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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


14.09.16

O iPhone do século XIX.

por Nes.

AAAAH, O NOVO IPHONE 7! Magnífica bugiganga, com um design maravilhoso, funcionalidades extraordinárias, duas câmaras em vez de apenas uma! Resistente a salpicos de água, que avanço da tecnologia! Com auriculares sem fios - perdão, earpods! Quero um. Quero comprar para me sentir integrada, mimada e invejada! Será que posso gastar hoje mesmo novecentos euros na versão Plus, em prateado? Talvez eu gostasse mais em preto mate. E o que faço ao meu antiquíssimo iPhone6? Dúvidas, dúvidas!

 

Ou não, quero lá saber.

 

daqui.

 

Nunca percebi esta paixão por novos produtos, hiperinflacionados, que as pessoas esperam comprar em filas intermináveis, de noite, a acampar e a falar com outros fãs. Eu morreria de vergonha se um repórter, fresco e fofo depois de ter dormido sossegado na sua cama e de ter tomado o seu duche e pequeno almoço, me entrevistasse numa dessas filas, cinco minutos antes da abertura da loja - desgrenhada e macilenta depois de uma noite ao relento, a falar de um novo zingarelho com o entusiasmo de quem nunca viu o mundo. Não sei se procurar evitar parecer deslumbrada com os avanços da tecnologia, ainda que esteja a ver algo revolucionário, faz de mim uma snob ou hipócrita ou outra coisa qualquer, mas é uma atitude que me parece reveladora de alguma ingenuidade.

 

Por isso admiro Jacinto, inefável personagem de "A Cidade e as Serras", e a sua calma blasé enquanto explica ao estrondosamente espantado amigo Zé Fernandes como funcionam as quinquilharias que o progresso o levou a instalar em sua casa.

 

"Arredei uma Gazeta de França; e descortinei um cordão que emergia de um orifício, escavado no cofre, e rematava num funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita à singeleza dos rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida, aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento, sussurrou capciosamente:
--...«E assim, pela disposição dos cubos diabólicos, eu chego a verificar os espaços hipermágicos!...»
Pulei, com um berro.
--Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro de uma caixa!
O meu camarada, habituado aos prodígios, não se alvoroçou:
--É o Conferençofone... Exactamente como o Teatrofone; somente aplicado às escolas e às conferências. Muito cómodo!... Que diz o homem, Zé Fernandes?
Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
--Eu sei! Cubos diabólicos, espaços mágicos, toda a sorte de horrores...
Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:
--Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metafísica Positiva sobre a Quarta Dimensão... Conjecturas, uma
maçada!"

 

Aquele sorriso superior é o ponto a reter. Eça morreu em 1900, no mesmo ano da Grande Exposição de Paris, na qual se integrou também a segunda edição dos Jogos Olímpicos da era moderna. Os visitantes foram surpreendidos com invenções que hoje nos causam esse sorrisinho de homem avançado e culto. Uma das grandes surpresas foi uma passadeira rolante, que levava as pessoas do ponto A ao ponto B sem necessidade de mexer as pernas. Algo comum num aeroporto ou centro comercial, um bicho de sete cabeças para os nossos bisavós! E o carro, capaz de se deslocar a velocidades loucas que o corpo humano não estava preparado para suportar? Sim, havia doidos nessa altura que viajavam a vinte quilómetros por hora! E esses irmãos Lumière, a projectar filmes mudos? Que invenção maluca, senhores.

 

daqui.

 

Realmente o mundo estava a mudar e a Exposição Universal pretendia antecipar as inovações do novo século. Tudo se preparava já no tempo em que Eça descrevia as invenções mirabolantes que enchiam o 202, o palacete de Jacinto. Até nas tarefas simples a mecânica parecia ter estabelecido o seu lugar.

 

"-Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve já aí um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São úteis?
Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os sublimava.-Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as penas velhas; o outro numerava rapidamente as páginas de um manuscrito; aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
-Mas com efeito, acrescentou, é uma seca. Com as molas, com os bicos, às vezes magoam, ferem... Já me
sucedeu inutilizar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. É uma maçada!"

 

daqui.

 

Aquilo que mais me impressionou foi o ritual de banho de Jacinto, digno de Cleópatra. Pena que replicar os rituais do Príncipe da Grã-Ventura continue a ser um luxo como outrora.

"No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório--que era apenas um resumo das Máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes mármores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a pele".

 

É ainda a tecnologia de Jacinto que cria muitas das situações caricatas de Jacinto e Zé Fernandes em Paris - como o episódio em que Jacinto tem convidados para jantar e a travessa que traz o prato principal encrava no ascensor, ou ainda o dia em que as máquinas do banho se desarranjam e a casa fica inundada. Vemos gradualmente que Jacinto se deixa dominar pela tecnologia nos aspectos mais triviais.

 

"Cada dia estacava diante do portão alguma lenta carroça, donde os criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim, por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos tornaria a vida mais fácil, estabelecendo de um modo mais seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão, ensaiámos esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da Dinâmica. E agora era por intervenção de uma Máquina que abotoava as ceroulas."

 

daqui.

 

Sem dúvida a febre da inovação era algo que ocupava os dias de Eça, por intermédio quer da actualidade, quer do seu amigo Eduardo Prado, conhecido entusiasta da tecnologia da época, e fonte de inspiração para o nosso Jacinto. Tudo indica que um dos objectivos do romance é fazer-nos entender a cidade e a serra como antónimos, e por isso quando Jacinto chega a Tormes é Zé Fernandes que assume o ar blasé, cabendo ao primeiro os espantos de iniciado.

 

Mais engraçado ainda é a forma como o Mundo não muda. No futuro os nossos netos irão rir-se de nós. "O quê? Mas eles ficavam espantados com folhas de jornal que mudam as imagens? Ah ah ah..."

 

 

 

publicado às 09:39

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