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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


21.09.16

"O Popular" vs. "O Faceto"

por Nes.

Há hoje um vídeo a correr as redes sociais - um repórter, à porta do edifício das Nações Unidas, a fazer entrevistas às delegações que passavam a fim de colher algumas impressões. A entourage de Marcelo Rebelo de Sousa chegou, e o repórter entendeu que era uma boa ocasião para questionar o elemento destacado do grupo - Marcelo - sobre as eleições americanas. Este respondeu que a regra do seu país era não comentar assuntos do foro interno de outros países, ao que o repórter questiona naturalmente "e qual é o seu país?" "Somos da delegação de Portugal" responde com um sorriso e algum orgulho. "E qual é o seu cargo?", questiona o jovem repórter. Descontraído, Marcelo responde "Sou o Presidente".

 

Impossível não rir às gargalhadas, secundando o que aconteceu em estúdio. É mais uma marcelice a juntar à longa lista, e o Presidente ainda não tem um ano de cargo. Nós devíamos ter adivinhado, quando Marcelo foi a pé para a sua própria tomada de posse, acenando a quem passava como uma criança a caminho da escola, que estes episódios seriam uma constante. O meu favorito foi filmado na praia este Verão, numa messiânica onda "deixai vir a mim as criancinhas".

 

 

Parece-me que os antigos ficariam chocados com esta rebaldaria e total falta de aparato à passagem da mais alta figura do Estado Português, principalmente quando lemos a descrição da visita que Sua Majestade El Rei D. Luís I (cognominado "O Popular") fez às províncias do Minho em 1875, relato meramente tolerável pela argúcia e humor de Eça em "As Farpas".

 

"Sua Majestade ia, pelas monótonas exigências do seu cargo, examinar o estado das províncias, ver a sua civilização, a sua ordem, a sua vida na agricultura, nos estabelecimentos, nos costumes, na feição das ruas. Não nos parece, pois, coerente, que cada localidade - em lugar de se mostrar em toda a sua realidade e verdade -se disfarçasse, se embuçasse em murtas, louros, verdes, festões, alfazemas, de modo que

Sua Majestade poderia, perante aqueles aspectos folhosos, supor-se - não reinando sobre um país -mas governando um caramanchão!

Para honrar a presença do Rei e glorificá-la, lá estavam as multidões, o seu aspecto festivo e amorável, e as vivas glórias das aclamações. As colchas eram inúteis.

Não se desejava saber a opinião das colchas. Sua Majestade preferiria sempre um bom grito alegre que saúda, à fileira dos ramos secos que pendiam mesquinhamente na amarelidão da poeira. Detrás daquelas galas de arcos e de colchas, melancólicas como esqueletos de triunfo, ocultavam-se como um muro velho por trás de uma trepadeira florida, as casas sujas e velhas, as ruas latrinárias, a infecção das cadeias, o escuro desleixo dos quartéis, a negrura das tabernas, a imundície das repartições, a acumulação dos enxurros, a pobreza estagnada das lojas - e se Sua Majestade afastasse o ornato administrativo - encontraria a miséria pública!"

 

Eis um risco que Marcelo nunca correria, devido à sua espontaneidade e faculdade de circular à vontade, como se vê no vídeo acima. Os jornais adoram vídeos como este, ou como aquele em que Marcelo adere ao dab junto os mais jovens, ou quando dança em Moçambique - e os jornais antigos também retalhavam a traços vivos as viagens d' El Rei.

 

daqui.

 

"No entanto os jornais sérios comentavam a viagem de el-Rei: e nas suas colunas circunspectas puderam-se ler, com sobressalto, estas linhas textuais e extraordinárias:

"Foi uma providência mandar para (nome da localidade, vimos Penafiel, Vila do Conde, Vila Real, etc.) um regimento - por ocasião da passagem de Suas Majestades, porque se não poderia prever onde chegaria, sem a enérgica interferência da força pública, o entusiasmo das populações ao avistar a real família."

