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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


20.07.16

Cenas de uma tarde de Verão.

por Nes.

(Tarde quente de Verão, Amílcar e Juvenal,  dois amigos, conversam numa esplanada . Têm aberto o Jornal das Novidades em cima da mesa, contornado por garrafas vazias de cerveja e cascas de tremoços em pires brancos. Juvenal tomara a iniciativa de o abrir para findar uma discussão acerca de uma polémica decisão do árbitro no jogo Alemanha vs Itália do último Europeu de futebol – tinha ou não havido “mão” do jogador dentro da grande área? O assunto, debatido exaustivamente, tinha morrido como uma brasa esquecida no canto do fogão, e agora Amílcar folheava indolentemente as primeiras páginas, dedicadas à política portuguesa)

 

AMÍLCAR (aconchegando os óculos ao nariz) - Já viste esta notícia do Relvas? Ficou sem a licenciatura... Diz aqui assim – “A principal razão para esta anulação está relacionada com a passagem de Miguel Relvas a duas cadeiras que, afinal, já tinham sido retiradas do plano de estudos da licenciatura

JUVENAL - Oh, que novidade... Já se sabe que essa gente chama "Sotôr" uns aos outros sem que tenham realmente mérito nisso.

 

AMÍLCAR - Oh, já estás a dizer asneiras. Pois desde quando é que alguém pode ir para deputado e ministro e tudo sem nunca ter andado na Universidade?

 

JUVENAL - Isso não é requisito, nunca foi nem interessa para nada, o que importa é saber das coisas. O Relvas só mostra como as aparências interessam, mais vale fabricar um curso para lhe chamarem Doutor do que se impor pelo pouco que sabe. Digo-te mais! A burrice em si ainda vem a ser mérito! Um homem que não estuda não pensa nem questiona... Se um homem se pudesse apresentar ao chefe do Estado com os seguintes documentos: espírito de tal modo bronco que nunca pôde aprender a somar; reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos - o chefe do Estado tomá-lo-ia pela mão, e bradaria, sufocado em júbilo Tu Marcellus eris! Tu serás, para todo o sempre, Presidente do Conselho!

 

AMÍLCAR - Lá estás tu... Pois tu achas que os políticos são todos assim?

 

JUVENAL - Não sei, há-de haver lá quem tenha valor, mas sinceramente, ou falha a instrução, ou falha a educação... Tu não sabes da outra vez que eles a aplaudir lá um dichote qualquer desataram a dar palmadas na mesa, que até o Presidente da Assembleia teve de lhes pedir para não destruírem a mobília?

 

AMÍLCAR (extremamente surpreendido) - Estás a gozar? Mas que raio...? Também te digo, uma assuada só se pode dar no Parlamento. Em mais nenhuma parte é permitido, pelos regulamentos da polícia, ser-se tão excessivamente trocista! Ainda assim não percebo... Todos os dias aqueles ilustres deputados se dizem uns aos outros: É falso! É mentira! E não se esbofeteiam, não se enviam duas balas!

 

JUVENAL - Entre eles não! Mas já tivemos ainda há pouco tempo um ministro a ameaçar um colunista de jornal de lhe oferecer salutares bofetadas... Não é quem quer doutor em impropérios! Enfim, ficou pelas palavras! Se andássemos mais atentos ao que se vai passando nos debates parlamentares, encontrávamos num instante motivos para rir. A deputação é uma espécie de funcionalismo para quem é incapaz de qualquer função. É o emprego dos inúteis. Por isso o Parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, maldizer um pouco, e combinar partidas de whist. O Parlamento é uma sucursal do Grémio!

 

AMÍLCAR - Não me espanta que as pessoas não liguem à política. No outro dia houve um que disse que as pessoas estão fartas deles, deputados! Acreditas nisto?

 

JUVENAL - Acredito sim. A política é um assunto demasiado sério para não nos rirmos dela... Devíamos andar mais atentos.

 

AMÍLCAR - Está bem, façamos por isso. Mais um fino?

 

(As partes a negrito são excertos d’ “As Farpas”, escritos por Eça. Os hiperlinks são notícias recentes).

publicado às 11:40

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