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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


22.03.17

Educar para o Destino.

por Nes.

Há um aspecto no livro "Os Maias" que sempre achei muito interessante - a concepção queirosiana, quase maniqueísta, que permite a distinção entre a boa e a má educação. Como protagonistas, Eça escolhe o seu Carlos da Maia, alvo de uma educação à inglesa, e Eusebiozinho, tratado com os cuidados portugueses de outrora.

 

daqui.

 

Conhecemos bem as qualidades de Carlos, que desde pequeno falava inglês perfeitamente e tinha a saúde rija, devido à educação física, ao rigor das regras impostas pelo avô - banhos de água fria, dormir às escuras, pouco mimo, carão severo à tolice. O estudo e desenvolvimento intelectual foi desenvolvido mais tarde, de forma sã, longe dos latins rosnados por obrigação e decorados sem compreensão. Longe disto estava, obviamente, todo o padre e santo varão do reino; Afonso notara como a educação dada ao seu filho Pedro o tornara num jovem pouco firme, muito molengão, tristonho e varado de sentimentalismo. Carlos tornou-se rapidamente num homem são e equilibrado, ciente das suas forças, popular e cosmopolita.

 

daqui.

 

Esta ideia da educação bipartida - primeiro os músculos, depois o cérebro - manteve-se em Eça, derivado também da admiração sentida por Inglaterra, país onde viveu durante parte da sua vida. Não consta, todavia, que o exemplo tivesse sido seguido em sua casa; desconheço se aos seus filhos Eça também obrigou a andar de baloiço e a tomar banhos frios para enrijar a espinha. Acredito sinceramente que visse boas e grandes vantagens nesse sistema - ainda que não fosse aplicá-lo de boas em sua casa. A ideia da educação para a Natureza, para o conhecimento prático da vida, para enfrentar as dificuldades, ficou bem expressa nos textos d' "As Farpas".

 

"Basta vê-las no Inverno, num grande dia de chuva. A inglesa, se tem que fazer compras ou visitas, põe o seu water-proof, calça as suas galochas, toma o seu guarda-chuva, e aí vai chapinando a lama. A portuguesa em casa, encolhida, amuada, inclusa (segundo a pitoresca expressão do nosso grande desenhista Manuel de Macedo), cai, por causa de alguns pingos de água, numa desolação maior que a de Job sobre o seu monturo." (...)

"E que educação superior, em verdade, não sai das árvores, das relvas, do pacífico mar-char dos regatos, das recolhidas sombras, das searas, dos milhos, de todos os tranquilos seres que cumprem nobremente, e sossegadamente, o seu dever de crescer!

Mas o melhor é o resultado físico: bom sangue vermelho, forte musculatura, ampla respiração, cabeça fresca, digestão de aço.

Em contraste veja-se uma menina de dez anos, aqui em Lisboa, nestas altas casas encarceradas: pálida, curvada, acanhada, com olheiras, lendo já o jornal, cheia de si, caprichosa, ardendo em vontades, em curiosidades - uma boneca de cera habitada por um bico de gás.

A pequerrucha na quinta habitua-se a estar sobre si, perde o medo, sabe defender-se, tem acção, decide-se. Na cidade são tímidas, gritam, encolhem-se, tremem, empalidecem, hesitam, rezam aos santos, e estão sempre prontas a refugiar-se nos primeiros braços que as acolhem. Mau hábito - dizia a ama de Julieta."

daqui.

 

Um Eusebiozinho, por seu turno, é um exemplo do resultado da educação católica, ultraconservadora, receosa dos fenómenos naturais e das coisas do mundo - entre outros, como Amélia, que engravida sem nunca pensar que algum dia tal lhe acontecesse, confiante na protecção dos santos e do padre Amaro. Recordam-se que Eusébio teve os seus olhos pudicamente tapados pela própria mãe, quando Carlos entrou na sala transportando uma fotografia de um bebé no ventre? Era o mesmo Eusébio que decorava longas poesias sem perceber o seu sentido, e as recitava só para poder dormir nessa noite com a mãe; o mesmo Eusébio que tinha de ser carregado como um fardo, obrigado a suportar longas noitadas - ao passo que Carlos ia para a cama à hora marcada, e nem mais um minuto; o mesmo Eusébio incapaz de reagir ou de se defender quando Carlos o desafiava - para uma brincadeira ou para uma luta. Até a roupa de Eusébio - um "plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso cavaleiro de Walter Scott" testemunhava o sentimentalismo e a pouca prática de exercício daquele menino, a quem nunca tiravam o boné para não se constipar.

 

daqui.

 

O resultado - um homem murcho, perpetuamente vestido de negro, que alimenta paixões nos lupanares, viaja com prostitutas - sem o assumir, quando confrontado - incapaz de manter a palavra, de uma decisão firme, de dar um rumo à vida, deixando-se apanhar por amigos mais espertos e envolvendo-se em lutas que não são a dele.

"Era uma negociação que havia semanas se arrastava entre eles, a respeito de uma parelha de éguas. Silveirinha nutria o desejo de montar carruagem; e o marquês procurava vender-lhe umas éguas brancas, a que ele dizia «ter tomado enguiço, apesar de serem dois nobres animais». Pedia por elas um conto e quinhentos mil réis. Silveirinha fora avisado pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era uma espiga: o marquês tinha a sua moral própria para negócios de gado, e exultaria em intrujar um pichote. Apesar de advertido, Eusébio cedendo à influência da grossa voz do marquês, da robustez do seu físico, da antiguidade do seu título, não ousava recusar. Mas hesitava; e nessa noite deu a resposta usual de forreta, coçando o queixo, cosido ao muro:

— ­Eu verei, marquês... Um conto e quinhentos é dinheiro...

O marquês ergueu dois braços ameaçadores como duas trancas:

— ­Homem, sim ou não! Que diabo... Dois animais que são duas estampas... Irra! Sim ou não!

Eusébio ajeitou as lunetas, rosnou:

— ­Eu verei... Ele é dinheiro. Sempre é dinheiro...

— ­Queria você, talvez, pagá-las com feijões? Você leva-me a cometer um excesso!"

 

"Quando chegaram à porta, Eusébio metera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, àquela hora deserto, mudo, com dois bicos de gás mortiços. Ao ver Carlos fender assim sobre ele, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusébio, encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...»

— Ouve cá, estupor! rugiu Carlos, baixo. Então tambem andaste metido nessa maroteira da Corneta? Eu devia rachar-te os ossos um a um!"

 

daqui.

 

Quem é que sai a ganhar, no final? A meu ver, nenhum. Carlos também se revela um fraco, quando descobre o incesto e o comete voluntariamente; Ega é um fraco, por ver a desgraça acontecer ante os seus olhos; até Afonso fraqueja, incapaz de resistir ao desgosto. A vida, o Destino, o que lhe quiserem chamar, abana todos por igual. A grande vantagem, creio, foi levar Carlos e os representantes da educação "à inglesa" a reagir, ainda que tardiamente, e sem se perder. É essa a diferença entre um Carlos e um Pedro da Maia, aos olhos de Eça.

publicado às 13:40

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