E em Lisboa, tremíamos, com apreensões pungentes. Aquela palavra, cheia de prudência, fazia-nos suspeitar nas povoações do Minho - pavorosas espécies de entusiasmo. Para o reter marchavam providencialmente os regimentos e mordiam-se os cartuchos. Lembrava-nos aquele legendário rei mouro que, possuído de um amor sobrenatural pelo seu serralho, o mandou retalhar ao fio de alfange. Lembrava-nos o amor do leopardo, que nos meses magnéticos em que o seu pêlo faísca no fulvo ardor dos juncais, rasga e dilacera a fêmea. - Para que escondê-lo? Temíamos, sim, que pelo dizer dos jornais inteligentes - onde Sua Majestade fosse recebido apenas com agrado - ficasse apenas contuso. - Mas que nas povoações, onde o recebesse um entusiasmo exaltado... ah! receávamos ler, em notícias daí:

"Na nobre povoação de tal, o entusiasmo e a ovação cresceram ao entrar el-Rei sob o pálio. Os membros de Sua Majestade, dilacerados e espalhados em poças de sangue, pela estrada, testemunhavam o amor dos habitantes pelo neto de D. Pedro IV! O senhor infante D. Augusto, compreendido no amor do povo, teve também a sua parte de ovação e lá está - partido ao meio!"

Tais são os jornais sérios! Tal tu foste, Comércio do Porto, excelente folha sonolenta!"

daqui.

 

Achei mais engraçado o relato das elevações intelectuais com que Sua Majestade foi brindado ao longo do caminho.

 

"Aconteceu, pelas estradas que Sua Majestade percorreu, que, às vezes, saía ao caminho um homem de casaca ou uma mulher de branco; pedia ao Rei um instante de demora, desembrulhava um papel - e lia uma ode ou uma fala. Este procedimento, inaugurado no Minho, agora inocente, gracioso, singelo, pode tornar-se, com o tempo, fatal. Se Sua Majestade não se recusar a estas leituras de estrada, pode ver um dia o seu caminho ladeado de autores impacientes, repletos de manuscritos. O furor da publicidade desvaira. Tendo possibilidade de fazer parar o Rei, o seu séquito, o povo, e formar assim um público, o pensador da província salta à estrada, desdobra a prosa e acomete. Quem tiver um livro manuscrito, mete-o na algibeira, senta-se numa pedra, e espera a família real.

Ora não é justo que quem nas províncias tiver composto, em noites trabalhosas, uma peça literária, se julgue obrigado a não privar dela o Rei. A viagem de Sua Majestade não é a edição gratuita dos poemas da província. O proprietário imprudente que tiver nutrido no seu seio uma ode, que a afogue, mas não saia com ela à estrada."

 

Numa conversa entre um português corrente e Marcelo, creio que mais facilmente o primeiro seria alvo de um assalto verbal. O Presidente é extraordinariamente acessível, o que é decerto resquício do tempo em que deu aulas - na Faculdade de Direito não era raro ser o professor Marcelo a meter conversa com os alunos, em vez do contrário.

 

daqui.

 

Claro que Marcelo tem sido poupado a algumas homenagens peculiares como a que aconteceu com El Rei ao chegar a Vila do Conde. Façamos um parêntesis para apreciar como Eça sabe esticar uma situação curiosa, hiperbolizá-la e criar cenários paralelos completamente loucos. Fazer um filme, no fundo! Claro que isto resulta em excertos hilariantes.

 

"Quando Sua Majestade chegou a Vila do Conde esperava-o uma pompa singular.Era uma delicadeza da câmara. Estavam na estrada, formados em alas, respeitáveis -160 bois!

(...) - Para que estavam ali? Em que qualidade? com que intenção?

Como bois, não. O boi está nos campos, ou no prato. Em alas nunca. Em que qualidade se perfilavam, esperando, na poeira da estrada? - Representavam como polícias, para conter em alas a multidão impaciente? Estavam como curiosos? - Porque então, sendo assim, evidentemente se abre uma época inesperada nos destinos do boi! Se eles podem policiar, à orla das estradas, à chegada de um cortejo, então, é talvez económico, conveniente e seguro - que Lisboa e Porto substituam a polícia civil - pelo gado bovino. O boi é mais sólido, mais sóbrio, mais duradouro e sério que o polícia. Não seria o boi que levaria a sua tarde vigilante, em atitude namorada, diante da criada da esquina; não seria o boi que entraria no fumacento ruído da taberna, a parceirar com os homens do fado.

Não. Mas tinha inconvenientes. Seria o boi respeitado? Ah! é bem certo que se poderia ler nas gazetas aterradas: Ontem um bando de facínoras agarrou o policia º6, todo preto com malhas, e assou-o no espeto. Providências, sr. comissário!" - Ou ainda: "O Café Central acaba de fazer aquisição do polícia nº20, castanho, e tem-no à disposição dos seus fregueses para ceias e almoços. Informam-nos ser da mais tenra a carne deste agente da força pública".

