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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


27.07.16

Eça Bovary.

por Nes.

Creio que todas as pessoas que têm o hábito de ler e escrever sabem que a sua escrita varia em função do autor que lêm nesse momento. Eu noto a mudança na forma como escrevo consoante ando a ler Eça, Ken Follett, Isabel Allende, Saramago, Júlio Dinis ou Stephen King. O nosso estilo é sempre influenciado pela leitura presente, e se não estamos a ler nada, a escrita não flui como deve ser.

 

Eça era um entusiasta da leitura, a que terá dedicado boa parte dos anos do curso de Direito. Quando descobriu Flaubert terá descoberto o caminho da sua vida - o realismo, o estudo de um tipo, de um vício, de uma humanidade, com a ironia e distanciamento necessários para se rir dos comportamentos hipócritas, incoerentes e ridículos.

 daqui.

Quando li "Madame Bovary" a primeira vez, já andava na Faculdade - já conhecia bem a escrita de Eça - mas não conhecia a ligação entre os livros dele e a escrita de Flaubert. Por isso fiquei bastante surpreendida porque à medida que avançava nas páginas ia tendo tantos déjà vu que fiquei intrigadíssima. Não demorei a descobrir a estreita ligação entre ambos os escritores, e a minha teoria é que "Madame Bovary" é a obra que mais influencia a escrita total de Eça.

 

Não é de plágio que tratamos aqui. Eça foi acusado disso, em particular no que concerne às suas obras "O Crime do Padre Amaro" e "A Relíquia", casos que serão abordados aqui um dia (quando encontrar a obra alegadamente copiada por Eça para compor o sonho de Teodorico n' "A Relíquia", que não encontro em lado nenhum). No entanto, aqui falamos de uma tremenda simpatia que Eça tinha pela obra do escritor francês, e da genialidade que lhe reconhecia na descrição de certos episódios ou no uso de expressões tão certeiras que Eça não resistiu a adoptá-las.

 daqui.

 

Dei-me então ao trabalho de reler "Madame Bovary" e de marcar as passagens que me chamaram a atenção, estabelecendo a ligação para os livros de Eça. Note-se que a influência perpassa principalmente para os livros que Eça escreveu com um propósito satírico e caricatural da sociedade, o que reforça a minha ideia que Flaubert era o livro de referência para o realismo queirosiano.

 

Resumindo: "Madame Bovary" é a história do médico Charles Bovary, um indivíduo sujeito às vontades alheias - pais, professores, esposa - até ao dia em que conhece Emma Rouault, por quem se apaixona. Assim que enviuva pede-a em casamento e julga ter tudo na vida - mulher, carreira, todas as doçuras da vida. Não se apercebe que Emma, impelida para o casamento por conveniência e por uma visão do mundo embotada pela literatura, é caprichosa, altiva, arrogante, e que se considera melhor que toda a gente. Emma enfastia-se com o marido, arranja amantes para procurar as delícias do amor que lia descritas nos seus livrinhos, e aos poucos arruína as finanças do marido e pisa todos os deveres do matrimónio.

 

daqui.

 

Antipatizo profundamente com essa mulher, por causa dessa atitude de se achar superior a toda a gente e por se revoltar ao não ter o que acha que merece. Emma é apenas uma mulher vulgar, inconveniente e pouco ciente do seu lugar, tão profundamente egoísta que não se rala minimamente nem com o marido, nem com a filha. Quanto mais vezes leio este livro, mais odeio a mulher. A Eça este relato terá parecido extraordinário, e creio que com base neste livro e na observação que ele próprio fazia da sociedade lisboeta, terá escrito um dos mais violentos artigos a respeito das meninas portuguesas n' "As Farpas". Todavia, há imensos pontos de contacto entre este livro e as obras subsequentes.

daqui.

 

- Charles conhece Emma e ela tem uma sombrinha "de seda cor de papo de rola". Há várias menções a esta cor ao longo dos livros de Eça, por norma associado a mulheres de má virtude, como a Concha de "A Capital", que cobiçava uma sombrinha dessa cor e a exigia a Artur.

 

- Charles, após casar com Emma, enumera todas as dificuldades da sua vida - as privações do colégio, a falta de dinheiro, a esterilidade do seu primeiro casamento. Que fez Amaro quando tomou posse da sua Amélia? Exactamente o mesmo. Para ambas as personagens, a posse da mulher amada gera um "antes de" e um "depois de", vendo o período anterior como um período muito pouco feliz, quase miserável, diria.

 

- Emma procurava saber o que significava "felicidade, paixão e êxtase, que, nos livros, lhe haviam parecido tão belas". Então e que fazia Luísa d' "O Primo Basílio", que desculpava Leopoldina, porque "ia atrás da paixão, coitada!". Ambos os escritores descrevem nestas duas obras a palavra paixão como vertendo felicidade, tal como uma taça muito cheia de água. Acho que Eça deve ter ficado mesmerizado com a comparação, porque a usa mais do que uma vez, em "O Primo Basílio" e "O Crime do Padre Amaro", salvo erro.

daqui.

