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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


16.11.16

O mundo à mesa.

por Nes.

Eça devia mesmo ser um guloso, pela forma como descreve comida nos seus livros. O seu pequeno compêndio "Cozinha Arqueológica" ainda virá a ser abordado por aqui. Todavia as refeições não são apenas para deglutir, mas sim momentos nos quais a sociedade de reúne à mesa para, num ambiente íntimo e facilitador de confidências, expor todos os seus graves defeitos numa só cena. É um expediente usado em praticamente todos os livros de Eça - vários jantares em que Carlos participa n' Os Maias, o que reúne os padres à mesa n' O Crime do Padre Amaro, o jantar literário de Artur n' A Capital, o repasto elucidativo de Topsius e Teodorico na Galileia n' A Relíquia, quantos queiram.

 

No entanto hoje vamos jantar a casa do Conselheiro Acácio, uma das mais brilhantemente recortadas personagens de Eça, que abre as portas aos seus amigos n' O Primo Basílio. O Conselheiro, tendo conseguido a nomeação para Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago, decide receber Jorge, Sebastião e Julião, já nossos conhecidos quando chegamos a este capítulo XI, mas também algumas personagens do seu tempo que corporizam os defeitos das instituições que representam.

 

daqui.

 

A primeira descrição é a de Alves Coutinho, empregado do Ministério do Reino e que aqui representa o amanuense que vive do Estado, cuja única aptidão aparenta ser a sua boa caligrafia. O seu servilismo e ignorância transpiram - "quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode pelado arreganhava-se logo por hábito, num sorriso alvar que mostrava uma boca medonha cheia de dentes podres; falava pouco, esfregava sempre as mãos, concordava em tudo; havia nele o ar de um deboche banal e de um embrutecimento antigo." A segunda é do Saavedra, jornalista, vaidoso e influente - "A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto reluzia de brilhantina; as lunetas de ouro acentuavam o seu tom oficial; trazia ainda no queixo o pó-de-arroz, que lhe pusera momentos antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta mentira, vinha aperreada numa luva nova, cor de gema de ovo." Ou seja, é quase com um sentimento de piedade que vemos as personagens entrarem na sala do Conselheiro, crivada nessa noite de banalidade e sabujice.

 

Infelizmente poucas personagens nas cidades de Eça são salubres q.b. para que sintamos que podemos estar com elas sem necessidade de correr para o chuveiro. O próprio Conselheiro Acácio, homem do Estado, já foi alvo de descrições exaustivas que evidenciam o seu carácter burocrata, formalista, convencional, cheio de vícios-privados-públicas-virtudes - mas ainda assim Eça faz uma descrição da casa do Conselheiro que é mais uma expressão do que ele é.

 

daqui.

 

"Via-se o sinete de armas do Conselheiro, pousado sobre a Carta Constitucional ricamente encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a carta régia que o nomeara Conselheiro; defronte uma litografia de El-rei; e sobre uma mesa era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, tendo no alto da cabeça uma coroa de perpétuas — que ao mesmo tempo o glorificava e o chorava."

 

"Acácio levou-o logo ao seu quarto e retirou-se discretamente. Julião, sempre curioso, observou, surpreendido, duas grandes litografias aos lados da cama — um Ecce homo! e a Virgem das Sete Dores. O quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e teve a consolação de verificar que havia sobre o travesseiro duas fronhazinhas chegadas de um modo conjugal e terno!"

 

daqui.

 

Os temas de conversa são também elucidativos. Se há coisa que Eça gostava era de colocar uma frase na boca de uma personagem, fazendo-a agir de modo completamente contraditório. Explorava como ninguém a falta de coerência que observamos diariamente - não tenho dúvidas que se Eça fosse vivo gozaria com pessoas como as que comem doces enquanto bebem café com adoçante, ou com as que se queixam, no Facebook, de serem alvo de boatério e assunto de conversa alheia. Adiante.

 

"O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolência do amigo Zuzarte para o "chefe da Igreja".
— Não — explicou — que eu seja um secretário do Syllabus! Não que eu queira ver os jesuítas entronizados no seio da família! Mas — e a sua voz tornou-se profunda — o respeitável prisioneiro do Vaticano é o vigário de Cristo! Meu Sebastião, sirva o arroz!
Não havia que estranhar aquelas opiniões católicas do Conselheiro, ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes à cabeceira da cama...
A calva de Acácio fez-se rubra. O Saavedra do Século exclamou com a boca cheia:
— Não o sabia carola, Conselheiro!
Acácio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu:
— Eu peço ao meu Saavedra que não tire desse fato ilações erradas. Os meus princípios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio...
— Para os que o precisam... — interrompeu Julião."

 

A cobardia dos que negam as convicções por conveniência. Estará Acácio assim tão longe dos que acusaram Pedro de ter negado Jesus?