Por outro lado, se o boi estava ali como curioso, para ver o cortejo real, que revolução nos seus hábitos! O boi começa a atender às coisas da civilização. Interessa-se, interroga, examina, aprende. Ei-lo observador, leitor, espectador. E o boi que vai ver passar o Rei, leva-nos logicamente ao boi que vai ouvir cantar a Lúcia. Ei-lo nos teatros, sentado, com uma camélia na papeira, luva gris na pata, correndo o binóculo pelas gazes enganadoras do corpo de baile. Ei-lo cheio de impressões, de desejos, de vida social. Ei-lo no Grémio, ei-lo conversando de perna dada, com o Sr. Melício, na augusta sombra da arcada. Ei-lo nas locais: "Ontem foi pedida em casamento a filha mais velha da Sr.a Viscondessa de... por um dos mais elegantes e conhecidos bois da nossa sociedade. Parabéns aos noivos". Ou também: "Vimos ontem, um dos bois nossos amigos, com a sua gentil noiva, a condessinha de... passeando em Sintra nos Seteais. A gentil noiva, graciosa como sempre, estava de cor-de-rosa. Seu esposo, aquele boi tão elegante e tão crevé que nós todos conhecemos, hoje dado todo à família, ia junto da sua interessante esposa - pastando!"

Oh! bois!"

daqui.

 

Na minha opinião esta é uma das melhores faculdades de Eça, bem ao estilo "Inimigo Público". E continua, ainda a propósito da visita real, e já a rematar a crónica.

 

"A ovação tão espontânea, tão bela, feita a Sua Majestade no teatro do Porto, teve um singular final. Os mancebos elegantes, dizem os jornais, que, numa grande aclamação, acompanharam o carro de Sua Majestade - ao chegar ao Paço despiram as suas casacas pretas e estenderam-nas no chão, para El-Rei passar por cima.

Srs. mancebos, achamos equívoca esta demonstração! Os srs. mancebos costumam, aí no Porto, fazer às vezes essa estrada de casacas pretas aos pés mimosos de uma dançarina ou de uma contralto famosa: não era lógico que a repetissem a El-Rei.

(...)

Os srs. mancebos não se lembraram que ao lado do Rei ia uma Senhora - e que não é uso em tais casos mostrar as mangas da camisa. Para se cumprimentar a Rainha, não se toma a atitude familiar com que se faz a barba. Se entre os senhores é máxima - que quanto mais estima menos roupa - pedimos-lhes em nome do decoro que não estimem El-Rei de mais. Já o amam até ficar em mangas de camisa, não vão apreciá-lo até ficarem em peúgas! E o pudor que o pede, mancebos! Vós ides na amizade real e na toilette por um declive. A liberdade não vos pede tanto. Parai, temerários. Deixai-vos ficar de calças!

E sobretudo, meus senhores, não se mostra a um Rei que ele tem vassalos que julgam a sua casaca mais bem acomodada nas lajes da rua, do que no próprio corpo.

Por Deus! Os senhores não festejavam o 9 de Julho, que os senhores chamam o dia da liberdade? Pois bem; não é próprio festejar a liberdade, com as maneiras da escravidão!"

 

daqui.

 

("deixai-vos ficar de calças!")

 

Não há dúvida que muito mudou entre a Monarquia, com pesados deveres para o Rei e recepções pomposas a qualquer lado onde se desloque, e a República, que na pessoa de Marcelo Rebelo de Sousa tem um representante espontâneo, omnipresente, sorridente e interactivo. Muitas pessoas têm questionado como se pode manter a dignidade do cargo e da República quando o Presidente tem uma aura galhofeira. É grave que um Presidente vá a pé para a sua própria tomada de posse, fale terra-a-terra com as pessoas que encontra na rua, acene para as crianças, interaja com a juventude, circule à vontade? Já pensei que sim, e que não é bom que a figura do Presidente seja invocada com um risinho como se fosse um humorista. À rainha de Inglaterra não se acha graça, respeita-se - com um carão sisudo e homenagens militares. Também já pensei que é uma atitude perigosa, tendo em atenção as exigências de segurança na qual deve ser o primeiro interessado, e atendendo ao respeito devido às funções de quem o protege...

 

daqui.

 

... mas também digo que não deixa de ser reconfortante que um Chefe de Estado possa circular sem medo e falar, rir, confortar os seus eleitores, num mundo eriçado de perigos e atentados iminentes. Que seja alguém despretensioso e empático, atitude quintessencialmente sua desde sempre - ou seja, que não mude só porque assumiu um cargo de destaque. Que seja capaz de falar com crianças com a mesma tranquilidade com que conversa com outros Chefes de Estado. É diferente. Para melhor? Esperemos para ver.

 

 

publicado às 08:15

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