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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


29.06.16

Mister Eça.

por Nes.

Em semana de Brexit as atenções estão fixadas na União Europeia, no grito de Ipiranga dos eleitores britânicos, na profunda cisão entre ingleses e imigrantes (alvo de ataques racistas e xenófobos nos últimos dias) e nos discursos de pessoas como Nigel Farage, líder do partido nacionalista UKIP, que começou a carreira de eurodeputado em 1999 com a solene promessa de procurar fazer os possíveis para que o Reino Unido abandonasse a UE - numa altura em que essa hipótese não era sequer prevista na lei comunitária, algo que só aconteceu com o Tratado de Lisboa.

 

Se olharmos para a História, vemos alguns traços da conduta internacional dos representantes britânicos que acabam por ter reflexo nos dias actuais, mesmo após tantas guerras e conflitos diplomáticos. Podemos assim abrir sem problemas o volume "Cartas de Inglaterra" de Eça, que foi cônsul em  Newcastle e em Bristol. Além de nos ter feito chegar, a partir da ilha de Shakespeare, livros como "O Crime do Padre Amaro" e  "O Primo Basílio", Eça foi também o fecundo correspondente da Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro, numa parceria que durou dezasseis anos.

 

Eça fazia a caricatura da sociedade britânica, e nas palavras de Maria Filomena Mónica (na extensa biografia que escreveu e que me trouxe maravilhada dias a fio) ele transmitiu o que aprendeu com o recurso ao afiado poder de observação que possuía, e não aos cândidos livros de Jane Austen. O "Cartas" junta assim alguns depoimentos bem humorados sobre a actualidade política - e eu, que estou aborrecida com o resultado do referendo, tenho vontade de resgatar Eça para me rir deles um bocadinho.

 

Pois sim, o facto de vermos as crónicas com os nossos olhos de século XXI, poluídos de anacronismo, logicamente leva-nos a uma leitura totalmente diferente daquela que os então leitores fizeram. Ainda assim dificilmente os leitores brasileiros não se ririam a ler o jornal naquele tempo; e nós que aqui estamos também.

 

Eis um exemplo dos mimos queirosianos.

"E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se desinglesam. Há raças fluidas, como a francesa, a alemã, que, sem perderem os seus caracteres intrínsecos, tomam ao menos exteriormente a forma da civilização que momentaneamente as contém. O francês no interior da África adora sem repugnância o manipanso, e na China usa rabicho. O inglês cai sobre as ideias e as maneiras dos outros como uma massa de granito na água: e ali fica pesando, com a sua Bíblia, os seus clubes, os seus sports, os seus preconceitos, a sua etiqueta, o seu egoísmo – fazendo na circulação da vida alheia um incomodativo tropeço. É por isso que nos países onde vive há séculos é ele ainda o estrangeiro".

 

E como Eça descrevia as ânsias colonialistas dos ingleses de antanho, quando a Inglaterra invadiu o Egipto, em 1882?:

 

"O que à Inglaterra convinha era atribuir a este conflito local a magnitude de uma anarquia nacional e oferecer ou impor o seu préstimo – não para castigar os tumultos de um bairro, mas para pacificar todo um país em desordem. E assim ela rejubilava com a chegada desse dia tão apetecido, tão pacientemente esperado desde o começo do século, tão ansiosamente espiado desde a abertura do canal de Suez, em que teria enfim um pretexto para assentar na terra do Egipto o seu pé de ferro, essa enorme pata anglo-saxónia, que, uma vez pousada sobre território alheio, seja um rochedo como Gibraltar, uma ponta de areia como Adem, uma ilha como Malta, ou todo um mundo como a Índia – nenhuma força humana pode jamais arredar ou mover".

 

E aí está Gibraltar, a prova do efeito dessa "pata anglo saxónica" (expressão extraordinária). E aí está a Commonwealth, a provar a influência inglesa tantos anos depois do fim do colonialismo.

 

Então e as relações com a Irlanda?

"Em Inglaterra, mesmo os optimistas consideram a insurreição quase inevitável para os frios do Outono. E o honesto John Bull prepara-se: já o ministro do Interior está em Dublin, e é iminente a declaração da lei marcial... Neste ponto, radicais e conservadores são unânimes: se a Irlanda se levanta, que se esmague a Irlanda! Somente John Buhl declara que o seu coração há-de chorar enquanto a sua mão castigar... Excelente pai! O jornal Standard, o venerável Standard, tinha há dias uma frase adorável: «Se, como é de
temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve a si e à Inglaterra», exclamava o solene
Standard, «é doloroso pensar que no próximo Inverno, para manter a integridade do império, a
santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, nós teremos de ir, com o coração negro de
dor, mas a espada firme na mão, levar à Irlanda, à ilha irmã, à ilha bem-amada, uma
necessária exterminação. Exterminação é muito: e quero crer que está ali para rematar com uma nota grave, uma nota de órgão, a harmonia do passado. Mas o sentimento é curioso e raro: seria um espectáculo
maravilhoso – ver, no próximo Inverno, John Bull percorrendo a Irlanda, cheio de ferocidade e afogado em ternura, com os olhos a escorrer de lágrimas e a sua baioneta a pingar de sangue... Ainda as fatais necessidades de um grande império! Volto ao meu desejo – um quintalejo, uma vaca, dois pés de alface... E um cachimbo, o cachimbo da paz..."

 

Se Eça fosse vivo, certamente desancaria Nigel Farage e Boris Johnson sem dó nem piedade. Não podemos presumir pensamentos que teriam aqueles que agora estão mortos - mas do que tenho lido, creio que veríamos dele artigos escritos com pena de ferro condenando a dissensão entre o Reino Unido e a Europa, e os comportamentos xenófobos que infelizmente se têm registado.

publicado às 13:19

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