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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


12.10.16

Estudando na Universidade da Vida.

por Nes.

Com o regresso às aulas vimos muitos alunos voltar à Universidade, ou então pisar os seus corredores pela primeira vez. Frequentar o ensino superior é uma opção cada vez mais comum - mas outrora era um privilégio somente ao alcance dos mais favorecidos pela Fortuna. A antiga e rica vida universitária seria obviamente explorada nas obras de Eça, que frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

 

Eça aborda o tema em vários títulos, como "Os Maias", "A Capital", "A Relíquia", "O Conde de Abranhos", "As Farpas" e "Um Génio que era um Santo", estes dois últimos mais a título pessoal. Eça dá-nos uma visão pouco enaltecedora dos estudos e dos costumes dos estudantes de antanho.

 

Temos um curto e paradigmático exemplo na farpa que Eça tece na passagem para 1872  - o ano velho e o novo encontram-se na fronteira para o primeiro dar algumas dicas ao segundo.

"— Perdão, mas há uma Universidade, parece...

— Há. Mas é apenas um edifício histórico para se provar que existiu D. Dinis, seu fundador.

— Mas aí, Santo Deus, não se estuda?

— Sim, estudam-se ciências que levam cinco anos a estudar - e que estão atrasadas vinte anos; - com excepção de uma, a teologia, que acabou há um século.

— E como é a organização dos estudos?

— O aluno, ao entrar, faz uma cortesia profunda ao lente; lê lá dentro um romance que traz na algibeira; e sai fazendo ao lente outra cortesia profunda. Se não fizer isto é reprovado.

— E tudo isso para quê?

— Para se ser bacharel - unia qualidade que se exige para tudo, e que se não respeita para coisa nenhuma."

 

Pumba! A primeira machadada já está. A universidade não passa de uma longa e aborrecida estadia em Coimbra, pontuada por alguma animação:

"— E Coimbra?

— Uma cidade onde o município não varre as ruas para não perturbar os que estudam - enquanto os que estudam, com o barulho que fazem na rua, não deixam dormir o município."

 

 daqui.

 

Eça pinta a Universidade como uma madrasta das histórias, asfixiadora de todo o instinto criativo e crítico dos seus estudantes. Uma matrona severa contra quem a rebelião era um dever.

 

"A Universidade, que em todas as nações é para os estudantes uma Alma Mater, a mãe criadora, por quem sempre se conserva  através da vida um amor filial, era para nós uma  madrasta amarga, carrancuda, rabugenta, de quem todo o espírito digno se desejava  libertar, rapidamente, desde que lhe tivesse arrancado pela astúcia, pela empenhoca,  pela sujeição à  «sebenta», esse grau  que o Estado,  seu cúmplice,  tornava  a  chave das  carreiras.  (...) No meio de tal  Universidade,  geração   como a  nossa  só podia  ter uma  atitude –  a  de  permanente  rebelião.  Com efeito,  em   quatro  anos,  fizemos, se  bem me  recordo, três revoluções, com todos os seus lances  clássicos, manifestos ao  Pais, pedradas e vozearias, uma pistola ferrugenta debaixo de  cada capa, e as  imagens  dos  reitores  queimadas entre as danças selváticas.  A   Universidade  era, com efeito, uma grande escola de revolução: – e pela experiência da  sua  tirania aprenderíamos  a  detestar todos  os tiranos,  a  irmanar  com todos  os  escravos.    O  nosso  entusiasmo pela  Polónia  nascia  de nos sentirmos  oprimidos como ela por um  czar de borla e capelo, que se chamava Basílio."

 

Se ainda tinham dúvidas, aí está o rancor que os estudantes nutriam pela Universidade que os obrigava a curvar displicentemente os seus rijos espinhaços, para extrair o grau de bacharel e poder tomar as rédeas da sua vida. Isto faz-me lembrar a nossa amiga Tia Patrocínio, naquela história de todos termos de engolir o nosso orgulho para obter certas coisas na vida. Uma tristeza.

