Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


22.10.17

Morte.

por Nes.

Não há período mais sofrido, nebuloso, estranho e impenetrável que o período de luto, tal como o país viveu nesta última semana. A tristeza oculta toda a vaidade e toda a flamejante personalidade, como uma manta preta que se atira para as costas de todos. O choque inicial perante a finitude causa um abstraimento de tudo além da dor que se sente. Só horas mais tarde é que o corpo se manifesta - uma fome imensa, um sono pesadíssimo. Fuga à realidade? Ou uma prosaica forma de o cérebro nos chamar à realidade?

 

Nos livros de Eça a finitude é um tema vulgar. Todavia, apesar do choque inicial, muitos são os que não passam por nenhum destes estádios - recebem a notícia da morte, ficam ligeiramente abananados, e depois seguem a sua vida. É o que acontece quando Luísa morre, em "O Primo Basílio". Este, seu amante e co-responsável pela expiação que Luísa sofre nas mãos da empregada, empalidece ligeiramente com a notícia da morte, para depois junto do amigo Reinaldo dar uma pancadinha de bengala no chão, frustrado por ter ficado sem o seu entretenimento.

 

"O  Visconde  Reinaldo,  delicado,  lamentava  a  pobre  senhora,  coitada,  que  se tinha  deixado  morrer  por  um  tempo  tão  lindo!  —  Mas  em  resumo,  sempre achara  aquela  ligação  absurda... Porque  enfim  fossem  francos:  que  tinha  ela?  Não  queria  dizer  mal  da  pobre senhora  que  estava  naquele  horror  dos  Prazeres,  mas  a  verdade  é  que  não  era uma  amante  chique;  andava  em  tipoias  de  praça;  usava  meias  de  tear;  casara com  um  reles  indivíduo  de  secretaria;  vivia  numa  casinhola,  não  possuía relações  decentes;  jogava  naturalmente  o  quino,  e  andava  por  casa  de  sapatos de ourelo;  não tinha espírito,  não tinha  toilete...  que  diabo!  Era  um  trambolho!

—  Para  um  ou  dois  meses  que  eu  estivesse  em  Lisboa...  —  resmungou Basílio com  a  cabeça  baixa.

—  Sim, para  isso talvez.  Como higiene!  —  disse Reinaldo  com  desdém."

 

A família e amigos de Luísa não reage de melhor forma. Além de Jorge, que chora sentidamente a sua perda, e de Sebastião, que secretamente estava apaixonado por ela, quem na realidade sente a perda? Ninguém.

 

daqui.

 

O que é que faltou ali, para que todos os amigos de Luísa tivessem seguido a sua vida sem grande drama? Sensibilidade, compaixão, solidariedade? A meu ver tudo isso, somado a outra coisa que Eça tera querido demonstrar - o umbiguismo de todos.

 

 "Àquela  hora  Jorge  acordava,  e  sentado  numa  cadeira,  imóvel,  com  soluços cansados  que  ainda  o  sacudiam,  pensava  nela.  Sebastião,  no  seu  quarto, chorava  baixo.  Julião,  no  posto  médico,  estendido  num  sofá,  lia  a  Revista  dos Dois  Mundos.  Leopoldina  dançava  numa  soirée  da  Cunha.  Os  outros dormiam.  E o  vento  frio  que  varria  as  nuvens  e agitava  o  gás dos  candeeiros  ia fazer ramalhar tristemente uma  árvore  sobre  a sepultura  de Luísa."

"Basílio  dirigiu-se  ao  cupê  devagar,  com  a  cabeça  baixa.  Olhou  mais  uma  vez para  a casa;  fechou  com  força  a  portinhola.  O  Pintéus  bateu  para  a  Baixa. O Paula  então  aproximou-se do estanque:

—  Não  lhe  fez  muita  mossa!  Fidalgos!  Canalha!  —  murmurou. 

A estanqueira  disse  lamentosamente: —  Pois  eu  não  sou  parenta,  e  todas  as  noites  lhe  rezo  dois  Padre-Nossos por alma...

—  E eu! — suspirou  a  carvoeira.

—  Há de lhe isso  servir de muito!  —  rosnou  o  Paula,  afastando-se."

 

Tambem quando Amélia morre e o Padre Amaro se reencontra com o cónego Dias esta frieza é despertada e choca qualquer um.

 "E pondo-se  diante,  galhofando:

—  Ó Amaro, e você a  escrever-me  que  queria  retirar-se para  a  serra,  ir  para um convento,  passar a  vida  em  penitência.

O padre Amaro encolheu  os  ombros: —  Que quer  você,  padre-mestre?...  Naqueles  primeiros  momentos...  Olhe que me custou!  Mas tudo passa...

—  Tudo passa,  disse  o  cónego."

 "—  Cáspite!  disse  o  cónego  baixo,  tocando  o  cotovelo  do  colega.  Hem,  seu padre Amaro?...  Aquilo é que você  queria  confessar.

—  Já lá vai o  tempo,  padre-mestre,  disse  e pároco  rindo,  já  as  não  confesso senão  casadas!"

 

No fundo, Eça ironiza com a falta de sensibilidade e total desprendimento perante a morte. Todos morreremos um dia e não adianta se somos boas pessoas ou não - quem cá fica dançará no nosso túmulo.

publicado às 15:19

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.