- Emma lia compulsivamente Walter Scott no convento? Luísa também, na sua juventude. Ai os romances, esses corruptores da mente feminina!

 

- "Parecia-lhe que certos lugares da Terra deviam produzir felicidade, como as plantas próprias de um terreno que se desenvolvem mal noutro lugar". Emma e Artur d' "A Capital" pensam da mesma forma - simplesmente para o nosso Artur, a felicidade consistia em escrever, algo que só conseguiria fazer em Lisboa. Aliás, Eça usa a mesma metáfora vegetal para falar da paixão platónica de Artur, oriunda de Lisboa - "era só lá que uma civilização superior produzia aquelas belezas delicadas de perfil patrício, como certas flores preciosas que só nascem em terrenos muito preparados!"

 

- Emma suspira por Paris. "Como seria esse Paris? Que nome imenso!". Luísa também. "Oh, ir a Paris, Paris sobretudo!"

 

daqui.

- Em Yonville, o guarda do cemitério usa o terreno livre para plantar batatas, mesmo comportamento do coveiro de Oliveira de Azeméis. O mesmo tem até o desplante de dizer a Artur - "É tudo o que V. Sª lhe plante. Está abarrotadinho de estrume!..."

 

- Quando Emma começa a sentir o peso do seu casamento, a sogra e o marido entendem que os romances são o que lhe está a fazer mal. Mesma opinião do Paula, vizinho de Luísa - "é muita novela naquela cachimónia"

 

- Alguém reparou que Rodolphe e Basílio pensam da mesma forma em como se livrar das respectivas amantes, ainda antes de o serem? E alguém reparou na mesma forma sobranceira como Rodolphe e Basílio falam dos trajes provincianos que vêm em Yonville e em Lisboa?

 

- Gostei de ver que o farmacêutico Homais faz uma concha acústica no ouvido para perceber melhor os discursos nos comícios. É que o amigo Abílio Pimenta, quando vai às sessões do Partido Republicano em "A Capital", faz o mesmo...

 

- Rodolphe repara em Emma e "na delicadeza da meia branca, que se lhe afigura como que um pouco da sua nudez". O padre Amaro pode dizer como ficou perturbado ao ver a meia de Amélia!

 

- Achei enternecedor como Emma e Luísa se acharam mais bonitas depois de trair os maridos. E como repetiam mentalmente "tenho um amante!"

daqui.

- Luísa e Emma notam que após um certo período de exaltação romântica, acabam por se instalar no adultério tão confortavelmente como no casamento, e revoltam-se com isso. Têm amantes para estarem constantemente a palpitar, e exigem deles constantes renovações de declarações de paixão.

 

- E quando o doutor Canivet chega para ver a perna de Hippolyte? Trata primeiro dos cavalos e do seu cabriolé, antes de ver o doente. O mesmo faz o doutor Gouveia, quando vai ver Amélia.

 

- Emma e Léon usam um coche de praça para esconder os seus amores, uma solução inspirada no momento. Por cá é o meio adoptado por Carlos da Maia e pela Condessa de Gouvarinho quando ficam sem o seu ninho de amor.

 

- O farmacêutico Homais é uma personagem muito curiosa; a mim lembra-me muito o Conselheiro Acácio. Tanto me lembra que encontrei duas passagens engraçadas - uma, no qual ele fala dos homens que preferem mulheres negras como tendo "gosto de artista" (uma opinião manifestada no jantar do conselheiro n' "O Primo Basílio") e outra, quando ele conversando com Léon impede um encontro com Emma. A diferença para o livro de Eça é que o conselheiro impede Luísa; a semelhança é o facto de ambos impedirem o encontro à pessoa que no seio do romance têm uma postura dominada.

 

- Emma precisa de dinheiro para pagar as dívidas e recebe uma proposta indecente da parte do Dr. Guillaumin, que lho daria a troco de favores sexuais, que Emma nega. Luísa faz exactamente o mesmo - para rever as cartas roubadas por Juliana, pede dinheiro ao Castro banqueiro, e recusa qualquer sevícia (sova-o inclusivamente, uma cena hilariante).

 

- A Homais "a sotaina fazia lembrar uma mortalha, e detestava uma pelo receio que lhe inspirava a outra". Mesmo pensamento do Gustavo tipógrafo, em "O Crime do Padre Amaro".

 

- E quando Emma se envenena, e motiva uma discussão teológica entre Homais e o padre Bournisien? Lembrou-me de imediato a discussão entre o Dr. Gouveia e o Padre Ferrão, quando Amélia dá à luz.

 

Acho mesmo que Flaubert era uma bússola para Eça encontrar alguns traços para a sua escrita. Actualmente estou a ler "Salambô", que Eça refere imensas vezes nas suas cartas. Ainda não percebi o fascínio, é um livro difícil. Talvez ainda não esteja madura para o ler; veremos.

publicado às 12:34

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