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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


08.02.17

Insultar com estilo.

por Nes.

Na mesma noite em que Ernestinho foi a casa de Jorge e Luísa apresentar parte da sua peça «Honra e Paixão», os convidados ficaram muito surpreendidos com a posição de Jorge quanto ao adultério. O livro ensina-nos que quanto mais rígidas as opiniões, mais quebráveis são - mas no início Jorge é inocente, desconhece o seu futuro.

 

"Falo sério e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abismo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, num caso desses, um primo meu, uma pessoa da minha família, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um princípio de família. Mata-a quanto antes!"

 

daqui.

 

Uma violência isolada no meio de outros livros sobre adúlteras daquele tempo. O marido da Anna Karenina chegou ao cúmulo de pretender partilhar a esposa com o conde Vronski, uma posição bem mais humilhante que a de Charles Bovary, por exemplo, que só descobre as tropelias da esposa após a sua morte. Jorge também não cumpre o que diz quando toma conhecimento da infidelidade de Luísa, mas antes ainda de tudo recebe alguns apodos menos simpáticos, após cimentar bem a sua opinião.

 

"Bem, suponhamos, se ele mo viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha palavra de honra, que lhe respondia o mesmo: "Mata-a!"
Protestaram. Chamaram-lhe "tigre", "Otelo", "Barba-Azul". Ele ria, enchendo muito sossegadamente o seu cachimbo."

 

Quero lá bem saber da opinião do Jorge e do que ele vem a fazer. O que gosto mesmo nesta parte do livro é do que os outros lhe chamam!

 

daqui.

 

Se não conhecem a história do Barba Azul, eu vos conto: o nobre e rico Barba Azul já tinha sido casado muitas vezes, mas as suas esposas levavam sumiço, pelo que a família de uma rapariga muito bonita e muito jovem ficou aterrorizada quando o fidalgo a pediu em casamento. A rapariga aceitou, e foi viver com ele no enorme casarão. Na primeira noite de casados, Barba Azul dá-lhe um molho com muitas chaves e explica a que porta pertencem. "Podes entrar em todos os quartos e usar todas as chaves - menos esta que aqui está. Pertence a um quarto ao fundo do corredor principal e estás proibida de lá entrar. Se lá entrares... Bem, nem queiras saber o que te acontece se lá entrares!"

 

A jovem aceitou as condições e vivia feliz no castelo do Barba Azul, mas a curiosidade foi mais forte. Num dia em que o marido se ausentou para caçar, a rapariga pegou nas chaves, dirigiu-se ao quarto, e abriu a porta, para descobrir o terrível segredo do marido. Dentro do quarto estavam os corpos das ex-esposas, assassinadas pelo Barba Azul. Tremendo de medo de ir lá parar, a rapariga tirou a chave do chaveiro e deitou-a fora.

 

Quando Barba Azul voltou, estranhou a disposição da mulher e pediu-lhe o chaveiro de volta. A sua barba eriçou-se de fúria quando viu que faltava a chave do quarto proibido e percebeu de imediato o que se passara. Cheio de raiva preparava-se para matar a esposa, que pediu ajuda e foi salva pelos irmãos, que tinham chegado naquele momento para visitar a irmã. E foi isso que aconteceu.

 

daqui.

 

Otelo, o Mouro de Veneza, é uma peça de Shakespeare, bastante mais dramática que o conto do Barba Azul, que era simplesmente um serial killer. Neste clássico conhecemos Desdémona, uma jovem rica de Veneza, que casa com o general mouro Otelo contra a vontade do pai. O casal vive um romance fulminante que é prejudicado pelos ciúmes do alferes Iago, que se pretende vingar de Otelo por achar que ele se envolvera com Emília, sua esposa. E assim começa lentamente a envenenar o general, que contamina a relação com Desdémona com ciúmes doentios, loucos e despropositados. A loucura chega ao ponto de Otelo matar a esposa - para pouco depois descobrir a sua inocência, e suicidar-se com o desgosto.

 

No fundo, e tal como Dostoievsky escreve no romance "Os Irmãos Karamazov", Otelo não é ciumento - os ciúmes foram fabricados e induzidos por Iago, verdadeiramente diabólico. Um ciumento a sério tem sempre ciúmes, tenha ou não motivo. Jorge é um ciumento? Um Otelo? Um tigre? Isso descobrimos mais tarde, quando vemos que Jorge perdoa Luísa com todo o coração.

 

Infelizmente, a violência doméstica continua a matar em Portugal, que não é de todo um assunto a que se possa achar qualquer graça. Em todo este episódio só gosto verdadeiramente das acusações tão literárias. Inimaginável no nosso tempo...

publicado às 10:04

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