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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


22.06.16

Nunca mates o Mandarim.

por Nes.

No domingo passado fui ao Teatro Nacional de São João, assistir à peça "Nunca Mates o Mandarim". Pela descrição que li da peça estava à espera de uma adaptação de "O Mandarim", como ponto de partida inicial para explorar a ganância e a violência que sucedeu no século XX. Todavia, a peça não só se manteve bastante fiel ao texto da novela de Eça, como ainda para mais conseguiu incorporar alguns elementos anacrónicos que em nada a prejudicaram.

 

No entanto, a brochura entregue à entrada do teatro esclarece que este trabalho de Eça recupera o famoso "paradoxo de Rousseau", tratado também por outros escritores no mesmo século. O problema versava a capacidade do ser humano de praticar o mal, sabendo que tirará apenas vantagens disso. Os actores e produtores da peça esclarecem que esse paradoxo é excelente para explicar o que sucedeu na História europeia no século XX, nomeadamente a vontade de exigir para si mesmo as benesses, ainda que à custa do sofrimento alheio. Segundo o folheto, tal explica muito do que tem sucedido, fornecendo como exemplos desde o pensamento nazi, até ao facto de ainda hoje a sociedade exigir ao mercado que comercialize roupas a preços estupidamente baixos, mesmo que à custa da escravatura dos trabalhadores no Oriente.

 

daqui.

A novela faz-nos ponderar a fragilidade das nossas barreiras morais, e o poderoso impacto que têm os remorsos na nossa vida. Quando li "Harry Potter" fiquei abismada com o remédio, único lenitivo capaz de curar uma alma dilacerada pelo assassínio - o remorso. O remorso? Na minha ideia, os remorsos eram um castigo moral contra o qual não era possível reagir, eliminar ou evoluir; eram um fim em si mesmo, uma punição e nada mais. Perceber que tanto J.K.Rowling como Eça viram o remorso como uma força regeneradora fez-me pensar.

 

daqui.

 

E assim é com o nosso Teodoro - tem todos os bens, todos os luxos, saúde, mocidade, uma multidão aos pés, todas as flores da Civilização se abrem para que as suas mãos as colham. Na peça isso é transmitido através de um Teodoro que no início comia noodles de uma taça de papel e no final bebia Moet & Chandon com os amigos, que tinham o nariz branco de cocaína e silvavam e riam como cães loucos. Infelizmente o pobre Teodoro é assombrado pela visão do Mandarim assassinado só com um toque de campainha, e reza e pede e pede e reza, e paga aos amigos para que rezem por ele, que ajudem a afastar a lembrança do homem assassinado... Nada o alivia.

 

Enfim embarca para a China, onde sofre toda a espécie de infortúnio, os remorsos continuam a atormentá-lo, e é atacado pela turba, que descobre que vem lá um estrangeiro com as malas cheias de ouro. Essa é uma cena especialmente bem conseguida - Teodoro corre pelo palco, desmaia e é assistido por dois padres lazaristas. Aqui vemos como as excelentes intenções do herói, encontrar a família do Mandarim e recompensá-los com dinheiro, falham prodigiosamente, e tem efeitos ainda mais nefastos do que se ele nada tivesse feito.

 

daqui.

 

Teodoro regressa a Lisboa, e tenta comportar-se como se nada se tivesse passado. Não consegue, por muito que tente voltar à vida antiga, por muito que tente esquecer-se do Mandarim, ele é incapaz de tornar a ser inteiro. É um semi-Teodoro que se despede de nós, assombrado, derrotado e triste. O folheto da peça deixa implícito que podemos tirar duas lições morais da história de Teodoro: por um lado, evitar praticar o mal em benefício próprio, e por outro lado, procurar interpretar melhor o postulado que o levou a matar o Mandarim. O Diabo aparece e descreve todas as delícias que cento e seis mil contos podem trazer - e Teodoro, com os olhos a brilhar, olhando para o abismo, atira-se, sem pensar nas consequências é certo, mas também sem sequer se esforçar por argumentar com o Diabo. É uma perspectiva no qual pessoalmente nunca tinha pensado - Teodoro pode afinal ser um mau leitor, e um ainda pior objector!

 

Eu já não ia ao teatro há anos, e havia esquecido como pode ser uma experiência electrizante. Foi embaraçoso ter ficado tão emocionada no remate final do velho Teodoro, cansado das peripécias que vivera por conta dos cento e seis mil contos do Mandarim, concluindo que só nos sabe bem o pão ganho todos os dias com o fruto do nosso esforço.

 

"E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!"

 

E segundo os autores da brochura, isto só mostra como o Diabo fez o seu trabalho bem feito - Teodoro foi de tal modo trabalhado pelo Diabo, que este até ao fim julga que a culpa de tudo é da elasticidade moral humana, sem pensar que o problema pudesse residir na necessidade de uma vontade pétrea. Como dizia Teodorico d' "A Relíquia" - "E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu - cria, através da universal ilusão, ciências e religiões."

publicado às 10:20

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