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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

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Escrutinando Eça.


03.09.17

Corridas à moderna.

por Nes.

À hora da publicação deste post, aglomera-se na zona ribeirinha do Porto e Vila Nova de Gaia uma multidão incontável, para assistir à "corrida dos ares" - oito anos depois da última prova, a Red Bull Air Race volta a cruzar os céus do Douro. A Fórmula 1 dos ares foi um sucesso logo na primeira edição, que foi também a mais calma; os vendilhões de cadeirinhas, chapéus de cowboy, bebidas frescas, flores e restante quinquilharia só se aperceberiam do potencial do evento nos anos seguintes. Também não vi, nesse ano, pessoas a atropelarem-se para apanhar os brindes das marcas que aí divulgaram os seus produtos, em cenas dignas da série Walking Dead.

 

 

É difícil não recordar a icónica cena das corridas de cavalos do livro "Os Maias" - igualmente um evento pouco usual no país, e com uma dimensão considerável numa cidade pequena. Todavia, o principal paralelismo que pode ser traçado é este - as pessoas não percebem puto disto.

 

"Ele puxou uma cadeira, rindo do interesse que ela tomava pelas corridas. E ele que a conhecera sempre uma entusiasta de toiros!... Pois os nomes dos cavalos eram Júpiter e Escocês... - Nenhum desses nomes me agrada, não aposto. E então que te parece tudo isto, Alencar?... A nossa Lisboa vai-se saindo da concha... Alencar, pousando o chapéu sobre uma cadeira, e passando a mão pela sua vasta fronte de bardo, confessou que aquilo tinha realmente um certo ar de elegância, um perfume de corte... Depois, lá em baixo, aquele maravilhoso Tejo... Sem falar na importância do apuramento das raças cavalares... - Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente disso, que és um mestre em todos os sports, sabes bem que o apuramento... - Sim, com efeito, o apuramento, muito importante... - disse Carlos, vagamente, erguendo-se a olhar outra vez a tribuna."

 

As corridas dos ares, hein? Bem bom, para a divulgação das nossas cidades. O nosso Portugal vai marcando presença no mundo! Andamos a ganhar nos desportos, vencemos a Eurovisão, os nossos Porto e Gaia passam nas TV's de todo o mundo... Muito importante para o turismo!

 

"Nesse momento, alguns dos rapazes mais amadores, dos que traziam binóculos a tiracolo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois cavalos passavam num galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse que tinha ganho Escocês. Outros afirmavam que fora Júpiter. E no silêncio que se fez, de lassidão e de desapontamento, ondeou mais viva no ar, lançada pelos flautins da banda, a valsa de madame Angot. Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando, olhando a tribuna - onde as senhoras continuavam debruçadas no parapeito, à espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu as impressões, dizendo que tudo aquilo era uma intrujice."

 

Os aviões têm de passar nos pórticos alinhados com as cores dos pilares, não é? Mas este passou abaixo. Passou abaixo, estou-te a dizer! Mas tu achas que lá porque esta malta tem treino deixa de falhar! Pois ele quase rebentou com o pilar! Embarrou-lhe mesmo! Tu não viste, não tens o meu ângulo de visão!

 

daqui.

 

"E como o marquês, pousando o copo, e querendo acalmar o general, falava do apuramento das raças, e da remonta, - o outro ergueu os ombros, com indignação: - Que me está você a cantar! Quer você dizer que se apura a raça para a remonta da cavalaria?... Ora vá lá montar o exercito com cavalos de corridas!... Em serviço o que se quer não é o cavalo que corra mais, é o cavalo que aguente mais... O resto é uma história... Cavalos de corridas são fenómenos! São como o boi com duas cabeças... Então histórias!... Em França até lhe dão Champagne, homem!... Então veja lá!..."

 

Os gês, malta! Os gês que a porcaria do avião sofre! Esta acrobacia que ele fez agora, esquece, não tens noção da força que ele tem de fazer lá dentro! Isto é uma coisa que nem vos passa pela cabeça! (diz o rapazote que nunca entrou sequer num avião comercial).

 

"Era uma desordem! Carlos e os outros, saindo à pressa, viram ao pé da tribuna real um magote de homens - onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os rapazes corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se, alçando-se em bicos de pés; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as cordas da pista, apesar dos repelões dos polícias: - e agora era uma massa tumultuosa de chapéus altos, de fatos claros, empurrando-se contra as escadas da tribuna real, onde um ajudante d’El-Rei, reluzente de agulhetas e em cabelo, olhava tranquilamente. E Carlos, furando, pôde enfim avistar no meio do montão um dos sujeitos que correra no premio dos Productos, o que montava Júpiter, ainda de botas, com um paletó alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendonça, que arregalava os olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-no, queriam que ele fizesse um protesto. Mas ele batia o pé, tremulo, lívido, gritando que não se importava nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca vergonha! O protesto ali era um arrocho! Porque o que havia naquele hipódromo era compadrice e ladroeira!" 

 

Eh, ó amigo! Chegue-se para lá! Estou aqui a guardar lugar desde as sete! Desde as sete, ouviu? Não estou para levar consigo! Chegue-se para lá! Para a próxima venha mais cedo!

 

 

publicado às 12:17

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