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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


15.03.17

Mulheres de Eça - estátuas vivas.

por Nes.

Na semana passada celebrou-se o dia da mulher sem que realmente se celebrasse o Dia da Mulher. Num salão próximo do meu trabalho, as senhoras, mulheres e mães que aí ganham o seu sustento trabalharam arduamente - porque no dia da Mulher se fez 50% de desconto em todos os tratamentos. As senhoras que invadiram o salão, atraídas pela fiada de balões cor-de-rosa à porta e pelos preços ridiculamente baixos, proporcionaram assim rica ironia, num dia em que se pretende - entre outras coisas - alertar para a desigualdade salarial entre géneros.

daqui.

 

Noutros locais, o Dia da Mulher foi celebrado com flores, jantares de grupos etilicamente eufóricos, unhas de gel e produtos detox no município de Coimbra, entre outras enjoativas campanhas cor-de-rosa. O essencial terá sido descartado, desde as desigualdades no trabalho, discriminação de grávidas e puérperas, disseminação do preconceito entre homens que tratam das crianças - quando esse trabalho pertence às senhoras, obviamente - até coisas tão simples como fazer fraldários fora das casas de banho das senhoras. Se em Portugal somos afortunadas, porque a verdade é que muito se fez, legalmente e socialmente falando, a importância deste dia em todo o mundo foi, creio, muito superficial.

 

Em Portugal, apesar da evolução a que assistimos desde o tempo de Eça, parece-me bastante infeliz que ainda estejamos tão perto da lapidar frase de João da Ega - "a mulher só devia ter duas prendas - cozinhar bem e amar bem". O que é que lemos nas revistas Maria de agora? Uma catrefada de conselhos para dominar a Cama, receitas de cozinha, cusquices dos famosos e pseudo-famosos fabricados nessa gigantesca ETAR que são os reality shows, e súmulas de novelas, cheias de drama e ridículo que faria corar os Feuillets desta vida. 

daqui.

 

Apesar de tudo - dos anos, dos soutiens queimados, das sufragistas, da Carolina Beatriz Ângelo - que sucedeu desde Eça, apesar das críticas terríveis que fez às meninas daquele tempo, apesar da visão machista e redutora que vigorava naquele tempo, certo é que Eça soube honrar as mulheres do seu tempo mediante o justo elogio que se esperava atendendo à mentalidade da sua época. O retrato de Juliana não é mais que a denúncia da vida miserável que tinham as criadas que viviam e morriam a servir. Mulheres como a boa Joana, que acompanha Sebastião desde pequeno, são uma ode à mulher sã, trabalhadora, honrada e ajuizada do povo português, contrastando com homens gabarolas e ilusórios, como o inefável Gonçalo Mendes Ramires. Maria Eduarda da Maia é a mulher mais enaltecida, infeliz vítima das circunstâncias, forte em tempos de dificuldade, sem perder a classe e a distinção que cativa fatalmente Carlos. 

 

"E eu? Porque hei-de eu acreditar nessa grande paixão que me juravas? O que é que tu amavas então em mim? Dize lá! Era a mulher doutro, o nome, o requinte do adultério, as toilletes?... Ou era eu própria, o meu corpo, a minha alma e o meu amor por ti?..."

 

daqui.

 

Infelizmente não faltam também exemplos menos edificantes de mulheres em Eça, embora o seu alvo fossem essencialmente os homens, protagonistas da sociedade. Amélia, de "O Crime do Padre Amaro", personificava a vítima histérica da educação católica, e as velhas suas conhecidas, a completa falta de princípios morais proporcionada por essa mesma educação. Leopoldina, o exemplo clássico de adúltera também criticada n' "As Farpas". Maria Monforte, a doida que destruiu uma família; Gracinha, a cediça mãe de família, incapaz de resistir ao "pintas" André Cavaleiro... O histerismo, a tendência a cair nas malhas do "amor", a falta de rigidez moral que permita não ceder às ideias e influências alheias, não serão ainda preconceitos associados em demasia à mulher? Felizmente, não há comparação possível entre as mulheres desse tempo e as de agora. A sociedade está diferente, o pensamento é diferente, o trabalho, responsabilidades e direitos são diferentes. Mas a mentalidade - não será ela a mesma?

publicado às 11:38

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