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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


09.11.16

Eça + LGBT?

por Nes.

É um chavão gasto e pouco prestigiante dizer que Eça é um autor que se mantém actual. Gasto porque já todos sabemos disso; desprestigiante porque só mostra que dois séculos depois Portugal continua às voltas com as mesmas questões. Políticos corruptos, sociedade dividida entre privilegiados e injustiçados, falta de cultura, cunhas, uma lassidão que penetra todas as classes e que leva cada um a ocupar-se unicamente da sua vidinha mesquinha, pagando contas e rezando a um Deus morto.

 

É por isso que Eça ainda hoje vende - porque há coisas que os seus livros têm, e de forma tão clara que aparentemente o tio Eça caiu numa máquina do tempo e veio cá tomar notas. Todavia, é necessário fazer uma destrinça - é um autor actual, mas certamente há coisas que lá não estão. Internet, por exemplo, né? Então e coisas que não se esperava que lá estivessem e estão? Esta é mais difícil.

 

daqui.

 

Lesbianismo, amigos. Os livros de Eça têm sugestões que puxam o fio da homossexualidade, latente em algumas personagens, mas nunca abertamente assumidos - tanto que só me apercebi do seu peso muito mais tarde, em parte devido à discrição do autor e em parte devido ao facto de os ter lido demasiado jovem.

 

Fiquei espantada, pois. Para mim o mundo de Eça, que ainda era a preto e branco, e tinha animais que falavam e menos smog, não admitia referências a este tema, nem sequer encapotadas, como é o caso. A rígida doutrina católica, o pudor, o preconceito, certamente trabalhariam no sentido de abafar tais coisas, passando por cima delas como se não existissem. Eça é actual, mas pouco moderno; é preciso ler as suas páginas com um grão de sal, e ter em mente que sabemos muito pouco sobre aqueles tempos para julgar tomadas de posição.

 

daqui.

 

Apesar de existirem pelo menos duas lésbicas nos livros de Eça, há ainda uma personagem gay, pouco explorada em comparação. Conhecem o Libaninho (O Crime do Padre Amaro)?

 

"— Então o senhor pároco veio, hem? perguntou o Libaninho, mostrando à porta da sala de jantar o seu rosto gordinho cor de limão, a calva luzidia; e vindo para ela com o passinho miúdo, um gingar de quadris:
— Então que tal, que tal? tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes...
— Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota."

 

Pouco explorado; só aparece meia dúzia de vezes, sempre personificando o beato exagerado e histérico, sempre aflorado muito ao de leve - para no último capítulo a bomba cair com estrondo.

 

"— Pois é verdade, disse o cónego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque enfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E às dez horas da noite, na alameda! Já é imprudência... Mas enfim a coisa esqueceu, e quando o Matias morreu, lá lhe demos o lugar de sacristão, que é bem boa posta... Muito melhor que o que ele tinha no cartório... E há de cumprir com zelo!"

 

Isto é Eça puro, a disparar balas em várias direcções. Volta a aflorar o comportamento de Libaninho de modo muito frugral, para logo de seguida mostrar que para a Igreja basta ser um beato extremamente zeloso para garantir lugar na sua estrutura, fazendo vista grossa a um gravíssimo preconceito.

 

daqui.

 

No entanto são as lésbicas que levam a palma em Eça, embora nunca assumidamente um tema aberto. Uma delas será D. Joana Coutinho, a anfintriã do salão onde Artur (A Capital) passou uma única e desastrada soirée.

 

A alcunha de D. Joana era D. Juana. Se isso não basta para denunciá-la, abordemos o seu perfil. Era conhecida pelos seus caprichos no que a companhia feminina dizia respeito, a ponto de tomar uma favorita, levá-la consigo para todo o lado, verdadeiras compinchas inseparáveis - e na estação seguinte "outra favorita reinava". O facto de ser muito popular, embora sempre com alguns comentários malignos, protegia-a: "como dizia Bento
Correia — «todo o mundo tinha a caridade de não aprofundar". A sua relação com o marido é pouco mais que meramente cordial; a sua pretensão é, após enviuvar, ir para um convento, "onde o número e a
idade das educandas satisfariam amplamente as suas necessidades de ternura feminina".

 

daqui.

 

Ainda assim a abordagem mais descarada é a que é devida a Leopoldina, a amiga desencaminhadora de Luísa (O Primo Basílio). Descrita como uma beldade daquele tempo, algo que é fruto não apenas do seu aspecto físico mas também do seu comportamento - fuma, usa vestidos muito modelados e justos ao corpo, colecciona amantes, incendeia a imaginação dos pacatos homens de outrora - certo é que Leopoldina é um dos rastilhos que incendeia o comportamento posterior de Luísa.

 

"Às vezes na sua consciência achava Leopoldina "indecente"; mas tinha um fraco por ela: sempre admirara muito a beleza do seu corpo, que quase lhe inspirava uma atração física. Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atrás da paixão, coitada!"

 

"— Lembras-te quando estivemos de mal?
Luísa não se lembrava...
— Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento — disse Leopoldina.
Puseram-se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha , a Freitas. Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a corte um mês.
— Tolices! — disse Luísa corando um pouco.
— Tolices! Por quê?
Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!
— Nunca — exclamou —, nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!..."

 

Leopoldina, D. Juana, Libaninho - e outras talvez, que não consigo vislumbrar. Ainda bem que Eça, ainda que morto há mais de cem anos, aparenta estar à frente de muitas pessoas do nosso tempo.

publicado às 09:44

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