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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


02.11.16

Do desperdício.

por Nes.

Há diversas personagens que partilham em Eça um destino fatídico. Têm diversos aspectos em comum, que à partida seriam facilitadores das suas vidas - talento, ideias e dinheiro para as concretizarem. Tudo está preparado para os tornar ricos, famosos e felizes, mas nada se concretiza, e tudo se esvai em fumo. Os Fábios Paim's do passado.

 

João da Ega, o íntimo de Carlos da Maia, é filho de uma senhora rica de Celorico de Basto. Estuda Direito em Coimbra e tem uma fabulosa inclinação para as letras. É brilhante e vivo, adepto do paradoxo e do exagero, excelentes capacidades oratórias, além de ser engraçado. O seu famoso "As Memórias de Um Átomo" levá-lo-ia à fama, evidenciado porque o projecto, falado em público, foi bem recebido. Os seus desgostos foram condicionados no sentido literário - "O Lodaçal". Ele e Carlos tinham o brilhante projecto "Revista de Portugal" que seria certamente um raio de luz nas obscuras e românticas letras portuguesas.

 

E o que faz? Nada. Passeia, namora Raquel Cohen, gasta a sua verve em apodos públicos ao marido da amante, esbanja o dinheiro da mãe, come perdizes frias, acompanha Carlos nas suas aventuras, e quando chega a altura de ser útil, ajudando o amigo a ultrapassar o medonho desgosto que enfrenta - foge cobardemente ao confronto.

 

daqui.

 

Artur Corvelo, o nosso querido Artur, portador de um nome normalmente associado a vitórias e glória, mas que se revela um falhado, um tão miserável falhado que temos pena dele. Não é rico, mas os seus pais esforçam-se por o fazer estudar em Coimbra e tornar-se bacharel. Tem também uma queda singular para as letras e sonha tornar-se um poeta. O padrinho falece e lega-lhe dinheiro suficiente para se sustentar e se dedicar à sua obra.

 

Todavia, Artur é um fraco e o seu carácter destrói a sua ambição. Com o dinheiro no bolso, mal aconselhado por amigos interesseiros, o jovem gasta todo o seu pecúlio a viver fartamente em Lisboa, inútil e improdutivo. Sustenta uma prostituta, faz amizades reles, come, bebe, vai ao teatro, persegue a sua musa na rua, escreve os anémicos "Esmaltes e Jóias", não produz nem melhora o que já tem. Um desperdício gigantesco de tempo, recursos e talento, que existia mas exigia trabalho para poder dar em algo.

 

daqui.

 

Sebastião, o nosso Sebastião, Sebastiarrão. Dono de uma incrível vocação para a música, filho único tal como os dois rapazes acima mencionados, tímido e bonacheirão. A mãe, rica e encarregue unicamente do seu bonito menino, fá-lo tomar aulas de música. O professor fica louco com o talento do jovem - "há-de ser um Rossini! É puxar por ele!" E o que acontece?

 

"Mas era justamente o que ela não queria, era puxar por ele, coitadinho! Por isso não foi um Rossini."

 

daqui.

 

Creio que Eça quis, com estes três exemplos de talentos falhados, realçar a importância da educação para o sucesso no futuro. Mesmo Carlos da Maia, que tinha tudo para vencer - inclusivamente uma educação que o próprio Eça aprovaria - acaba por se tornar um inútil, a meu ver por influência das companhias que teve na Universidade. Se bem me recordo, Carlos tinha vontade de trabalhar e estava entusiasmado com a sua ciência antes de se perder nos meandros da convivência universitária, o que piorou com a longa viagem de recreio que empreendeu depois disso, e com a falta de clientela no seu elegante consultório.

 

Todavia, se tivesse de responsabilizar alguém, culparia a inércia destes três senhores, que nunca chegou a ser corrigida - e talvez tenha mesmo sido criada - pelos pais. Ega era um diletante tal como Carlos; Artur era demasiado sonhador, procrastinador, disperso e com os pés pouco assentes na Terra; Sebastião era uma alma correcta, mas pouco habituado ao sacrifício. E todos eles servem bem como exemplo para as situações em que não nos apetece fazer nada.

publicado às 09:33

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