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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


13.07.16

Os Santos que nos acudam.

por Nes.

Um campeonato europeu de futebol e várias medalhas de atletismo depois, creio que poucas vezes nos últimos tempos estivemos tão nervosos a ver competições desportivas. Uns roem as unhas, outros estalam articulações, todos rezam. Pobres santos que nunca foram tão importunados colectivamente. No dia da final do Europeu dei-me ao trabalho de descobrir quem era o santo do dia - era Santo Olavo, rei da Noruega. "Se é um santo que é rei da Noruega vai ficar tudo bem porque é de lá que vem o bacalhau" pensei parvamente, e fui à minha vida.

daqui.

 

Se há coisa que as personagens de "O Crime do Padre Amaro" fazem é rezar - insistentemente, beatamente, sem descanso e sem noção, aterrorizadas com o Inferno por não cumprirem um determinado número de orações, mas incapazes de ver como os pecados que tanto receavam cometer estão sempre presentes na sua vida. Um dos exemplos que mais me indignou em todo o livro foi a forma como Dona Josefa Dias, madrinha de Amélia, lhe fazia a vida negra ao descobrir que ela estava grávida. Então e aquelas coisas chamadas, hmmm... obras de misericórdia? Sobre vestir os nus e dar bons conselhos e sofrer pacientemente as fraquezas do próximo e quejandos? Pois, catecismo de gaveta, está bom de ver.

 

(Este é mais um dos momentos em que o confronto das velhas virgens devotas com a sexualidade é motivo de choque e repúdio - lembremo-nos de Dona Joaquina Gansoso a cruzar os braços e a despedir ditos sarcásticos sobre os homens como flechas, ou da nossa amiga Tia Patrocínio a cuspir para o lado e dizer "que nojo" se ouvia falar de uma senhora que tivera um filho.)

daqui.

Mas hoje nada disso é chamado aqui, hoje falamos de santos e dos conhecimento hagiológicos de Eça, verdadeiramente prodigiosos. Eis um exemplo muito flagrante.

 

"A sala com efeito era toda ela uma imensa armazenagem de santaria e de bric-à-brac devoto; sobre as duas cômodas de pau-preto com fechaduras de cobre apinhavam-se, sobre redomas, em peanhas, as Nossas Senhoras vestidas de seda azul, os Meninos Jesus frisados com o ventrezinho gordo e a mão abençoadora, os Santos Antónios no seu burel, os S. Sebastiões bem frechados, os S. Josés barbudos. Havia santos exóticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaça — S. Pascoal Bailão, S. Didacio, S. Crisolo, S. Gorislano..."

 

Esta é uma curta descrição da sala de estar da casa da Sra. Maria da Assunção, que por ser rica procurava maximizar a salvação da sua alma acumulando trastes relativos à Igreja Católica. Mas quando li o livro a primeira vez não reparei nessa contradição em alguém que querendo ser santo comete os pecados da avareza e da gula. Na altura só vi os nomes engraçados dos santos que a beata acumulava por esse mesmo motivo - porque tinham nomes esquisitos e porque eram desconhecidos da maioria das pessoas.

daqui.

 

São Pascoal Bailão era um frade espanhol conhecido pela sua mansidão e obediência. Enquanto jovem pastoreava, tinha visões místicas e trabalhou muito na sua instrução para poder ser admitido no Convento Franciscano de Santa Maria de Loreto. É actualmente o padroeiro dos congressos eucarísticos, dado que é o modelo da obediência e da humildade.

 

São Crisolo, ou São Pedro Crisólogo, seria um famoso pregador da Igreja, conhecido pelo seu brilhante poder de argumentação. Lentamente foi subindo na hierarquia da Igreja, tornando-se bispo de Ravena em 424. Graças ao seu trabalho de escrita e pregação conseguiu converter muitas pessoas para a Igreja Católica, dado que se esforçava por explicar a doutrina de forma clara e eficaz. Daí que "crisólogo" signifique "língua de ouro".

 

Sobre São Didácio e sobre São Gorislano nada encontrei, mas a busca ainda não terminou, tenho de investir mais tempo e consultar outras fontes. São nomes tão arrevessados... Será que Eça os inventou, para que Dona Maria da Assunção se exibisse ainda mais? O desprezo pelas beatas levá-lo-ia a essa baixaria? Teria graça - "amiga, ora vê lá tu o santo de colecção que encontrei...". No fundo, as personagens de Eça dedicavam-se a outro tipo de Pokemon GO.

 

E uma vez mais fico varada com o que Eça sabia sobre a Igreja e os seus santos. Que foi educado na fé católica, todos sabemos; que usava bentinhos ao pescoço também; que fosse crente e rezasse, acredito. Mas não há dúvida que para alguém que tão descaradamente criticava tantos aspectos da Igreja e desdenhava a religião de pacotilha - "Deus era o seu luxo de Verão" é uma das passagens d' "O Crime" onde esse repúdio emana - os seus conhecimentos dos santos, dos Evangelhos e de toda a doutrina era algo que deixar alguém de boca aberta. A única pessoa que me ocorre como equiparável, quando falamos do mesmo interesse e conhecimentos sobre a Igreja (sendo ateu) é o humorista Ricardo Araújo Pereira.

 

Graças ao Eça fico contente, porque aprendo um pouco mais. E cá para nós, no domingo o santo a invocar era mesmo Santo Expedito - padroeiro das causas justas e urgentes!

daqui.

 

publicado às 10:29

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