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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


17.12.17

Façam barulhoooo.

por Nes.

Esta semana foi notícia o bloqueio promovido pelos alunos da Faculdade de Direito em Lisboa, que consistiu essencialmente num grupo de estudantes que colocou umas correntes à entrada do edifício e deu os braços para formar uma corrente humana impeditiva do acesso às instalações. Atrás deles, a PSP formou um cordão idêntico e foi empurrando os jovens pelas escadas abaixo até desbloquearem a passagem. Rapidamente vimos os jovens alcunhar esta acção de "carga policial", o que me fez rir até me saltar o chá pelo nariz.

 

daqui.

 

A acção dos estudantes evidencia a insatisfação que muitos sentem com a fraca participação nos órgãos da Faculdade, bem como o desrespeito por muitas das suas justas reivindicações. Sentia esse estigma no tempo em que frequentava as aulas - éramos vistos como a massa que alimentava a faculdade através da propina, numa posição subalterna, sem ideias de suficiente valor. Só algumas louváveis excepções, entre os professores que gostavam de conversar com os seus alunos, envolver-se nos seus projetos e incentivar a sua participação na vida da faculdade além das aulas, justificavam alguma esperança nesses anos de aridez.

 

Não me espanta que isto perdure. Vejamos - nas últimas décadas o perfil dos universitários mudou drasticamente, certo? Se antes o ensino superior era acessível apenas a um punhado de privilegiados, atualmente é visto como uma extensão do ensino obrigatório, de frequência essencial para abrir as portas de uma possível carreira estável. A obsessão com os canudos conduziu à Faculdade muitos jovens extremamente esforçados e trabalhadores, mas potencialmente menos inspirados pelo amor ao conhecimento.

 

E que tem isso a ver com a situação atual? Talvez essa democratização do ensino superior tenha gerado nos Pares destes reinos do Saber um desdém maior. Tal poderá ser provocado pela superioridade que sentem face à massa estudantil - mais amorfa, mais preocupada com as médias e em recolher bons apontamentos, pouco participativa, umas crianças! Será isso? Mas então o que justifica que já no tempo de Eça a Universidade fosse um pesado fardo para os jovens que ali estudavam?

daqui.

 

(pausa para indicar que não consigo encontrar o texto que quero, afinal a Internet não é um repositório assim tão vasto)

 

Essencialmente, Eça descreve no seu memorial em honra de Antero de Quental, "O Génio que Era um Santo", que a Universidade era, para si e para os seus colegas, uma madrasta severa a quem procuravam amotinar o mais possível, aborrecidos com o dever de decorar a sebenta, com a parvoíce dos professores que ficavam assustados perante a impetuosidade dos jovens, o seu amor pelas ideias novas, a vontade de abafar o tremendo génio crítico que assolava as suas mentes. Os colegas de Eça são descritos como paladinos de um novo saber, de uma Verdade revelada unicamente a alguns escolhidos, e cuja evangelização era prioritária e urgente. Daí nasceram anos depois as ideias para as Conferências do Casino - das quais falaremos em breve.

daqui.

Seria esta contestação aos poderes instalados aquilo que era mais necessário nas faculdades de hoje? Ou será que os poderes que regem a Universidade se aborrecem com todos os alunos - impetuosos leões ou meigos cordeiros? Em suma - há tanta revolta dos alunos nas Universidades, ao longo de tantos anos, porquê?

publicado às 21:18

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