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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


17.08.16

Grãos de sal - afinal, Eça é ficção!

por Nes.

Há dias comprei um exemplar da Super Interessante, cuja chamada de capa tinha como assunto um tema relacionado com a minha tese. A revista faz completamente jus ao próprio nome - eu que não percebo nada de física ou astronomia leio deliciada artigos sobre matéria negra, invenções maravilhosas e o céu de Agosto. Desta feita nada me preparava - em busca do artigo pretendido dei de caras com um texto de quatro páginas sobre o Eça de Queirós. A minha cara de surpresa alegre deve ter sido digna de fotografia.

daqui.

 

Nesse texto, da autoria de João Aguiar, há uma passagem interessante, em que é citado um professor chamado Agostinho da Silva. Este acusara Eça de conhecer a realidade portuguesa num grau bem inferior a outros escritores seus contemporâneos, como Júlio Dinis. Esta crítica vem no seguimento de outras similares tecidas por Maria Filomena Mónica, na biografia que esta escreveu.

 

É um facto - Eça escolheu a carreira diplomática e saiu do país quando tinha vinte e sete anos. Tendo em atenção que não mais voltou a residir em Portugal, fácil é de entender que a visão que tinha do seu país não era a mesma de quem cá vive todo o ano. Outro facto - Eça escrevia ficção, e não História. Assim, ninguém o podia obrigar a descrever com rigor a sociedade portuguesa, os seus costumes e os seus problemas, porque Eça podia fazer o que bem quisesse com o seu papel e a sua pena.

daqui.

 

Tendo tal em mente, porque é que tendemos a ver o que Eça escreve como uma longa crónica descritiva do País? Talvez porque Eça começou com "As Farpas", textos onde satirizava a actualidade, no espírito do defunto "Contra Informação". Outro aspecto é o facto de Eça ser constantemente associado a um estilo realista puro, identificado com a descrição límpida e monográfica da realidade - algo que é falso no caso do nosso escritor, porque são numerosos os exemplos em que Eça atropela as regras do realismo, escrevendo novamente aquilo que lhe apetece. E outra questão que influencia tal parecer é o próprio brilhantismo da escrita.

 

Este artigo diz isso e com toda a razão - Eça "lavou" a linguagem, limpou-a de frases pomposas e eivadas de romance. Nos escritores da época é vulgar ver longos discursos - estou a pensar em Júlio Dinis e nas confissões entre namorados, que deviam ser acompanhadas de violino. Eça fez as personagens falar como nós as ouvimos na rua, e isso conferiu-lhe autoridade enquanto descritor da sociedade. Ainda hoje é o dia em que conseguimos encaixar pessoas nos perfis que ele traçou com uma precisão geométrica.

 

daqui.

 

Por fim temos o facto de Eça viver no estrangeiro, onde a opinião vigente acerca de Portugal podia não ser a mais lisonjeira para o próprio Eça, conotado como português e sofrendo com o estigma, segundo a opinião de Maria Filomena Mónica. Não sei se seria o caso; cada um vale por si, e Eça era o que era - não seria mais ou menos respeitado se fosse suíço ou inglês, creio.

 

Ele escrevia acerbamente histórias de um Portugal que dormia, impassível às mudanças que o Mundo atravessava; um Portugal ignorante e fadista, que acumulava um povão cinzento, que se limitava a rezar e a pagar; um Portugal encabeçado por uma elite estúpida, sobranceira, ridícula e digna de pena. Ela critica esta postura porque Portugal vivera a Regeneração e o Fontismo, períodos diferentes em que se procurara a modernização do país, com resultados impossíveis de ignorar.

 

daqui.

 

Parece-me que ambos teriam razão - efectivamente em Portugal teriam sido feitos esforços notáveis para modernizar o país, educar os seus jovens e melhorar as suas indústrias, e isso era inegável. No entanto o país estava longe de ser um refinado cantinho à beira-mar plantado, e tudo piorou com o avançar dos anos e novo período de instabilidade política. Eça queria ver Portugal a correr pujante ao lado da Europa, e não a ofegar e a tossir na última posição com três voltas de atraso.

 

Portugal não era tão miserável como Eça o pintava. Não devemos ler os seus livros como se estivéssemos a ler uma página de José Mattoso, mas sim com o vulgarmente chamado "grão de sal" - com perspicácia, com cepticismo. Cá para mim, Eça gostava de Portugal, apenas o demonstra com muito tough love.

 

daqui.

 

publicado às 09:18

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