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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


03.08.16

Doutrinar escrevendo.

por Nes.

Sabemos bem que Eça sempre deu forma ao seu propósito de criticar a sociedade, rir com as suas falhas, e educar através da caricatura para os comportamentos menos adequados dos seus elementos. É impossível negar a sua luta contra a incoerência, a estupidez e o adormecimento cultural daqueles tempos.

 

O que também não pode ser negado é o intuito moralizador de alguns dos seus escritos. Se bem se recordam, "O Mandarim" é uma longa lição sobre a ganância, concluindo-se que só sabe bem o pão que é ganho todos os dias com o fruto do nosso trabalho. Podemos igualmente ver - a contrario - que "A Relíquia" se revolta contra os hipócritas, demonstrando o resultado de ter uma vida dupla. No entanto o maior propósito moralizador, a meu ver, está no "Contos", em particular numa singela história.

daqui.

 

Nele conta-se a história de Frei Genebro, discípulo de Francisco de Assis, famoso pelas perfeitas virtudes evangélicas. Era humilde, caridoso, com a prática regular da oração e penitência, admirado por todos. Um dia foi visitar o seu amigo Egídio, e encontrou-o fraco e emaciado, prestes a morrer. Enternecido, procurou fazer valer os seus préstimos ao seu amigo. O que poderia fazer por ele? Egídio, a medo, confessa-lhe - gostava tanto de poder comer uma última vez um pedaço de porco assado! Seria pecado?

daqui.

 

Frei Genebro tranquilizou-o, mansamente. Lembrando-se que no caminho para a casa do amigo encontrara um pastor adormecido na sua função de vigiar alguns tenros bacorinhos, partiu. Lestamente apanhou um porquinho que andava desvalido, num ápice cortou-lhe uma perna, e deixou o pobre porquinho a sangrar, erguendo bem alto a perna com a qual ia contentar os últimos desejos do seu amigo.

 

Frei Genebro, contente pelo serviço prestado, continuou pelo mundo fazendo o bem e sendo o mais vivo exemplo do amor à humanidade, sacrificando-se em prol dos fracos e desvalidos. "Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu coração como a água de um rio, oferecendo os seus braços como alavancas incansáveis; e tão depressa numa ladeira deserta aliviava uma pobre relha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discórdias."

 

Um dia enfim morreu, e a sua alma percorreu o caminho para o céu. "E a alma de Genebro perfeitamente sentia que estava ali, esperando também, entre o Purgatório e o Paraíso. Então, subitamente, nas
alturas, apareceram os dois imensos pratos de uma balança — um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas Boas Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o peso das suas Obras Más. Entre os braços do anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas o prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e glória!"

 

Assim era chegada a vez de Frei Genebro, e que as suas boas e más acções fossem julgadas. Um homem exemplar de tão elevadas virtudes certamente teria o Céu garantido. Os anjos exultavam com a chegada de um Santo ao Paraíso. O prato das suas boas obras mal podia suster toda a bondade, humildade e dedicação do nobre homem.

daqui.

 

Mas! "Subitamente, porém, no alto, o prato negro oscilou como a um peso inesperado que sobre ele caísse! E começou a descer duro, temeroso, fazendo uma sombra dolente através da celestial claridade. Que Má Ação de Genebro trazia ele, tão miúda que nem se avistava, tão pesada que forçava o prato luminoso a subir remontar ligeiramente, como se a montanha de Boas Ações que nele transbordavam fossem um fumo mentiroso?"

 

O prato das más acções inexoravelmente descia, descia sempre, até ficar lado a lado com o prato das boas acções. Frei Genebro teve medo. Todos aguardavam para saber qual o mal que aquele homem perfeito havia cometido, a ponto de anular com o seu peso uma Vida conduzida pela virtude. Espantados, quando o prato enfim se imobilizou - "descobriram, no fundo daquele prato, que inutilizava um santo, um porco, um pobre porquinho com uma perna barbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa poça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!"

 

daqui.

 

E foi assim que a Frei Genebro foi negada a entrada no Paraíso - por um dia, para satisfazer o pedido do corpo de um humano, sacrificasse o corpo de um animalzinho, um porco bebé, sem sequer dar a consolação da morte rápida, deixando-o a esvair-se e a sofrer. "Então o anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou cair, na escuridão do Purgatório, a alma de frei Genebro".

 

Na época li o conto em voz alta à minha avó, espantada com o evoluir dos acontecimentos. Não conhecia a história, e achei assustador que o santo homem não tivesse por um animal a consideração que teria com um humano, aliviando o seu penar. Que essa má conduta tivesse tanto peso como uma vida de santidade, achei arrepiante, mas justo. Há textos n' "As Farpas" em que Eça evidencia sensibilidade para com os mais frágeis - e aqui vemos um exemplo muito simples e muito marcante da necessidade de evitar causar sofrimento a todos os seres vivos. Mais uma lição de moral?

 

 

publicado às 08:56

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