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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


11.05.16

Girls just wanna have fun?

por Nes.

Não consigo muito bem entender se Eça seria um púdico se vivesse nos dias de hoje. A forma como via as mulheres do seu tempo poderá ser vista actualmente como uma compreensão antiquada e machista do seu papel na sociedade - mas hey, era o século XIX, é necessário ver as coisas à luz da mentalidade da época. Parece-me até que em certos textos, como n' "As Farpas", Eça compreendia que as mulheres, dentro do papel limitado que a sociedade lhes tinha naquele tempo destinado, tinham um papel fulcral, principalmente na educação das gerações futuras.

 

Quer-me parecer que se Eça vivesse actualmente talvez ficasse agradado e surpreendido pela contribuição das mulheres em tantas áreas antigamente vedadas. Talvez ficasse espantado porque afinal as mulheres, a nível intelectual, têm capacidades que ele entendia impossíveis, "devido à própria composição do seu cérebro" (em vários textos Eça evidencia que as senhoras não são dotadas para o estudo profundo de temas de ciência, engenharias e afins, mas somente para assuntos mais leves).

 

Textos como os que Eça escreveu para "As Farpas", nos quais critica a educação das meninas portuguesas e onde procura explicações para o adultério feminino, ou mesmo "O Primo Basílio", longo estudo dos motivos que levam Luísa a esfaquear o matrimónio, evidenciam que Eça defende o trabalho e os interesses sérios como método para prevenir os desvarios sentimentais, incentivados pelos romances da época. Talvez Eça ficasse satisfeito por ver que tantas mulheres têm hoje profissões de destaque, mas provavelmente ficaria desagradado com a leveza dos relacionamentos actuais. 

 

O que decerto desmente esta minha última ideia é Juliana, de "O Primo Basílio". Ela é o oposto da patroa - pobre, desamparada, sem família, sofrendo com o trabalho excessivo, sem ilusões de grandeza, e virgem. Quando vi que o autor associou directamente a virgindade da criada ao seu carácter amargo, não pude deixar de me sentir ligeiramente desconfortável - mas tinha treze anos, e era extremamente ingénua.

 

daqui.

Nessa altura não me ocorreu associar Juliana às "velhas virgens devotas" de "O Crime do Padre Amaro", mas o facto é que são imensos os traços em comum - a religião, o facto de se gabarem de nunca terem tido um amante, as intrigas contínuas, a maldade, a inveja, até mesmo os súbitos desfalecimentos. Juliana galanteava os galegos que entregavam cartas à senhora, e mirava à janela os homens na rua - ao passo que D. Maria da Assunção, sob o pretexto da morte da irmã da S. Joaneira, se roçava em João Eduardo, amparada na sua fraqueza. Juliana gritou a Sebastião "nunca raio nenhum me viu a cor da pele" enquanto D. Josefa humilhava Amélia grávida, esquecida do seu dever cristão de amparar os desvalidos. Juliana invejava os amores da cozinheira Joana - e D. Joaquina Gansoso falava mal dos homens sempre que podia.

 

Talvez a virgindade servisse de metáfora para a falta de afectos, pois as suas personagens são claramente carentes. Actualmente, embora a virgindade seja muitíssimo menos valorizada que antes, mantém-se a falta de afecto genuíno, que as relações mais liberais nem sempre resolvem. Será que se Eça vivesse agora seria um defensor do Tinder? Mas um Tinder para relações sérias? Vou pensar.

publicado às 12:16

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