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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


01.03.17

O Carnaval são três dias e já temos saudades.

por Nes.

Amiguinhos, ainda bem que Eça não viveu no nosso tempo.

daqui.

 

Sim, isso mesmo, ainda bem que viveu no século XIX e virou poeira na História, e ainda bem que só é relembrado por alunos maldispostos do 11.º ano, pelo Ricardo Araújo Pereira, pela malta que acha que "O Crime do Padre Amaro" é um bom filme, e por blogs armados ao pingarelho que não deixam o homem descansar em paz.

 

Isto porque se Eça fosse vivo e escrevesse o que escrevia naquele tempo era bem capaz de ser linchado no Facebook, sendo obrigado a justificar cada vírgula dos seus textos. Se Eça fosse vivo ia ser apelidado de tudo - racista, xenófobo, misógino, atrasado mental, monte de esterco - porque as pessoas perdem o tino e na fúria catalogam de bully tudo o que mexe.

 

Tudo isto por causa do quê?

 

Do Carnaval.

 

daqui.

 

Sim, do Carnaval amigos, essa festa pagã que revive o espírito das Saturnálias e que foi meigamente acolhida no seio da Igreja Católica, para logo a seguir impingir aos crentes longos quarenta dias de jejum, sombra e penitência. Porque outro motivo se chamaria "Quarta-Feira de Cinzas" ao dia de hoje?

 

Adiante. O Carnaval português, como talvez nunca tenham tido oportunidade de ver, implica caretos, matrafonas, fazer o responso antes do enterro do Entrudo, essas coisas. Cá na terra continua bem viva a tradição de juntar a aldeia em torno de um boneco, fazer uma missa a fingir, com a viúva aos gritos lamentosos, e ler o testamento do morto, normalmente cheio de alfinetadas a pessoas da terra. Depois o boneco é queimado e vem cada um à sua vida. Eis um exemplo.

 

 

Mas o Carnaval português, levado para o Brasil, redundou em desfiles de samba, não-roupas cheias de lantejoulas, tambores e cantorias sobre cada escola. Tenho para mim que na verdade o Brasil adoptou e melhorou as marchas de Lisboa.

daqui.

 

E isto lembrou-me um texto de Eça para "As Farpas", no qual criticava o preconceito do português para com os seus compatriotas que voltavam do Brasil, desconstruindo o estereótipo e a falta de respeito frequente para com o português que regressava abrasileirado.

 

"Nenhuma qualidade forte ou fina se supõe no brasileiro: não se lhe imagina inteligência, como não se imaginam negros com cabelos louros; não se lhe concede coragem, e ele é, na tradição popular, como aquelas abóboras de Agosto que sofreram todas as soalheiras da eira: não se lhe admite distinção, e ele permanece, na persuasão pública, o eterno tosco da Rua do Ouvidor.

O Povo supõe-no o autor de todos os ditos celebremente sandeus, o herói de todas as histórias universalmente risíveis, o senhor de todos os prédios grotescamente sarapintados, o frequentador de todos os hotéis sujamente lúgubres, o namorado de todas as mulheres gordalhufamente ridículas.

Tudo o que se respeita no homem é escarnecido aqui no brasileiro. O trabalho, tão santamente justo, lembra nele, com riso, a venda da mandioca numa baiuca de Pernambuco; o dinheiro, tão humildemente servido, recorda nele, com gargalhadas, os botões de brilhantes nos coletes de pano amarelo; a pobreza, tão justamente respeitada, nele é quase cómica e faz lembrar os tamancos com que embarcou a bordo do patacho Constância, e os fardos de café que carregou para as bandas de Tijuca; o amor, tão teimosamente idealizado, nele faz rir, e recorda a sua espessa pessoa, de joelhos, dizendo com uma ternura babosa - oh minina!

De facto, o pobre brasileiro, o rico torna-viagem, é hoje, para nós, o grande fornecedor do nosso riso.

Pois bem! É uma injustiça que assim seja. E nós os portugueses que cá ficámos, não temos o direito de nos rirmos dos brasileiros que de lá voltaram. - Porque, enfim, o que é o Brasileiro? É simplesmente a expansão do Português."

 

A expansão do português! A EXPANSÃO DO PORTUGUÊS! Lá vem indignação a caminho, dá para cheirar.

 

"O que eles são, expansivamente - nós somo-lo, retraidamente. As qualidades internadas em nós, estão neles florescentes. Onde nós somos à sorrelfa ridiculitos, eles são à larga ridiculões. Os nossos defeitos, aqui sob um clima frio, estão retraídos, não aparecem, ficam por dentro: lá, sob um sol fecundante, abrem-se em grandes evidências grotescas. Sob o céu do Brasil a bananeira abre-se em fruto e o português rebenta em brasileiro. Eis o formidável princípio! O Brasileiro é o Português desabrochado."

 

Ó tio Eça, esteja calado!! O tio está a ofender os brasileiros, os portugueses, os trópicos, o clima frio, o sol!!

 

"Ora o brasileiro não é formoso, nem espirituoso, nem elegante, nem extraordinário — é um trabalhador. E tu português não és formoso, etc. - és um mandrião! De tal sorte que te ris do brasileiro - mas procuras viver à custa do brasileiro. Quando vês o brasileiro chegar dos Brasis, estalas em pilhérias: - e se ele nunca de lá voltasse com o seu bom dinheiro, morrerias de fome! Por isso tu - que em conversas, entre amigos, no café, és inesgotável a troçar o brasileiro - no jornal, no discurso ou no sermão, és inexaurível a glorificar o Brasileiro. Em cavaqueira é o macaco; na imprensa é o nosso irmão de além-mar.

Brasileiro amigo, queres tu por teu turno rir do lisboeta? A esse colete verde, que tanto te escarnecem, fecha bem as algibeiras; esse prédio sarapintado de amarelo, que tanto te caricaturam, tranca-lhe bem a porta; esses pés, aos quais tanto se acusam os joanetes e os tamancos primitivos, não os ponhas mais nos hotéis da capital -e poderás rir, rir do carão amarrotado com que então ficará o lisboeta, que tanto ria de ti!"

 

Pronto tio! Melhor assim.

publicado às 13:43

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