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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


06.04.17

O Génio e o Santo.

por Nes.

Tenho um amigo que não gosta lá muito do Eça, acho eu. Quando ouviu dizer que criei este blog para falar do Eça, não descansou enquanto não me trouxe "O Génio que era um Santo", o elogio fúnebre que Eça dedicou a Antero de Quental.

daqui.

 

Porquê esse texto em particular, de tema tão macambúzio, e qual o interesse em reforçar o dever de ler esse texto? Simples - segundo esse meu amigo, Eça é um hipócrita incapaz de respeitar quem quer que seja, inclusivamente a morte de um alegado amigo. Lá me apeguei na leitura - nesse texto que é, supostamente, uma homenagem póstuma ao seu amigo Antero.

 

O texto começa abruptamente - Eça, jovem estudante de Coimbra, um dia ao passar no Largo da Feira, ouve Antero perorar. A imagem que nos transmite é a de um autêntico Cristo revelando os seus ensinamentos aos seus discípulos. Um homem louro, aureolado pela luz, com uma larga capa caindo com "pregas de imagem", um bardo "revelando verdades". Eis que Eça destraça a capa, senta-se aos pés de Antero, "e para sempre assim me conservei na vida".

daqui.

 

Eça começa a visitar Antero e a admirar a sua rigidez, a sua ordem mesmo na confusão, a sua erudição que fazia dele o "Príncipe da Mocidade". Um título adequado ao aclamado líder de uma juventude que devorava os ventos de intelectualidade vindos "lá de fora", que sugava todo o conhecimento possível, que exibia os seus conhecimentos junto dos amigos - todos os conhecimentos, menos os que se obtinham nas aulas, vertidos em sebentas inúteis, caturras, paradas no tempo. Lendo este texto apercebemo-nos que Antero foi a inspiração de personagens de Eça como o seu Damião - que à semelhança de Antero, concedeu a Deus sete minutos para o fulminar, caso existisse - voltando a guardar o relógio no bolso, após provar claramente que Deus seria um mito. Eça pinta-nos um Antero que desafiava o poder intelectual estabelecido, e que sublinha a importância dessa ousadia para a evolução das letras e do pensamento.

"Em todo o caso, relativamente a Antero de Quental e a Teófilo Braga, o vetusto árcade mostrou  intolerância e  malignidade,  deprimindo e escarnecendo dois escritores moços, portadores  de uma ideia e de uma expressão próprias, só porque eles as produziam sem  primeiramente, de cabeça  curva,  terem pedido o selo e o visto para os seus  livros à  Mesa Censória,  instalada  sob a  seca olaia  do seco cantor da  «Primavera»"

daqui.

 

O próprio Eça pinta-se como um mero observador, uma figura pequena e insignificante, na questão coimbrã que retumbou no país e opôs o pensamento novo de Antero ao pensamento conservador de Castilho. Antero é desenhado como um profeta, possuidor da língua de ouro de São Crisóstomo - "foi um dos grandes encantos do nosso tempo ouvir conversar Antero" - e dono de uma moralidade incorruptível - e bem sabemos, pela análise das fraquezas humanas, como Eça via com excelentes olhos quem conseguia ser coerentemente correcto. O Antero de Eça é bondoso, alegre, procurando o caminho do Bem - "era já com o desejo de ir curar as feridas que o seu dardo rasgara".

 

É por esta tremenda exaltação das qualidades de Antero que o meu amigo classifica Eça de pouco honesto, de ser hipócrita e irónico até na hora da morte daquele de quem se gabava de ser amigo e admirador. Creio que essa ideia advém do facto de Eça não se ter coibido de mostrar as fraquezas do amigo - que apesar de soberbamente dotado, vivia também períodos de depressão e pessimismo. Um Jacinto! O Antero de Eça parece também incapaz de encontrar "um emprego para a sua grande alma", como se fosse realmente um ser humano de superior casta, bem como de se manter nas lutas que empreende, só porque tem saudades de estar sozinho, abandonando para o efeito os amigos à sua sorte. Acredito que seja fácil ver aqui má vontade de Eça para com alguém que tendo todas as virtudes, não as aplica nas lutas realmente úteis - indicando simplesmente que só quem é visado por elas as deve decidir, e retirando-se com a atitude de fidalgo que nada tem a ver com o assunto.

daqui.

 

Eça é muito elogioso quando descreve como o amigo Antero, pese embora a sua melancolia, era capaz de uma argumentação brilhante, além de se interessar vivamente pelos temas novos da atualidade. Seria esta depressão a mera certeza de que nada é certo, e o interesse pela novidade a irresistibilidade do exercício do pensamento e da curiosidade? A verdade é que o Antero angustiado se transformou posteriormente no Antero gordo e róseo acalentado pela suprema certeza que o fim último de tudo é o alcance do Bem. Assim se transformou o Génio em Santo - preocupado em aperfeiçoar e polir o seu Ser. Todavia, a forma como descreve a recusa de Antero em que Eça fosse o seu São Paulo, a sua recusa em escrever para a Revista de Portugal alegando que o país não o merecia, recebe frases de Eça - "era ainda aqui o homem que no meio da grande cólera, não esquece a grande caridade" - que podem ser mal interpretadas, pese embora a enorme quantidade de elogios à moralidade e carácter do amigo que se seguem.

 

Pessoalmente creio que é bastante redutor julgar Eça através desta carta; ´é uma relação curiosa, quase ferrantiana, esta que ele descreve entre um grande homem que fez coisas, e um homem que fez grandes coisas. Parece bastante evidente que admirava Antero, podia até discordar com as suas atitudes, achá-lo talvez empertigado e mal empregue - mas admirava-o acima de tudo, e não creio que fizesse a canalhice de escrever uma elegia irónica a um velho amigo de faculdade. Será justo pensar tal coisa a partir deste velho testemunho?

 

"Por  mim penso,  e com  gratidão, que em  Antero de Quental, me foi dado conhecer, neste mundo de  pecado e de escuridade,  alguém, filho querido de Deus, que muito padeceu  porque muito pensou, que muito  amou porque muito compreendeu, e que,  simples entre os simples, pondo a sua vasta  alma em curtos versos – era um  Gênio e era um Santo."
 

publicado às 14:40

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