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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


29.03.17

Os fidalgotes desta vida.

por Nes.

Quando tentei ler pela primeira vez "A Ilustre Casa de Ramires", folheei o livro sem grande interesse e pousei-o, para voltar pouco tempo depois. Já sei como sou, quando estiver "madura" para o livro leio-o e releio-o quantas vezes forem necessárias; mas um Gonçalo Mendes Ramires, juntamente com todos os seus parentes, é coisa para demorar a digerir. Lá me apeguei e lá fui até Santa Ireneia acompanhar as aventuras desse último elo da longa cadeia de Ramires.

 

Ao contrário dos seus antepassados, homens valorosos e honrados que ajudaram a erguer o nobre Portugal, Gonçalo é um fidalgote de província, vivendo dos rendimentos, que tem a ideia de ajudar a família a tornar-se novamente famosa, mas não sabe bem como. Quando decide escrever um livro sobre a sua família, cruzando-a sua história com a História de Portugal, apercebe-se da sua fragilidade anémica perante a gigantesca empreitada que pretende assumir. Bem, já que é história e pouco há que inventar - porque não usurpar um velho trabalho de família, um longo poema escrito por um antepassado, e usá-lo como base para burilar um bonito romance?

 

E como dizem, se bem o pensou melhor o fez. Infelizmente Gonçalo alimenta muitos pequenos defeitos que o tornam bastante irritante aos olhos de qualquer leitor. É arrogante, exibicionista, acalenta o nome da família como se de um troféu se tratasse, não trabalha, não estuda, e é um grande cobarde. Além disso o que é a sua palavra, a palavra de Honra, que era o grande distintivo entre uma família de bem e um vadio sem préstimo?

 

"— Você queria arrendar a Torre, Pereira?

— Queria conversar com V. Exa.. Como o Relho está despedido...

— Mas eu já tratei como Casco, o José Casco dos Bravais! Ficamos meio apalavrados, há dias... Há mais de uma semana.

O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande pena... Ele só no sábado se inteirara da desavença com o Relho. E, se o Fidalgo não ressalvava o segredo, por quanto ficara o arrendamento?

— Não ressalvo, não, homem! Novecentos e cinqüenta mil réis.

O Pereira tirou da algibeira do colete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Enfim! depois de palavra trocada... Mas era pena, porque ele gostava da propriedade; já pelo S. João pensara em abeirar o Fidalgo; e apesar dos tempos correrem escassos, não andaria longe de oferecer um conto e cinqüenta, mesmo um conto cento e cinqüenta!

Gonçalo esqueceu a sopa, numa emoção que lhe afogueou a face fina, ante um tal acréscimo de renda - e a excelência de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!

— Isso é sério, ó Pereira?

O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decisão:

— Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para caçoar com V Exa.! Proposta a valer, escritura a fazer... Mas se o arrendamento está tratado...

Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na mesa para se erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:

— Escute, homem!... Eu não contei por miúdo o caso do Casco. Você compreende, sabe como essas coisas passam... O Casco veio, conversamos; eu pedi novecentos e cinqüenta mil réis e porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou aí pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquelas rabulices do Casco!... Por fim, uma tarde, lá gemeu, lá aceitou os novecentos e cinqüenta mil réis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão, copo de vinho. Ficou de aparecer para combinar, tratar da escritura. Não o avistei mais, há quase duas semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contrato firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cinqüenta. E eu, que detesto coisas vagas, já andava pensando em encontrar melhor homem!"

 

daqui.

 

Ou seja, o que pretendia Eça com esta caricatura? Não creio que fosse tanto a crítica à nobreza em si, mas sim a uma certa espécie de nobreza, que vive agarrada ao passado, que vive às custas do trabalho alheio - dos Cascos e Pereiras que arrendam as suas quintas, e dos tios Duartes Ramires que legam poemas como base para os seus livros - e a quem nada acontece, por muito canalhamente que se portem. Que podem insultar os Andrés Cavaleiros que dirigem as terras sem que ninguém levante o bico; que podem chicotear os vilões da terra sem ser julgados; que causam a prisão e desgraça dos que se atrevem a falar claramente da sua falta de palavra. 

 

daqui

 

O romance é um bom ponto de partida para admirar um género de pessoa que existe em Portugal e no mundo - aqueles a quem nada de mal acontece, apesar do que fazem aos outros. Conhecem gente do estilo?

publicado às 14:23

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