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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


23.07.17

Papá e mamã, ou como nunca foi sempre assim.

por Nes.

Há uns tempos foi notícia o facto de, não obstante se pretender o fim do registo dos "filhos de pai incógnito", o certo é que estes casos têm aumentado nos últimos anos. A quantidade de filhos sem pai conhecido deve-se não só à recusa da paternidade, mas também a técnicas de procriação medicamente assistida. Isto, não obstante o dever do Ministério Público de desencadear um processo de averiguação da paternidade - que possibilita inclusive a obrigatoriedade do alegado pai participar na respetiva colheita de ADN, quer queira, quer não.

 

No tempo de Eça, apesar de tudo, o mundo era mais obscuro. A impossibilidade de utilizar métodos contraceptivos não se devia apenas à falta de desenvolvimento dos mesmos, mas também à severa doutrina católica - uma esposa não negava as carícias do marido, uma menina desonrada devia esconder a vergonha da família, os valdevinos tratavam mal as raparigas sem consequência.

 

"Tanta beleza, tão nobre, numa condição tão rasteira – a natureza compraz-se por vezes nestas irónicas antíteses – comoveram o coração de Alípio, e, uma noite em que a servente dormia na sua água-furtada, o jovem quintanista atreveu-se a subir, em pontas de pés, a admirar a forma delicada, mais bela na sua camisa de estopa do que as Vénus que os artistas florentinos recostavam em coxins de seda, com rouparias de damasco... Mas ao ranger perro da porta a servente acordou: ia gritar, assustada, quando Alípio, tapando-lhe a boca com a mão (sem a magoar contudo) rogou, na balbuciação suplicante do desejo:
– Mas ouve, filha, ouve primeiro o que te vou dizer...

(...) Quando Alípio, concluída a formatura, deixou Coimbra, Júlia estava no terceiro mês da sua gravidez. No entanto conservou-lhe sempre uma estima terna, até que um companheiro, daí a tempos, lhe escreveu, dizendo que Júlia fora expulsa da respeitável casa das Barrosos (como de resto era justo) e que, achando-se sem emprego, formosa e com um filho a sustentar, se lançara na prostituição. Desde então o nosso grande Alípio só concebeu por ela desprezo e repulsão – porque naquele espírito nobre sempre houvera o horror das miseráveis, que, esquecendo o que devem ao respeito próprio à sociedade, à família, ao filho, vão pedir ao indolente abandono do lupanar o pão que deveriam obter das severas fadigas do trabalho. Recusou mesmo, com indignação, a esmola que ela lhe mandara pedir, temendo que os pouco mil-réis que lhe poderia remeter,
fossem porventura, contribuir para enfeitar e arrebicar uma nova sacerdotisa da Vénus dasvielas. Tanto a esta alma severa e forte repugnavam as moles condescendências e as vãs piedades!"

"O Conde de Abranhos"

daqui.

 

Os bastardos que tinham a sorte de crescer nos braços da mãe viviam com o estigma; e os menos afortunados iam parar à Roda dos Expostos, onde os bebés eram abandonados à nascença. Nesse lugar, os pobres pequenos que não podiam ser assumidos pelos pais e mães eram depositados à guarda da Igreja ou das Misericórdias, que cuidavam dos enjeitados.

daqui.

 

"E no seu passeio habitual pelo escritório, da estante para a janela, com as mãos atrás das costas e a caixa do rapé nos dedos, ia considerando quantos incómodos, quantas despesas lhe traria ainda aquele "divertimento do senhor pároco"! Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis meses... Depois o médico, a parteira que era ele naturalmente que havia de pagar... Depois algum enxoval para o pequeno... E que se lhe havia de fazer, ao pequeno?... Na cidade, a Roda fora suprimida; em Ourém, como os recursos da Misericórdia eram escassos e a afluência dos enjeitados escandalosa, tinham posto um homem ao pé da sineta da Roda, para interrogar e pôr embaraços; havia indagações de paternidade, restituições de crianças; e a autoridade, finória, combatia o excesso dos enjeitamentos com o terror dos vexames..."

"O Crime do Padre Amaro"

daqui.

 

 

O mais curioso - e o que muitos alegam ter tido uma grave influência na personalidade de Eça - é que este foi registado como filho de mãe incógnita, um estatuto raro e embaraçoso. Quando nasceu, os pais não eram casados e o facto de o seu pai provir de famílias influentes (tendo-se tornado, no culminar da sua carreira, num Par do Reino) terá levado a que o nome da sua mãe fosse ocultado da sua certidão de nascimento, uma questão que só ficou verdadeiramente sanada quando o próprio Eça se casou. Os seus pais apenas oficializaram a relação quando Eça já tinha quase quatro anos - dizem as teorias que o casamento só aconteceu devido à morte da avó materna de Eça, que se oporia à união - e este facto acabou por mexer com a vida familiar do escritor, criado longe dos seus pais e irmãos.

 

Se a escrita de Eça sofreu com isto, desconheço... Mas não deixa de ser curiosa a quantidade de famílias fora do cânone que povoam os seus livros. Desde a tragédia familiar que assola a família Maia - "Pai, mãe, eram para ele como símbolos dum culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam ali todos - no avô." ao relacionamento incestuoso de Luísa e Basílio, primos, passando pela pobre Amélia que não conhecera o pai, pelo Abranhos que o renegava, ou pelo Artur que não o valorizava - não, não há famílias tradicionais nos livros de Eça!

publicado às 21:21

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