Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


15.02.17

Desamores de São Valentim.

por Nes.

Ontem foi Dia dos Namorados, sabiam?

 

 

Siiiim, todos o sabemos! Não se fala de outra coisa, certo? Ainda bem que tanta gente festeja São Valentim, mesmo não tendo uma relação, ou estando preso a um romance de pacotilha/instantâneo/sem fulgor, ou mesmo que festejem regularmente o dia/mês em que começaram essa bela história. O que é preciso, no fundo, é que nenhuma dessas relações tenha saído de um livro do tio Eça.

 

São desafortunadíssimos, os casais queirosianos! Os primeiros que nos passam pela cabeça são indubitavelmente os mais infelizes - Carlos e Maria Eduarda. Têm tudo para ser um casal amoroso e feliz para o resto da vida, como bem resume o desnorteado Ega.

 

"Mais porém o encantava Maria que nunca lhe parecera tão bela: o vestido claro que tinha nessa noite modelava-a com a perfeição dum mármore: e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons de ouro esfiado no cabelo - o incomparável ebúrneo da sua pele ganhava em esplendor e mimo... Tudo nela era harmonioso, são, perfeito... E quanto aquela serenidade da sua forma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz destes reinos! Em torno dele só havia facilidade, doçuras. Era rico, inteligente, duma saúde de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só tinha o número de inimigos que é necessário para confirmar uma superioridade; nunca sofrera de dispepsia; jogava as armas bastante para ser temido; e na sua complacência de forte nem a tolice publica o irritava. Ser verdadeiramente ditoso!"

"Pela sua figura, o seu luxo, ele destaca nesta cidade provinciana e pelintra. Ela por seu lado, loura, alta, esplêndida, vestida pela Laferrière, flor duma civilização superior, faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se atraem! Há nada mais natural?"

 

E como acabam? Descobrindo que são irmãos. Não têm o alívio da morte, ou a raiva do adultério, para os ajudar a quebrar o laço. Têm a consanguinidade - que os obriga a manter uma relação estreita, mesmo depois de descoberta a verdade. Muito horrível, não é? De notar que também o casal de "A Tragédia da Rua das Flores", Vítor e Genoveva, têm também contra si os laços familiares, embora a morte da matrona salve Vítor do opóbrio.

 

daqui.

 

Por Leiria não se é mais feliz. Amaro e Amélia, unidos pela sua religião, pela atração física, até pelas iniciais dos seus nomes - e separados pelo sacerdócio, que os impede de legitimar uma relação que muito provavelmente não existiria com tamanho fulgor se Amaro não fosse padre. Todos sabemos que as dificuldades aumentam o ardor. É irónico que um casal tão espiritual tenha sido derrotado por algo tão biológico - um filho. Amélia morre no parto, o que lança Amaro numa tristeza enorme - mas não o impede, mais tarde, de encontrar novos "amores", que apenas servem para aliviar as suas agora assumidas necessidades.

 

"Ela rompeu em soluços, sem responder.
— Morta! exclamou Amaro.
— Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou enfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto também."

"Então junto deles passaram duas senhoras, uma já de cabelos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma criaturinha delgada e pálida, de olheiras batidas, os cotovelos agudos colados a uma cinta de esterilidade, pouff enorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.
— Cáspite! disse o cónego baixo, tocando o cotovelo do colega. Hem, seu padre Amaro?... Aquilo é que você queria confessar.
— Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse e pároco rindo, já as não confesso senão casadas!"

 

daqui.

 

De notar também o enorme aranzel de desamores quando nenhuma das metades do casal é grande peça. Se se recordam, o pobre Artur comete a imbecilidade de se apaixonar por uma cocotte, façanha comum a outras personagens, como Zé Fernandes (A Cidade e as Serras), ou Teodorico (A Relíquia). Mesmo quem se apaixona por gente aparentemente decente - Ega por Raquel Cohen, gracinha por André Cavaleiro (A Ilustre Casa de Ramires) vê que tudo acaba por correr mal, principalmente por causa do - casamento.

 

Em suma, desejo que tenham tido um bom São Valentim, sem o coração quebrado desta gente ficcionada. Não há amores felizes em Eça, mas espero que os haja por aí!

publicado às 10:38

4 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.