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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


07.09.16

O Conde de Abranhos.

por Nes.

Eça, dono de um poder de observação ímpar, deu-nos algumas das mais acerbas, brilhantes e duras páginas da nossa literatura. Com duas frases, com a denúncia de comportamentos, com o riso, com a ironia, traçou um retrato indelével da sociedade em que vivia - e fê-lo com uma linguagem ferina, mas justa e coerente. Sabemos que alguns historiadores acusam Eça de exagerar o carácter ensonado e imitador da sociedade portuguesa, numa época em que o país se abria à inovação, mas digo sinceramente que se fosse transportada àquela época, ficaria muitíssimo espantada se não visse errar pela Lisboa de outrora os grupos ociosos que Eça descreveu.

 

A coerência na descrição da realidade deveria ser algo extremamente cansativo, pelo que não me espantaria se de vez em quando Eça quisesse simplesmente devanear e desabafar. Em vez de retratar com justiça - porque não satirizar, caricaturar, exagerar, transformar, enterrar, arrasar! O desprezo que Eça tinha pela classe política de então, visível nas páginas d' "As Farpas" da sua autoria, foi largamente expresso num livro que este nunca quis publicar em vida - "O Conde de Abranhos".

 

É o livro de Eça que mais detesto - e aqui deixemos de parte as dúvidas quanto à paternidade da obra, pois já sabemos que todos os livros póstumos de Eça, se não foram contaminados com as penadas inconvenientes dos filhos e amigos, estão pelo menos envenenados pela dúvida se essa interferência existiu ou não. O que é certo é que este é um livro especialmente verrinoso, no qual Eça empregou o seu tempo e a sua tinta, gota a gota, a criar um monstro. Não há dúvidas, o Conde de Abranhos não tem rigorosamente nada de bom. E por ter sido feita essa caricatura sem qualquer cuidado a aligeirar os seus traços, este livro é tudo menos credível - e por isso não tem qualquer valor como crítica de costumes. Este livro é um borrão e um esboço.

 

Alípio Abranhos nasceu na província, e é filho de um pobre alfaiate. Não tem inteligência, espírito, boas maneiras ou valores morais que o recomendem - é barro bruto, e barro bruto seria toda a vida se não fosse a influência de uma rica tia que se encarregou da sua educação. Ambicioso, negou a família e declarou que a tia seria a sua única parente, estudou unicamente com o intuito de subir na vida, envereda pela política e com amigos, hábeis contactos, degrau a degrau, vai fazendo a sua imoral escalada no poder.

 

Tudo isto seria perfeitamente verosímil, não fossem os diversos episódios canalhas narrados pelo seu fiel amigo e biógrafo, Zagalo. A sua narrativa, cheia de elogios rasgados, expõe e cobre de ridículo o conde, ainda mais porque não é possível que uma pessoa minimamente bem formada considere tudo aquilo aceitável. Zagalo é o lambe-botas mais eficaz e menos credível de sempre.

 

Deixo-vos alguns trechos e agora digam-me se isto não foi mesmo um devaneio queirosiano - que pessoalmente teria preferido ver no lume.

 

"Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo Sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!

Estes versos, que eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilusões da mocidade, poderia
escrevê-los hoje que a experiência da vida me tem demonstrado que fora de Deus, não há
senão ilusão e vaidade...
Conde d'Abrunhos.

Quando voltei a Lisboa e mostrei esta página preciosa à minha Madalena – que surpresa, que arrebatamento! Falámos até tarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastidão do seu génio.
Se eu me detive neste incidente íntimo de uma existência histórica, foi para mostrar que o Conde não era um homem destituído de sentimento poético e de imaginação idealista. Naquele cérebro todo ocupado de legislação, de reformas, de economia política, de debates parlamentares, tinha havido um momento, na sua mocidade, em que florescera, como uma violeta isolada mas fresca, a flor delicada do sentimentalismo. E quis também provar que a poesia não é inteiramente unia arte subalterna e própria de espíritos efeminados, pois que um homem de tão robusto génio prático não desdenhou um dia, sob a influencia de uma paisagem
romântica, servir-se dela para exprimir um alto conceito filosófico. Estou certo de que os poetas contemporâneos, os Hugos épicos, os delicados Tennysons, os Campoamores de humorística melancolia, se orgulhariam deste colega que eu lhes revelo, e que, se apenas uma vez feriu a lira, fê-lo com tal originalidade, vigor e elevação, que esse simples verso isolado sobe mais alto no céu da Arte do que muitas sinfonias majestosas dos Mussets debochados ou dos Baudelaires histéricos"

 

"Quando Alípio, concluída a formatura, deixou Coimbra, Júlia estava no terceiro mês da sua gravidez. No entanto conservou-lhe sempre uma estima terna, até que um companheiro, daí a tempos, lhe escreveu, dizendo que Júlia fora expulsa da respeitável casa das Barrosos (como de resto era justo) e que, achando-se sem emprego, formosa e com um filho a sustentar, se lançara na prostituição.
Desde então o nosso grande Alípio só concebeu por ela desprezo e repulsão – porque naquele espírito nobre sempre houvera o horror das miseráveis, que, esquecendo o que devem ao respeito próprio à sociedade, à família, ao filho, vão pedir ao indolente abandono do lupanar o pão que deveriam obter das severas fadigas do  trabalho. Recusou mesmo, com indignação, a esmola que ela lhe mandara pedir, temendo que os pouco mil-réis que lhe poderia remeter, fossem porventura, contribuir para enfeitar e arrebicar uma nova sacerdotisa da Vénus das vielas. Tanto a esta alma severa e forte repugnavam as moles condescendências e as vãs piedades!"

 

(sim, o filho de Júlia é filho de Alípio, que a abandona)

 

"Com cuidado, tirou o casaco ao Desembargador, desabotoou-lhe com respeito as calças, asvceroulas de linho, e acocorando-se, examinou a parte ferida de onde corria um fio de sangue breve, como um pedacinho de retrós vermelho.
– É muito fundo? – gemeu o magistrado.
– Uma bagatela, Sr. Desembargador, uma arranhadura.
Limpou com a toalha o breve fio de sangue; encheu a bacia de água fresca, tomou a esponja e pedindo ao respeitável magistrado que se agachasse, ele mesmo, Alípio Abranhos, da casa dos Noronhas, esponjou com amor a nádega obesa de S. Exª!
– Que alívio! – roncava o magistrado, respirando com esforço.
– Fresquinho, hem, Sr. Desembargador?
E esponjava solícito, tomava mais água na cova da mão, chapinhava a carne mole.
– Melhor, Sr. Desembargador?
– Mais aliviado, amigo, mais aliviado...
Depois, com uma toalha limpa, secou a pele, repuxou a camisa, apertou as ceroulas de S. Exª, que o deixava fazer, com os braços moles, as pálpebras mórbidas, bufando, a face lívida, toda banhada de suores dolorosos."

 

 

"Uma ocasião, na Câmara, ele falava de Moçambique como se considerasse essa nossa possessão na costa ocidental da África. Alguns deputados mais miudamente instruídos desses detalhes, gritaram-lhe com furor.
– Moçambique é na costa oriental, Sr. Ministro da Marinha!
A réplica do Conde é genial:
– Que fique na costa ocidental ou na costa oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço. Os regulamentos não mudam com as latitudes!
Esta réplica vem mais uma vez provar que o Conde se ocupava sobretudo de ideias gerais, dignas do seu grande espírito, e não se demorava nessa verificação microscópica de detalhes práticos, que preocupam os espíritos subalternos."

publicado às 14:30

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