 

"Mas o Saavedra interrompeu ruidosamente, com a face acesa numa jovialidade libertina:
— Eu, num quarto de dormir, as únicas pinturas que admito são uma bela ninfa nua, ou uma bacante desenfreada!
— Isso, isso! — bradou o Alves Coutinho. A boca dilatava-lhe numa admiração sensual. — Este Saavedra! Este Saavedra! E baixo para Sebastião: — Tem um talento! Tem um talento!"

 

Falar de gajas, yeah!

 

"O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e exprimiu a opinião — que na Medicina, aliás uma grande ciência!, havia coisas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos teatros anatômicos, os estudantes de idéias mais avançadas levavam o seu desprezo pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros humanos, pés, coxas, narizes...
— Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro! — disse Julião, enchendo o copo. — É matéria inerte!
— E a alma, Sr. Zuzarte? — exclamou o Conselheiro. Fez um gesto de vaga reticência; e julgando tê-lo aniquilado com aquela palavra suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortês e protetor"

 

Eu, esse homem culto e de ciência, que acha que a religião só serve para controlar o povo, arrasei este nojento materialista que não respeita a ALMA.

 

"— Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de Matemática, acredite que há almas que vivem no céu, com asinhas brancas, túnicas azuis, e tocando instrumentos?
O Conselheiro acudiu:
— Não, instrumentos não! — E como apelando para todos: — Não creio que tivesse falado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. São, podemos dizê-lo, táticas do partido reacionário..."

 

Instrumentos não! Instrumentos nunca. Eu nem acredito na religião, mas acho que há almas que vivem no céu, com asinhas brancas e túnicas azuis. A tocar instrumentos é uma estupidez! Deus deve ser surdo até.

 

"Mas o Saavedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas semanas estavam em terra. Nem aquele escândalo podia continuar! Não tinham a mais pequena ideia de governo. Nem a mais leve! Assim, por exemplo, ele... — E meteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas da cadeira. — Ele tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. Porque era leal! Sempre o fora em política! Pois bem, não lhe tinham despachado o primo recebedor de Aljustrel, tendo-lho prometido! E nem lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possível fazer política! Era uma coleção de idiotas!"

 

Vejam bem! Este Governo não pode continuar porque não sabe trabalhar. São tão maus a trabalhar que nem eu próprio me consigo lembrar no que é que eles são maus a não fazer para exemplificar o que eles não fazem. Nem sequer me meteram uma cunha! Competência fulcral em qualquer Governo! Uma cambada.

 

"— Essas fêmeas para quem é tão severo, Sr. Zuzarte — exclamava ele — essas fêmeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa do chefe de Estado, as damas ilustres da nobreza...
— São o melhor bocadinho deste vale de lágrimas — interrompeu com fatuidade o Saavedra, dando palmadinhas sobre o estômago. Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; não havia nada como um pezinho catita! E a todas preferia a mulher espanhola!
O Alves votava pelas francesas; citava algumas do café-concerto, criaturas de fazer perder a cabeça!... — E injetavam-se-lhe os olhos.
O Saavedra disse com um trejeito hostil:
— Sim, para um bocado de cancã... Para o cancã não há como as francesas... Mas muito chupistas!
O Conselheiro afirmou ajeitando as lunetas:
— Viajantes instruídos têm-me afiançado que as inglesas são notáveis mães de família...
— Mas frias como esta madeira — disse o Saavedra batendo na mesa. — Mulheres de gelo! — E reclamava espanholas! Queria fogo! Queria salero! Tinha o olhar brilhante do vinho; a comida acendia-lhe o sentimento."

 

As mulheres devem ser respeitadas - as nossas mães, irmãs, a rainha, etc. No entanto queremos mesmo é as malucas! E reduzimo-las a cancanistas, a frígidas, a calientes, tudo consoante a nacionalidade, como se as mulheres fossem carimbáveis quando apenas está em causa serem o melhor bocadito do nosso vale de lágrimas.

 

"Saavedra e Julião discutiam a imprensa. O redator do Século gabava a profissão de jornalista — quando a gente, já se sabe, tem alguma coisa de seu; mais tarde ou mais cedo apanhava-se um nicho, não é verdade? Depois as entradas nos teatros, a influência nas cantoras. Sempre se é um bocado temido...

 

Brilhante. Talvez isto seja a forma mais adequada de vermos a imprensa actual. Conseguir uns presentes sendo temido em simultâneo, eis como se fazem notícias neste jardim à beira mar. Terá mudado assim tanta coisa desde aquele tempo?

 

"E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivência, dizia a Jorge:
— Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, de reconhecida ilustração, discutir as questões mais importantes, e ver travada uma conversação erudita?..."

 

Esta parte-me toda, sempre que a leio. Conversação erudita! Não há dúvida que Eça era um provocador.

publicado às 10:21

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