 

daqui.

 

O peso da Universidade na vida do estudante era tão repugnante que Eça se serviu disso para a maior caricatura da sua carreira - O Conde de Abranhos. Qual a postura de Alípio em Coimbra?

 

"Hoje, destruído o regime absoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal é justa, é sábia, é útil, é sã. Que necessidade há de a examinar, discutir, verificar, criticar, comparar, pôr em dúvida? O hábito de decorar a Sebenta produz mais tarde o hábito de aceitar a Carta. A Sebenta é a pedra angular da Carta! O Bacharel é o gérmen do Constitucional (...) O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe convém (o que seria a desorganização das posições sociais) vai humildemente colocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se forma uma imperecível harmonia social."

Infelizmente uma realidade ainda hoje indesmentida - a necessidade de mencionar e subscrever as teorias do professor X ou Y, para tirar boa nota, é porventura uma realidade ignorada? A necessidade de aparecer nos gabinetes, de não dizer directamente que se discorda, de aceitar as notas recebidas sem questionar os critérios... Estaremos assim tão longe daqueles tempos?

daqui.

 

Para Eça, a verdadeira aprendizagem acontecia fora das aulas. As suas páginas são pródigas de grupos que se reúnem para discutir os avanços da literatura, filosofia, política e religião. Amigos à imagem do seu "Cenáculo" não faltavam.

 

"Enfim Antero volta a Lisboa, encontra o Cenáculo, Encontra o nosso querido  e  absurdo Cenáculo instalado na Travessa do Guarda-Mor, rente a um quarto  onde    habitavam dois cônegos,  e sobre uma loja  em que se  agasalhavam,  como no curral de  Belém, uma vaca e um burrinho. Entre essas testemunhas  do Evangelho e  esses    dignitários da  Igreja,  rugia  e  flamejava  a  nossa escandalosa fornalha de revolução, de  metafísica, de satanismo, de anarquia,  de boémia  feroz." (O Génio que era um Santo)

 

"A esta vaga associação de fanatismos, chamavam, em Coimbra, os Filósofos, ou também os Ateus. Eles mesmos se denominavam o Cenáculo. E ainda que não havia sessões regularmente organizadas, quase todas as noites se juntavam no largo quarto do Damião, na Couraça. E Artur sentiu os olhos humedecerem-se-lhe de entusiasmo quando pela primeira vez, na fumarada dos cigarros, onde os três bicos do candeeiro de latão punham três luzinhas sedentárias, ouviu vozes fanáticas discutirem, em estilo de ode, a Arte, as Religiões, o Panteísmo, o Positivismo, a estupidez dos lentes, o Ser, o Ramayana, o Messianismo germânico, a Revolução de 89, Mozart e o Absoluto." (A Capital)

 

daqui.

 

"Ao fim de alguns meses, Carlos, simpático a todos, conciliara Dandis e Filósofos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado, o Serra Torres, um monstro que já era adido honorário em Berlim e todas as noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a Morte de Satanás, encolhido no seu gabão de Aveiro, com o seu grande barrete de lontra. Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma ginástica científica. Uma velha cozinha fora convertida em sala de armas - porque naquele grupo a esgrima passava como uma necessidade social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um whist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o Figaro, o Times e as Revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os literatos estirados pelas poltronas - havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionarias adquiriam um  sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes."

 

daqui.

 

No fundo o que temos? Uma dualidade de vivências - um estudante que fora das aulas está deslumbrado pelos ventos revolucionários que sopram da Europa, e que vive revoltado pelo dever de se pentear para entrar na sala de aula e agradar aos lentes. A Coimbra de Eça vivia de contradições - submissão e rebeldia, repressão e libertinagem, silêncio e ruído. Esta dualidade ainda se manterá actualmente?

 

 

publicado às 09:00

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