), mas tanto quanto sabemos é também o nome que se dá a uma relação comercial - eu dou-te o dinheiro, tu fazes publicidade ao meu negócio. Teodorico na prática fazia publicidade à loucura beata da tia, e pagava o estilo de vida que tinha com aparências de virtude.

 

Quando li "A Relíquia" pela primeira vez, achei o livro uma seca. Li amodorrada as primeiras páginas, fixei o refrão que Teodorico tinha sempre presente - "é necessário agradar sempre à titi!" - comecei a bocejar na descrição da viagem para o Oriente, saltei olimpicamente por cima de toda a sequência do sonho (que é metade do livro, santo Deus) e li açodada o fim, para o encostar de imediato. Obviamente, mais velha e mais paciente, reli-o de fio a pavio, colhendo de cada vez que o lia uma impressão mais desoladora do repugnante Teodorico.

daqui.

Claro que isso durou até chegar à vida adulta e ter eu própria as minhas tias Patrocínio. Na mundo em que vivemos - principalmente na sociedade portuguesa - curvar a espinha em obediência a alguém é um dever escrito na pedra. Seja o professor, seja o patrão, seja outro qualquer, há SEMPRE uma tia Patrocínio a quem é necessário agradar, ainda que falsamente e com outra vontade no coração. Tal não invalida que exista verdadeiro respeito, verdadeira veneração, verdadeira admiração - mas esta tem de ser espontânea, e não incutida por uma relação social de dependência. Numa sociedade onde em certos círculos há quem se ofenda se não for tratado por "Doutor"; na qual se manda sem escrúpulos na vida alheia, onde quem não bajula não avança - o que fazer?

publicado às 10:23

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